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01/09/2002 - 06h08

Artigo: Nos tempos do cólera

LUISA MASSARANI
especial para a Folha de S.Paulo

O Vale do Paraíba foi, há quase cem anos, em 1894, o cenário de um instigante e controverso período da ciência brasileira. Em plena pandemia mundial do cólera, a doença eclodiu na região.

Foi o que faltava para a erupção de uma disputa científica latente: seriam algumas doenças causadas por microrganismos? A polêmica envolveu nada menos do que dois ícones da ciência brasileira, Adolpho Lutz (1855-1940) e Oswaldo Cruz (1872-1917). A partir daí, eles mantiveram uma correspondência científica nas décadas seguintes, até a morte de Cruz.

Para a grande maioria de clínicos e médicos de então, as diarréias que surgiram em 1893 e se alastraram pelo Vale da Paraíba nos dois anos seguintes eram causadas por problemas ambientais locais, não-associados a micróbios.

Houve até quem sugerisse motivos pontuais, como pêssegos verdes ou chouriços estragados, mas Lutz e Cruz não pensavam assim.

Eles uniram esforços e provaram que a causa era o vibrião do cólera, isolado por Robert Koch (1843-1910) uma década antes. Um acervo inédito com cerca de 4 mil documentos de Lutz e um diário que inclui um relato minucioso dos experimentos laboratoriais feitos na ocasião por Oswaldo Cruz trazem, agora, nova luz ao debate que ocupou as páginas dos jornais da época.

"Os novos dados dão subsídios para entendermos melhor como se deu o processo de institucionalização da bacteriologia no Brasil, num cenário em que a área também estava se instituindo no resto do mundo", diz o historiador Jaime Benchimol, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

Ele defende que foi o episódio às margens do Paraíba que pôs Oswaldo Cruz em destaque. Isso colocaria em xeque a crença usual de que a campanha contra a peste bubônica, em 1899, teria sido o primeiro evento a atrair a atenção para Cruz no domínio da saúde pública.

Considera-se, em geral, que o sanitarista teria adquirido sua formação mais sólida após sua estadia no Instituto Pasteur, na França, para onde se dirigiu em 1896, a fim de se especializar em microbiologia.

"Ao contrário do que muitos biógrafos de Oswaldo Cruz afirmam, ele não era um ilustre desconhecido quando, em 1902, tornou-se diretor de Higiene [equivalente ao cargo de ministro da Saúde] e do Instituto Soroterápico Federal (atualmente, Instituto Oswaldo Cruz)", diz Benchimol.

Ao lado da bióloga e historiadora da ciência Magali Romero Sá, também pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, ele se debruça há dois anos sobre o acervo de Lutz.

Trem de lastro
A década de 1890 começou bastante conturbada no Brasil, política e economicamente, na esteira da instauração da República em 1889. No campo da saúde pública, vários surtos epidêmicos marcaram o período.

Em 1894, passageiros invisíveis e minúsculos seguiram Vale do Paraíba adentro no trem de lastro, que fazia a manutenção dos trilhos. Em novembro, começaram a circular no Rio notícias alarmantes de que diarréias estavam afligindo muitas pessoas na região sul-fluminense do Vale do Paraíba, próxima à fronteira com São Paulo.

Quase metade dos atingidos morria. Para verificar o que se passava, foram enviadas comissões sanitárias de São Paulo e do Rio, ainda em novembro. O ponto de encontro foi a localidade de Cruzeiro.

Do lado paulista, seguiu uma comitiva do Instituto Bacteriológico, que algumas décadas depois passou a se chamar Instituto Adolpho Lutz. Já quase um quarentão, Lutz era o diretor. Sua trajetória científica era versátil nos domínios da história natural e da biologia, incluindo clínica médica e sanitarismo.

Do Rio partiu Oswaldo Cruz, um jovem formado dois anos antes na Faculdade de Medicina, com tese de doutorado sobre transmissão de micróbios pela água.

Outros dois bacteriologistas faziam parte desse exército brancaleônico na busca de micróbios: Eduardo Chapot Prévost, que se tornou depois um cirurgião conhecido por ter sido o primeiro a fazer uma operação bem-sucedida para separar duas irmãs xifópagas, e Francisco Fajardo, médico que formou Carlos Chagas e depois foi catedrático de hematologia da Faculdade de Medicina.

