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29/09/2002 - 08h55

Livro mostra diferentes fontes de Francis Bacon

HUGH LACEY*
Especial para a Folha de S.Paulo

Desde o início do século 17 a relação entre ciência moderna e tecnologia é estreita e amplamente celebrada, mas interpretada de modos diversos.

Para Galileu, profundamente impressionado com os instrumentos construídos por artesãos na armaria de Veneza, os artefatos tecnológicos eram vistos como objetos para serem cientificamente pesquisados, fontes de hipóteses novas e abertos para serem aperfeiçoados pela aplicação do conhecimento científico. Para Descartes, ao contrário, aumentar o domínio humano sobre a natureza é consequência da obtenção de conhecimento científico.

Bacon (1561-1626) incorporou ambas as interpretações e foi muito além, propondo que as aplicações tecnológicas são o objetivo fundamental da pesquisa científica, de modo que a utilidade ou aplicabilidade tecnológica seriam o critério decisivo de realização do conhecimento científico -que a verdade e a utilidade são idênticas.

Assim é que Bernardo Jefferson de Oliveira, da Faculdade de Educação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), intitulou seu livro "Francis Bacon e a Fundamentação da Ciência como Tecnologia".

Esse livro oferece uma análise minuciosa e sutil do conceito criado por Bacon da unidade da ciência e da tecnologia, e também das muitas diferentes fontes das quais (e contra as quais) Bacon desenvolveu suas idéias.

Em algumas poucas observações passageiras, o autor expressa afinidade com os críticos contemporâneos da perspectiva de Bacon, por exemplo os que focalizam a devastação ecológica que tem tendido a acompanhar as suas aplicações. Mas essa é em primeiro lugar uma obra de interpretação, e não de crítica. Embora confirme a relevância ainda atual de Bacon, ela não defende a visão de que a ciência moderna, como um todo, seja mais bem-compreendida em termos baconianos. Em vez disso, para Oliveira, Bacon representa um estilo de pensamento e pesquisa científica que enfatiza a realização de experimentos e a aplicabilidade prática. Ele é bem exemplificado nas pesquisas atuais sobre o DNA recombinante. Existem outros estilos (por exemplo, os que predominam na área da física) que criam teorias matematicamente formuladas e são associados a conceitos matemáticos do mundo (e de fenômenos).

Utilidade e progresso
A identificação que Bacon faz da verdade com a utilidade (ciência e tecnologia) sempre foi polêmica, e poucos na tradição científica a endossam de maneira inequívoca. Por um lado, existem muitos conhecimentos científicos, por exemplo na área da astronomia, que parecem ter pouco a ver com a utilidade. Por outro lado, o uso que Bacon faz do termo "utilidade" comporta ampla gama de conotações -poder, melhora das condições de vida humana, novas invenções, aumento do poder humano de "comandar e dominar a natureza"-, as quais, aparentemente, requerem que a verdade coincida com uma visão moral específica (progressista!) e afirmam que exercer domínio sobre a natureza é algo que está na base dos projetos que podem beneficiar o público.

Oliveira lança luz sobre muitas das ambiguidades que parecem estar presentes aqui. A unidade entre ciência e tecnologia, propõe Oliveira, possui três dimensões em Bacon. A primeira é instrumental: o desenvolvimento de conhecimento científico depende de avanços tecnológicos.

Hoje, por exemplo, o conhecimento das partículas subatômicas ou de galáxias distantes depende dos mais recentes avanços de alta tecnologia aplicados em cíclotrons, satélites orbitais e telescópios. Além disso, existe a interdependência entre o conhecimento das partículas que se obtém e o conhecimento aplicado nos artefatos que permitem que se realizem experimentos com as partículas. A segunda dimensão é experimental. Não existe conhecimento científico sem experimentos que possam ser repetidos. O sucesso prático na atividade experimental não apenas é a chave para a conquista e confirmação do conhecimento científico, como, também, o primeiro passo em direção à aplicação tecnológica. A terceira dimensão é que a utilidade -"a produção de recursos, tecnologias ou materiais que aliviem as dificuldades da vida, como os avanços da medicina ou da agricultura"- é vista como a finalidade da pesquisa científica. Em vista das outras duas dimensões, porém, a atividade científica não pode ser reduzida a pesquisas que busquem resultados imediatamente úteis.

