Brasília Online
03/10/2004
Colunista da Folha Online
Com o PT e o PSDB disputando a hegemonia na principais cidades, estas eleições municipais deixam claro que os melhores quadros políticos do país se consolidaram como alternativa de poder. E isso é muito bom para o Brasil. O PT se enraíza nacionalmente, e o PSDB se mantém bem vivo e podendo se entrincheirar em São Paulo, apesar do domínio petista no governo federal.
Excelente mapeamento do jornalista Fernando Rodrigues feito com as mais recentes pesquisas de intenção de voto mostra que hoje (3 de outubro, dia do primeiro turno) o PT tem 24 candidatos competitivos nas 72 principais cidades da república. O PSDB possui 22 nomes nas mesmas condições. Candidatos competitivos são aqueles em primeiro ou segundo lugar nas pesquisas. Das 72 principais cidades, 26 são capitais e 46 têm mais de 200 mil habitantes.
Petistas e tucanos são o que temos de mais ideológico e organizado. Sem menosprezo às demais legendas, o nível de eficiência administrativa e de zelo pela coisa pública são mais altos, digamos assim, no PT e no PSDB do que nos demais partidos.
As três últimas eleições presidenciais, nas quais os dois partidos foram os grandes adversários, deram ao Brasil o melhor mandatário que poderiam ter dado naquele contexto.
Em 1994, o tucano Fernando Henrique Cardoso bateu o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno. Foi o ano da implantação do real, que domou a rotineira e absurda inflação. Quem tem mais de 30 anos sabe como era prejudicial a altíssima taxa de inflação, principalmente para as famílias mais pobres, que viam o preço da carne e do leite mudar tantas vezes ao longo do mês.
Hoje, o país não aceitaria o retorno da inflação. A discussão é se precisamos ser tão duros no combate a ela quanto temos sido. Ou seja, uma mudança total de foco. FHC, apesar de sua política de juros altos ter elevado a dívida pública a um patamar perigoso, deixou como legado a Lei de Responsabilidade Fiscal e a renegociação das dívidas de Estados e grandes municípios.
Administradores ruins são punidos rapidamente nos nossos dias. Há até um efeito "Coca-Pepsi". Mesmo sendo de partidos distintos, administram mais ou menos do mesmo jeito. Há mais respeito ao orçamento público e busca cada vez maior por políticas sociais mais eficientes e menos assistencialistas. E isso, registre-se novamente, é bom para o país.
Em 1998, FHC se reelegeu, vencendo outra vez no primeiro turno. Quatro anos depois, Lula deu o troco ao PSDB. Ganhou do candidato tucano de então, José Serra, política que colecionava inimigos demais na época para presidir a república sem algum sobressalto. O petista surpreendeu positivamente, demonstrando responsabilidade na economia. A luta contra a inflação continuou e agora passa a ganhar mais espaço a batalha pela diminuição da dívida pública em relação ao PIB. Hoje, ela está na casa dos 54%. Pela primeira vez em dez anos, deverá terminar o ano em queda.
Partidos de perfil bastante fisiológico e conservador, como PFL, PTB, PMDB, PL etc., parecem ter os dias contados. No máximo, continuarão ao reboque de projetos majoritários de petistas e tucanos. Aconteceu no Brasil uma reforma política natural. O processo é muito lento, mas o país segue avançando.
Perde o amigo, mas não a piada
De FHC, em conversas reservadas: "As pesquisas dizem que o Serra é simpático. O pior é que ele acredita".
Ânimo eleitoral
Apesar de já estarem pensando na campanha para o segundo turno, que acontece no dia 31, as campanhas de Serra e de Marta torcem para sair das urnas na primeira fase com alguma vantagem. Ainda que pequena, seria um fator psicológico motivador. De acordo com o Datafolha, é o tucano quem tem mais chance de encerrar o primeiro turno na frente. A esperança de Marta é o trabalho de boca-de-urna, no qual o PT tem bastante experiência, ajudá-la a chegar na frente.