A viagem durou poucos dias e antes de terminar novembro os bacteriologistas já analisavam os materiais coletados em seus laboratórios.

Ao longos dos meses seguintes, novos focos do cólera foram detectados em diversas cidades do Rio, de São Paulo e de Minas Gerais. Em maio de 1895, a história epidemiológica das diarréias do Vale do Paraíba ainda permanecia obscura, o que aumentava a importância dessas análises laboratoriais.

Fundo de quintal
No Rio, duas instituições realizavam atividades similares e de certa forma sobrepostas, o Instituto Sanitário Federal e o Laboratório Bacteriológico, este criado pelos republicanos.

Apesar disso, não tinham capacidade técnica laboratorial para realizar os testes que permitiram, posteriormente, comprovar a relação entre o vibrião do cólera e as diarréias.

Os testes eram feitos, literalmente, em casa: em laboratórios domiciliares, à própria custa, Prévost, Fajardo e Cruz realizavam os experimentos que serviriam de suporte para as políticas de saúde pública para enfrentar o cólera.

"As epidemias de 1894-1895 revelam aspectos surpreendentes da história da saúde pública no período", afirma Romero Sá.

Em primeiro lugar, ficou clara a superioridade da aparelhagem sanitária de São Paulo, em particular no tocante a equipamentos laboratoriais, em relação ao do governo federal naquele momento.

"Além disso, no âmbito do governo federal, observou-se uma enorme desproporção entre o peso que as elites dirigentes deram aos diagnósticos formulados pelos jovens bacteriologistas do Rio de Janeiro e as condições materiais em que foram realizados", afirma Benchimol.

"De dentro de pequenos laboratórios mantidos em residências particulares, saíram pareceres que repercutiram dentro e fora do país, fundamentaram ações onerosas, atropelaram interesses poderosos e atingiram o cotidiano de multidões." Mas ele alerta:

"É importante ressaltar que o grupo não surgiu em cena coeso, pré-formado, com consciência de suas metas". Após o encontro no Vale do Paraíba, os três bacteriologistas do Rio mantiveram contato estreito com Lutz, com troca intensa de correspondência.

Juntos lutaram contra médicos e clínicos que, na maioria, achavam que as diarréias não eram causadas por microrganismos. As controvérsias sobre a correlação entre as diarréias e o vibrião do cólera saíram do âmbito acadêmico e atingiram a grande imprensa.

No Rio de Janeiro, "A Gazeta de Noticias" capitaneou a reação ao diagnóstico de cólera. "O Paiz" foi o porta-voz da ação federal e de seus simpatizantes. O jornal publicou até mesmo as complexas análises de Fajardo, Prévost, Cruz e Lutz.

O comportamento da imprensa carioca nessa questão foi alvo de comentários irônicos de Arlequino, cronista de São Paulo, em artigo publicado na "Revista Illustrada", com o título sugestivo de "O Vírgula", uma alusão à morfologia do vibrião do cólera, que ele chama de "micróbio ortográfico":

"Quem tem ultrapassado os limites da conveniência são os jornais do Rio. (...) É um assombro o que eles têm feito de grande com o infinitamente pequeno! Há jornal que lhe chama ponto de interrogação. Outro diz que este vírgula tem espalhado pontos de admiração em todos os espíritos.(...) Todos têm querido pôr-lhe o ponto final, mas os tipógrafos arrumam-lhe dois pontos e, logicamente, a coisa continua". Para Arlequino, o micróbio "[havia assumido" nas nossas imaginações a estatura de um elefante com a catadura de um tigre". E segue: "E ninguém o viu, a não ser o dr. Lutz, e esse mesmo através das lentes de um microscópio. Que faria se o vissem! Então é que o pânico seria medonho". Ele finaliza assim: "Nós aqui [em São Paulo", pelo menos no jornalismo, nunca tivemos medo de vírgulas, nem destas nem de outras. O que às vezes nos dá um pouco de susto são as reticências... E com estas termino."

Segundo relato da feminista e bióloga Bertha Lutz, filha de Lutz, o que mais enfureceu o pai foi um evento ocorrido no carnaval de 1895 em São Paulo, em que ele foi ridicularizado em público.