Além disso, Bacon achava que a busca por resultados de utilidade imediata era fadada ao fracasso. Ele avisou repetidas vezes que nem tudo o que podemos desejar é realizável, na prática. Para alcançar o êxito prático, precisamos descobrir as possibilidades que a natureza oferece: "Para ser comandada, a natureza precisa ser obedecida". Isso depende de seguir um método, no qual a experimentação exerce o papel central. Oliveira apresenta com clareza os elementos do conceito de método científico de Bacon e mostra que as interpretações empiristas e indutivistas comuns não lhe fazem justiça. Mas não faz uma comparação entre o conceito de Bacon e seus concorrentes no século 17, especialmente os que culminaram no "Philosophiae Naturalis Principia Mathematica", de Newton, no qual não apenas a experimentação é importante, como os desenvolvimentos da matemática são indispensáveis.

Pode-se argumentar que herdamos influências de Bacon principalmente por seus resquícios na síntese newtoniana. Isso se aplica até à ligação com a utilidade. Para o eventual desenvolvimento da ciência aplicada que hoje tendemos a dar como algo certo e garantido pode até ser necessário subordinar o método de Bacon, cujo foco principal está na experimentação, às metodologias que permitem a pesquisa e a confirmação de teorias matematicamente articuladas.

Acho que a interpretação de Oliveira seria aprofundada se ele tratasse das maneiras como o pensamento baconiano foi conservado, refinado e transformado por seus sucessores, e até que ponto tais transformações podem ser apoiadas pelo apelo à utilidade como suposta finalidade da ciência.

Está claro que Bacon compreendia que conquistar conhecimento científico, conforme ele o compreendia, exigia modos apropriados de cooperação entre pesquisadores. Embora tendesse a identificar a utilidade com a ampliação dos poderes humanos para controlar os objetos naturais e a melhora das condições de vida, Oliveira mostra que Bacon tinha pleno conhecimento de que o conhecimento científico também pode ser utilizado erroneamente, contra o bem público.

Apesar disso, ele confiava plenamente em que as instituições científicas cultivariam uma ética progressista entre seus membros, de modo que os crescentes poderes humanos de controlar a natureza fossem usados em prol do bem público. Mas ele não previu que as instituições científicas poderiam subordinar-se a interesses militares ou econômicos destrutivos. Apesar disso, essas idéias desempenharam papel importante no desenvolvimento das instituições científicas, e seu efeito continua presente entre nós até hoje.

O experimento como tortura
Oliveira revela dominar plenamente o grande conjunto da obra de Francis Bacon. O livro é repleto de detalhes interessantes, impossíveis de serem mencionados numa resenha curta. Além da discussão central acerca da verdade, utilidade e método científico, achei especialmente esclarecedora a discussão dos vínculos entre a prática do direito por Bacon e suas idéias sobre provas científicas.

A célebre metáfora de Bacon que compara a realização de experimentos ao ato de torturar a natureza foi influenciada pelas deliberações de um inquérito oficial, presidido por Bacon sob ordens da rainha Elizabeth 1ª, sobre a admissibilidade de confissões obtidas sob tortura em processos criminais. Mais importantes, talvez, sejam as raízes legais da idéia de que os fatos são descobertos apenas no decorrer de um inquérito complexo e metódico, muitas vezes como resultado de intervenções no decorrer normal dos acontecimentos. Não se vê aqui nenhum vestígio da noção empirista simplista de que os fatos derivam da observação direta.

Também chama a atenção a análise delicada dos escritos utópicos de Bacon, especialmente "Nova Atlântida", e da idéia de Bacon segundo a qual, contrariamente ao que defendia Galileu, o conhecimento científico seria gerado não por cientistas com habilidades extraordinárias, mas pelas atividades cooperativas de pessoas que cultivaram qualidades como independência de julgamento e liberdade de pensamento, e cujo compromisso com a pesquisa empírica não é subordinado a posições religiosas ou metafísicas previamente assumidas.

Este é um belo livro, e eu o recomendo inteiramente a quem estiver interessado em ganhar uma compreensão mais plena da tradição científica moderna.
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*Hugh Lacey, 63, é professor de filosofia do Swarthmore College (Pensilvânia, EUA) e autor dos livros "Valores e Atividade Científica" (Discurso Editorial) e "Is Science Value-Free?" (Routledge)

Tradução de Clara Allain
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"Francis Bacon e a Fundamentação da Ciência como Tecnologia"
de Bernardo Jefferson de Oliveira
277 págs., R$ 29,00 Editora UFMG, Av. Antônio Carlos, 6.627 - Campus Pampulha, CEP 31270-901, Tel. (0xx31) 3499-4650 Fax (0xx31) 3499-4768

 

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