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16/10/2005 - 10h24

Solo afunda em bairros nobres de São Paulo

da Folha de S.Paulo

Ninguém imagina que a construção de um prédio seja capaz de derrubar casas. Mas essa é uma ameaça que já atingiu dois bairros da cidade --Mirandópolis e Moema, ambos na zona sul-- e pode se concretizar em outras áreas nobres, como Campo Belo (zona sul) e Jardins (zona oeste).

Em Mirandópolis e em Moema, por causa de projetos inadequados, as obras de fundação de edifícios fizeram com que o solo da vizinhança cedesse, causando rachaduras em paredes e pisos, desabamento de forros e de azulejos e danos às estruturas dos imóveis.

"Isso pode ocorrer em várzeas de rios, como as laterais do Pinheiros e do Tietê, onde terrenos de turfa [matéria orgânica mole e permeável] não dão bom suporte", adverte Paulo Grandiski, 67, diretor de normas do Ibape (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia).

Assim, regiões de metro quadrado valorizado, como Campo Belo e Mirandópolis, na zona sul, Brooklin Novo, Jardins e Vila Leopoldina, na zona oeste, além do entorno da Cidade Universitária, estão sujeitas a essas movimentações do solo.

Em Moema há terrenos com "camada de argila orgânica turfosa de 4 m de profundidade", relata José Maria Barros, diretor da divisão de engenharia civil do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo).

A empresária Roberta Vidal, 30, que mora no bairro, viu a casa cair. Parte do teto de um quarto desabou e atingiu seu braço.

O problema surgiu com a construção de um prédio na av. Iraí. O solo de turfa e o projeto de fundação inadequado fizeram com que casas vizinhas começassem a ruir. Seis delas correm risco parcial de desabamento, segundo o IPT.

A obra da construtora Unihope parou até a definição de uma alteração no método construtivo que preservasse as estruturas do entorno. A empresa, no entanto, afirmou à Folha que projetou fundações corretamente.

Em Mirandópolis, quatro casas da rua Senador Casimiro da Rocha tiveram rachaduras causadas por obras de um prédio da construtora Braservice, que não foi localizada pela reportagem para comentar os danos. Em uma delas, um muro foi escorado para não cair. Os moradores embargaram a obra.

Subsolo não é fiscalizado

Especialistas dizem temer que esse tipo de problema se torne mais freqüente. "A nova Lei de Zoneamento não levou em consideração o subsolo da cidade", afirma a urbanista Regina Monteiro, 49, conselheira do movimento Defenda São Paulo.

"Com a outorga onerosa [quantia paga para edificar acima do limite permitido em certas regiões], incorporadores continuarão construindo grandes prédios em áreas com lençol freático alto, perto da superfície", explica.

Mas, qualquer que seja a qualidade do solo, esse problema pode ser evitado. A solução está nas mãos de construtoras e incorporadoras, que, por economia ou prazos apertados, nem sempre escolhem a fundação adequada.

A prefeitura não se responsabiliza sobre o subsolo. Fiscaliza apenas especificações das edificações.

     

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