Em busca de micróbios
Do outro lado do oceano, a relação entre diarréias e micróbios também era controversa. Apesar de Robert Koch ter isolado e descrito o bacilo do cólera em 1883, o debate continuava.

O principal adversário de Koch na Europa era Max von Pettenkofer (1818-1901), um dos mais respeitados nomes da área sanitária na Alemanha. Ele admitia que o cólera fosse causado por um bacilo, mas acreditava que o micróbio não fosse o único responsável.

Afinal, como explicar que certas localidades e indivíduos eram poupados? Pettenkofer defendia que, além do germe, eram precisas determinadas condições relativas ao lugar, ao clima e ao indivíduo, para que ocorresse a epidemia. As variáveis sazonais e locais agiriam sobre o germe, que sofreria uma transformação e se tornaria infeccioso.

Pettenkofer estava tão convicto de seu ponto de vista que fez uma experiência que entrou para a história: bebeu um copo concentrado de bacilos cultivados pelo assistente de Koch a partir de micróbios retirados das fezes de um moribundo.

O sanitarista alemão teve apenas uma diarréia suave. Vários cientistas repetiram o experimento, mas nem todos tiveram a mesma sorte. No Instituto Pasteur, um voluntário quase morreu. "A microbiologia naquele momento não era ainda bem compreendida", diz Benchimol.

"Além disso, há várias outras cepas de vibriões que morfologicamente são muito parecidas com o chamado vibrião do cólera, mas não causam a doença", explica.

"Tecnicamente, era difícil, ainda, fazer a distinção entre essas diferentes cepas", afirma o pesquisador. É naquele momento que começa a surgir a noção de portador são, ou seja, que hospeda o agente, mas não desenvolve a doença.

Causadas por microrganismos ou não, as disenterias eram, sem dúvida, um fato. E o temor de que o mal se alastrasse para as cidades maiores, como Rio, São Paulo e Belo Horizonte, fez com que o trânsito ferroviário fosse interrompido em vários trechos entre esses centros, em novembro de 1894. No início de dezembro os trens voltaram a rodar.

Foi instaurada, então, uma política sanitária complexa, levada a cabo por inspetores sanitários, para evitar que o germe do cólera se difundisse.

O componente básico da defesa eram as desinfecções pelo vapor, pelo calor e, sobretudo, por líquidos germicidas.

"Os anos 1890 marcaram o auge da mania por agentes físicos e substâncias capazes de destruir micróbios fora e dentro das pessoas e até mesmo de intoxicar ou matar as pessoas que o tomassem", diz Benchimol.

"Mas as populações aterrorizadas com a aproximação do cólera pediam, com insistência, essas substâncias." No começo de 1895, o cólera cedeu e o número de casos caiu até que se considerou a doença sob controle.

Do fundo do baú
O diário de Cruz referente a 1893-1895 é mantido guardado na Casa de Oswaldo Cruz. Já o acervo de Lutz foi reunido por sua filha Bertha Lutz. São cerca de 4 mil documentos, incluindo cartas, diários, relatórios, cadernos de anotações científicas e fotos familiares. Também contém vários artigos de Lutz publicados no exterior, principalmente em alemão, inéditos em português.

Bertha, que deu continuidade a uma das linhas de pesquisa de Lutz com anfíbios, pretendia publicar a obra completa do pai, mas nunca viu seu sonho realizado.

Depois que ela morreu, em 1976, a família enviou o acervo para o laboratório em que ela trabalhava, no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde ficou esquecido por duas décadas.

Agora sob a guarda de Maria José Velloso, chefe do Arquivo do Museu Nacional, o acervo começou a ser organizado, digitalizado, traduzido e analisado há dois anos, pela equipe encabeçada por Benchimol e Romero Sá.

"Nossa principal dificuldade é conseguir verba suficiente que pague bons tradutores do alemão e permita uma revisão técnica adequada", afirma Romero Sá.

Os pesquisadores estão finalizando um primeiro volume, que incluirá uma versão comentada de parte do acervo, a ser editado pela editora da Fiocruz. Outros dois volumes estão em preparação.
 

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