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17/02/2008 - 09h42

Lojas convertem carro a gasolina e dizem a clientes que é flex

FABIANO SEVERO
da Folha de S.Paulo

Há 15 dias, a frota veicular da cidade de São Paulo atingiu 6 milhões de unidades --20% são bicombustíveis. O mercado vê tanta necessidade de oferecer carros que rodam com álcool ou gasolina que muitos a gasolina, antes de serem revendidos, são convertidos a álcool, mas vendidos como flexíveis.

A Folha visitou 20 lojas no centro e nas zonas norte e sul de São Paulo, e muitas admitem vender carros convertidos sem o cliente desconfiar.

Segundo os lojistas, o valor baixo do álcool faz com que o cliente prefira os bicombustíveis, sem perguntar se o sistema é de fábrica. Em São Paulo, de acordo com a ANP (agência nacional do petróleo), o preço médio do litro do álcool, na semana passada, era de R$ 1,27 contra R$ 2,37 do da gasolina.

"Vendi um Celta convertido para álcool há um mês. O carro estava tão bom que, antes de o cliente perguntar, já disse que era 'flex'", lembra o funcionário de uma loja do centro.

Seu vizinho, que também não quis se identificar, foi além: "A gente ainda compra um adesivo de 'flex' aí na Duque [de Caxias, avenida do centro conhecida por suas autopeças]. Não custa mais de R$ 5".

Um terceiro vendedor indicou oficinas que fazem a conversão. "Temos um 'cara' na Penha [zona leste], outro na Casa Verde [norte] e outro na Mooca [leste]. É só escolher."

Consumo maior

Muitos lojistas afirmam que, se a conversão de gasolina para álcool for bem feita, o cliente não perceberá que não é de fábrica. Mas não é o que diz Waldemar Christofoletti, membro do comitê de veículos de passeio da SAE (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade).

Isso porque o carro convertido consome mais do que um flexível com álcool, ultrapassando a vantagem de 30% do combustível sobre a gasolina.

"Trocar o chip não é suficiente. Para ter economia de combustível, é preciso elevar a taxa de compressão do motor, além de trocar a válvula termostática e as velas de ignição."

Já José Roberto Campos, coordenador das comissões técnicas da AEA (associação de engenharia automotiva), afirma que o primeiro sintoma da conversão é o aumento da emissão de poluentes.

"Qualquer oficina pode acoplar um software e modificar o motor, mas nenhuma faz cálculos de emissão e de durabilidade. O carro convertido será reprovado na vistoria do Detran [Departamento Estadual de Trânsito], quando vigorar."

A Assovesp (associação dos revendedores de veículos de São Paulo) disse que não poderia se pronunciar porque seu presidente, único autorizado a falar, estava viajando.

Fraude

Para o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), vender carros a gasolina como bicombustíveis é uma fraude sobre sua originalidade. O Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) alerta que a informação deve ser clara e precisa.

Ambos aconselham o cliente lesado a encaminhar o caso à Justiça comum e, se quiser, pedir a troca do carro, o dinheiro de volta ou um abatimento proporcional ao dano.

O Detran-SP informa que a conversão de gasolina para álcool é legal, mas deve constar no documento do carro.

Para isso, o motorista deve pagar para o Detran autorizar a mudança, apresentar a nota fiscal original dos serviços e das peças utilizadas e levar o carro para uma vistoria num posto credenciado pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), que emitirá o Certificado de Segurança Veicular.

Depois de cumpridas todas as etapas, o Detran modificará o CRV (Certificado de Registro do Veículo) e o CRLV (Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo).


     

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