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Brasília Online

22/06/2008

Belluzzo defende mais restrições a capital externo

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A Internet mudou hábitos do leitor. Na última semana, chegaram muitas mensagens eletrônicas indagando se seria publicada uma versão mais ampla da entrevista do economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, que saiu na edição impressa da Folha no último dia 16 de junho, uma segunda-feira. A possibilidade de "ganhar espaço" na Internet permite íntegras ou versões mais amplas do que as do noticiário impresso.

A "Brasília Online" desta semana traz trechos que não foram publicados na versão impressa. O economista pregou mais restrições à entrada de capital internacional de curto prazo. Belluzzo disse que seria ideal evitar que a carga tributária se aproxime dos 40%, como tem acontecido. No entanto, opinou que o atual estágio de desenvolvimento do país comportaria uma carga tributária na casa dos 35%.

Defendeu uma moeda internacional em substituição ao dólar. Na sua opinião, o euro não irá substituir a moeda americana como padrão de reserva internacional.

Belluzzo considerou "ridícula" a disputa entre PSDB e PT sobre a paternidade dos avanços do país. E apontou mais semelhanças entre Lula e José Serra [tucano e governador de São Paulo) do que entre Serra e Geraldo Alckmin [tucano e ex-governador paulista].

Na entrevista da versão impressa, Belluzzo alertou para o "risco muito grande de déficit externo" que corre a administração de Luiz Inácio Lula da Silva com um câmbio muito valorizado. Defendeu restrição à expansão do crédito. E afirmou que o BC errou ao não reduzir mais os juros quando o cenário externo era favorável e que esse equívoco traz prejuízos hoje. Motivo: eleva o custo de combater a inflação.

Aos 65, Belluzzo tem um casal de filhos e "duas ex-mulheres ótimas". Hoje um dos principais conselheiros econômicos informais de Lula, classificou-se ideologicamente como "keynesiano socialista reformista". Bem-humorado, o palmeirense Belluzzo revelou as sugestões que dá ao corintiano Lula. Falou da crise internacional e defendeu a ação do governo em negócios privados. A entrevista foi realizada no seu apartamento paulistano, em 13 de junho, uma sexta-feira:

*

FOLHA - O maior problema da nossa economia é a inflação ou o câmbio valorizado?

LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO - Os dois. A valorização do câmbio reflete um equívoco intertemporal, palavra feia, da política monetária. Quando ocorreu a grande melhoria do cenário externo, o Brasil deveria ter baixado os juros mais do que baixou para impedir que o câmbio se valorizasse tanto. Hoje, é um problema pensar numa desvalorização cambial porque estamos no meio de um choque de commodities.

FOLHA - Agora estamos elevando uma taxa de juros real, a mais alta do planeta, por causa da inflação.

BELLUZZO - Exatamente. Estamos nessa situação porque o passado importa, ao contrário do que dizem os economistas. Há países em situação pior por conta da maior vulnerabilidade ao choque de commodities.

Não podemos separar os fatores internos e externos. É claro que há um choque externo que pega a economia num momento de grande aceleração da demanda, e isso tem efeitos para contaminar o resto dos preços. É só olhar o núcleo da inflação. A inflação cheia está se acelerando, mas o núcleo também está.

FOLHA - O que é o núcleo?

BELLUZZO - Excluem-se os preços mais voláteis, como energia e alimentos. Com a demanda acelerada, a inflação começa a se espalhar pelo sistema de preços como um todo.

FOLHA - Qual será o efeito do atual processo de elevação dos juros sobre o câmbio e os setores exportadores?

BELLUZZO - Estamos mais uma vez diante desse conflito. É preciso ter claro que na política econômica surgem relações indesejadas, os chamados trade-offs. Usa-se o juro para abafar a inflação, mas também valoriza o câmbio, sobretudo numa situação em que há uma diferença muito grande entre as taxas de juros no mundo inteiro. Enquanto os Estados Unidos estão baixando a taxa, estamos subindo.

FOLHA - Há descoordenação entre as políticas fiscal e monetária? O BC precisa ser mais rigoroso ao elevar os juros para compensar um esforço fiscal aquém do necessário agora?

BELLUZZO - Houve custos fiscais com a política monetária. É preciso reequilibrar o jogo. É preciso o mínimo de compatibilidade entre as políticas fiscal e monetária. Por conta do passado, tem um pé que está faltando. Armínio Fraga [ex-presidente do BC] sugeriu regra de crescimento do gasto público. Se o PIB cresce a 5% ao ano, o gasto público cresceria até 2%, 2,5%. Estou de acordo. Não é proposta ortodoxa nem heterodoxa. Tem a ver com uma gestão macroeconômica competente.

FOLHA - O sr. participa de reuniões com Lula na qualidade de conselheiro. Por que ele não adota essa regra?

