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24/04/2005
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11h43
Mercado aposta em bagagem humanista
da Folha de S.Paulo
Comece a se despedir da era do "vale-tudo". No lugar do modelo clássico de executivo --impessoal, objetivo, frio e obstinado por resultados a qualquer custo--, um novo perfil de profissional começa a se delinear no mercado.
Valores mais humanistas, percepção holística de gestão e estímulo à cooperação no lugar da competitividade desenfreada. Essas são algumas características do perfil emergente para quem ocupa cargos estratégicos.
Ou, pelo menos, do perfil desejado por firmas que buscam longevidade. Um termômetro da mudança é o sucesso obtido pelo livro "O Monge e o Executivo" (ed. Sextante, R$ 20), de James C. Hunter, que se tornou best-seller nos Estados Unidos. Ele conta a história de um alto executivo que participa de um treinamento sobre liderança em um mosteiro.
Acolhida nas prateleiras de auto-ajuda das livrarias brasileiras, a publicação se propõe a discutir a essência da liderança, apontando o respeito e a valorização das pessoas como elementos indispensáveis ao sucesso e erguendo a tese de que "liderar é amar".
Hecatombe
A nova postura não deve ser confundida com bondade, alertam os especialistas. É, antes de tudo, estratégia de sobrevivência num mercado em mutação.
"Estamos vivendo um momento de transição. A globalização não traz somente a possibilidade de negócios instantâneos com o outro lado do mundo; ela traz também um fluxo de conceitos. Há uma transformação que está em andamento", descreve Ana Lúcia de Matto Santa Isabel, 50, professora e pesquisadora do Insadi (Instituto Avançado de Desenvolvimento Intelectual).
Para ela, o modelo do progresso a qualquer preço revelou que a conseqüência é o risco da hecatombe, da destruição. "As empresas perceberam que não podem matar sua fonte de lucro."
É nesse cenário que o novo executivo começa a se posicionar e a superar preconceitos do mercado. "Ele é humanista, está buscando resgatar a ética e não tem vergonha de expressar suas emoções no trabalho", diz Santa Isabel.
É permitido chorar
"Não adianta olhar resultados sem ver a qualidade da interação entre colaboradores. Emoção é parte substancial do trabalho", comenta Emílio Hojas, 38, diretor-corporativo de capital humano da Sofftek (tecnologia). Hojas diz nutrir várias preocupações e práticas que raramente estavam no "script" de um executivo.
Na empresa em que trabalha, "evoluir conjuntamente" é uma das metas do modelo de gestão. "Buscamos combater a culpabilidade, ou seja, a lógica de ficar simplesmente procurando um culpado para as falhas", exemplifica.
O executivo diz não acreditar na divisão entre pessoal e profissional. "Foi uma loucura, uma fantasia cultivada pelo mercado acreditar que o ser humano poderia pendurar suas emoções na porta do trabalho. Isso não existe."
A justificativa é que a emoção tem papel central na qualidade da interação e poder expressá-la é um atalho para criar relações de confiança. "Na Sofftek, o choro é bem-vindo e qualquer um pode chorar. Queremos e vamos durar, pois temos uma base emocional sólida presente nos negócios."
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