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Brasília Online

17/12/2006

Lula sempre opta pelo meio-termo

KENNEDY ALENCAR
Colunista da Folha Online

"Na dúvida, sempre aposte que o Lula vai escolher o meio-termo", assim um dos ministros mais próximos de Luiz Inácio Lula da Silva resumiu no início de 2003 qual seria o processo de decisão do presidente da República que acabara de chegar ao Palácio do Planalto. Desde então, batata.

Em consonância com a tradição sindical, Lula adora uma mesa de negociação. E acha que a boa solução é a que está no meio do caminho. Isso é verdade em alguns casos, mas pode ser desastroso noutros. Denota certo comodismo, até mesmo conservadorismo.

Lula também é vítima de freqüentes recaídas voluntaristas. Antonio Palocci Filho, que precisava convencê-lo cotidianamente do rumo econômico adotado quando o PT assumiu o poder central, sabe muito bem disso. Hoje, Palocci está fora do governo. E Lula quase cedeu à tentação de encontrar alguma mágica na economia. Exemplo: pensou em trocar a diretoria do BC numa tacada.

Mas recuou. Ao longo da série de reuniões para discutir as medidas econômicas que deseja implementar no segundo mandato, Lula foi abandonando o tom voluntarista e incorporando uma visão mais moderada.

Dificilmente errará quem apostar que o pacote econômico será uma combinação de "desenvolvimentismo" e "monetarismo", para usar duas generalizações que acabaram sintetizando porcamente as posições de grupos em conflito no governo e na sociedade.

A inflexão da política econômica começou no final de 2005, acertada por Lula com o então ministro Palocci. Neste ano, houve uma expansão de gastos premeditada para vitaminar o projeto reeleitoral do presidente. Deu certo. Em 2007, Lula puxará o freio, garantindo algumas válvulas de escape.

É melhor do que optar pelo voluntarismo, sobretudo se ele for turbinado pelo despreparo de auxiliares que se mostram ineficientes no gerenciamento do governo e na formulação da política econômica. No entanto, é pouco para um país como o Brasil.

O desastre parece que será evitado. Isso é bom. Pena que talvez seja sinal de mais uma oportunidade perdida.

Explicando: como poucos líderes em nossa história, Lula tem todas as condições políticas e simbólicas de bancar uma modernização capitalista. No entanto, dificilmente a fará. É algo que exigiria a adoção de medidas impopulares no curto prazo que só seriam reconhecidas como necessárias e positivas no futuro distante, na hipótese, óbvia, de darem certo. Enfrentar a questão fiscal de vez, como feito com a inflação, seria a primeira dessas medidas.

Mas o bendito meio-termo acaba contribuindo para que o país resolva seus problemas quase sempre pela metade. Enquanto isso, as gerações passam.




Pegou mal

Causou estranheza no Palácio do Planalto a notícia de que o atual secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, já tenha arrumado emprego na iniciativa privada ainda no exercício do cargo.

Inteligente, o jovem Goldberg trabalhará no Morgan Stanley. Segundo ele, ficará baseado no exterior e atuará numa área do banco de investimentos que não terá relação com o Brasil.




Comentário de Goldberg

O secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, enviou comentário a respeito da nota "Pegou mal". Ele argumenta que é "comum e natural que, ao final de uma gestão, autoridades recebam propostas e convites". Afirma que, "por precaução, notificou as autoridades da Comissão de Ética Pública da Presidência" ao receber a sondagem [do Morgan Stanley].

Diz que "seu futuro empregador não tem qualquer interesse ou relação" com a secretaria sob sua responsabilidade. Afirma que após as férias "trabalhará inicialmente a partir de Nova York, envolvido em projetos em curso em outros países, mas não no Brasil".

Goldberg declara que "essas atividades não envolvem qualquer tipo de militância junto ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) ou à SDE (Secretaria de Direito Econômico), o que inevitavelmente ocorreria se decidisse voltar à advocacia após quarentena".




Mau exemplo

Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Renan Calheiros (PMDB-AL) podem ter pavimentado com sucesso a reeleição de ambos para as presidências da Câmara e do Senado. Mas, articuladores do aumento do salário dos parlamentares para R$ 24.500, pagarão um alto preço político pela bondade corporativa.
Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos. Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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