Especial
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Acredite, os políticos e a política melhoraram
KENNEDY ALENCARColunista da Folha Online
Com o PT e o PSDB disputando a hegemonia na principais cidades, estas eleições municipais deixam claro que os melhores quadros políticos do país se consolidaram como alternativa de poder. E isso é muito bom para o Brasil. O PT se enraíza nacionalmente, e o PSDB se mantém bem vivo e podendo se entrincheirar em São Paulo, apesar do domínio petista no governo federal.
Excelente mapeamento do jornalista Fernando Rodrigues feito com as mais recentes pesquisas de intenção de voto mostra que hoje (3 de outubro, dia do primeiro turno) o PT tem 24 candidatos competitivos nas 72 principais cidades da república. O PSDB possui 22 nomes nas mesmas condições. Candidatos competitivos são aqueles em primeiro ou segundo lugar nas pesquisas. Das 72 principais cidades, 26 são capitais e 46 têm mais de 200 mil habitantes.
Petistas e tucanos são o que temos de mais ideológico e organizado. Sem menosprezo às demais legendas, o nível de eficiência administrativa e de zelo pela coisa pública são mais altos, digamos assim, no PT e no PSDB do que nos demais partidos.
As três últimas eleições presidenciais, nas quais os dois partidos foram os grandes adversários, deram ao Brasil o melhor mandatário que poderiam ter dado naquele contexto.
Em 1994, o tucano Fernando Henrique Cardoso bateu o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno. Foi o ano da implantação do real, que domou a rotineira e absurda inflação. Quem tem mais de 30 anos sabe como era prejudicial a altíssima taxa de inflação, principalmente para as famílias mais pobres, que viam o preço da carne e do leite mudar tantas vezes ao longo do mês.
Hoje, o país não aceitaria o retorno da inflação. A discussão é se precisamos ser tão duros no combate a ela quanto temos sido. Ou seja, uma mudança total de foco. FHC, apesar de sua política de juros altos ter elevado a dívida pública a um patamar perigoso, deixou como legado a Lei de Responsabilidade Fiscal e a renegociação das dívidas de Estados e grandes municípios.
Administradores ruins são punidos rapidamente nos nossos dias. Há até um efeito "Coca-Pepsi". Mesmo sendo de partidos distintos, administram mais ou menos do mesmo jeito. Há mais respeito ao orçamento público e busca cada vez maior por políticas sociais mais eficientes e menos assistencialistas. E isso, registre-se novamente, é bom para o país.
Em 1998, FHC se reelegeu, vencendo outra vez no primeiro turno. Quatro anos depois, Lula deu o troco ao PSDB. Ganhou do candidato tucano de então, José Serra, política que colecionava inimigos demais na época para presidir a república sem algum sobressalto. O petista surpreendeu positivamente, demonstrando responsabilidade na economia. A luta contra a inflação continuou e agora passa a ganhar mais espaço a batalha pela diminuição da dívida pública em relação ao PIB. Hoje, ela está na casa dos 54%. Pela primeira vez em dez anos, deverá terminar o ano em queda.
Partidos de perfil bastante fisiológico e conservador, como PFL, PTB, PMDB, PL etc., parecem ter os dias contados. No máximo, continuarão ao reboque de projetos majoritários de petistas e tucanos. Aconteceu no Brasil uma reforma política natural. O processo é muito lento, mas o país segue avançando.
Perde o amigo, mas não a piada
De FHC, em conversas reservadas: "As pesquisas dizem que o Serra é simpático. O pior é que ele acredita".
Ânimo eleitoral
Apesar de já estarem pensando na campanha para o segundo turno, que acontece no dia 31, as campanhas de Serra e de Marta torcem para sair das urnas na primeira fase com alguma vantagem. Ainda que pequena, seria um fator psicológico motivador. De acordo com o Datafolha, é o tucano quem tem mais chance de encerrar o primeiro turno na frente. A esperança de Marta é o trabalho de boca-de-urna, no qual o PT tem bastante experiência, ajudá-la a chegar na frente.
Especial
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Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite. E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br |