BELLUZZO - Foi sugestão sensata do Armínio, mas não foi discutida por nós. Falamos no aumento do superávit primário. A regra do Armínio é menos rigorosa do que recomendamos eu, o Delfim Netto [economista e ex-deputado federal], o Luciano Coutinho [presidente do BNDES] e o Guido [Mantega, ministro da Fazenda].

FOLHA - Existe a equipe econômica do B? Como são as reuniões de conselheiros econômicos com Lula?
BELLUZZO - Não existe equipe econômica do B. O Guido Mantega e o Henrique Meirelles [presidente do BC] estão lá presentes. Eles muitas vezes contestam veementemente o que a gente diz. O debate é assim mesmo. É preciso aprender a ter as suas idéias contestadas. No Brasil, o sujeito fica irritado quando alguém discorda dele. As reuniões são informais.

Quando uma pessoa dá uma cavalada na outra, Lula pede para parar. Ele ouve muito. A discussão é aberta. Cada um fala o que acha. A Dilma [Rousseff, ministra da Casa Civil] vai quando pode. O Ciro [Gomes, deputado federal pelo PSB do Ceará] e o Aloizio Mercadante [senador do PT paulista] também.

FOLHA - A descoordenação das políticas fiscal e monetária legará bomba-relógio ao sucessor de Lula?

BELLUZZO - Não, pelo seguinte: o Lula tem uma peculiaridade. Ao contrário de outras personalidades, ele não tem medo de olhar a dificuldade de frente. Reconhece que é uma situação difícil. Ele disse: "Vamos nos antecipar para impedir que a situação chegue a um ponto irreversível". Às vezes, a ultra-esquerda diz que Lula é conservador. Não. O Lula sabe que a inflação pega em cheio as classes menos abastadas porque viveu essa experiência na pele.

FOLHA - O governo elevou a meta de superávit primário de 3,8% do PIB para 4,3%. Nos bastidores, diz-se no governo que esse superávit pode chegar a 4,5% na gestão do caixa.

BELLUZZO - Pode, mas não quero me meter na gestão do Guido [Mantega]. Ele já está suficientemente pressionado. Acho que pode chegar a 4,5%, sim. Dependerá da gestão. O que sugeri é que tem de ser mais de 4,3%.

FOLHA - Essa elevação do superávit amenizará a alta dos juros?

BELLUZZO - O choque inflacionário e sua disseminação não são de fácil administração. A inflação ficará acima do centro da meta, que é de 4,5% ao ano. [A elevação do superávit] será suficiente para impedir que [a inflação] saia do controle.

FOLHA - Qual será a inflação deste ano?

BELLUZZO - De 6%, 6% e pouco, mas é difícil prever com exatidão. O importante é manter a inflação dentro da margem de dois pontos percentuais [para cima ou para baixo, faixa para absorver imprevistos].

FOLHA - O sr. defende mais restrições à entrada de capitais de curto prazo no país?

BELLUZZO - Sempre fui a favor. Algumas formas de controle funcionam. Não perfeitamente, porque perfeitamente só Deus funciona. Mas essas restrições colocam dificuldades e facilitam a administração da política monetária.

FOLHA - A idéia de um fundo soberano foi muito criticada por especialistas. Para alguns, dourou-se a pílula para elevar o superávit primário?

BELLUZZO - Se fosse isso, já estaria bom [risos]. Daqui a dois anos, o Brasil terá uma condição privilegiada por conta da sua dotação de recursos naturais, agora da descoberta do petróleo. O preço do petróleo provavelmente não se manterá nesse nível. Vai ficar num nível satisfatório para tornar rentável a exploração das reservas. O Brasil não poderá ser tolerante com a inflação nos próximos dois anos. Tem de olhar para a frente e fazer um sacrifício para a hora em que a economia mundial iniciar a recuperação.

FOLHA - Esse modelo atual de desenvolvimento não levará o país a ser menos industrializado e mais dependente do setor de commodities?

BELLUZZO - É a questão colocada por todo mundo com o mínimo de juízo. Não podemos virar a Arábia Saudita dos trópicos. Seria um desastre. Não há necessariamente uma oposição entre uma boa dotação de recursos naturais, exportador de commodities e industrializado.

O exemplo maior são os EUA do século 19 para cá. Os EUA conseguiram porque nunca houve país mais protecionista, graças ao pensador da manufatura americana, Alexander... [falha a memória e Belluzzo diz em tom de ironia que está ficando com mal de Alzheimer]... Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, foi morto num duelo porque era mulherengo [risos].

FOLHA - O cara era bom...

BELLUZZO - Bom... pensador [risos].

FOLHA - O resultado do PIB no primeiro trimestre, impulsionado pelo gasto público, não é literalmente uma bomba-relógio inflacionária?

BELLUZZO - Estão crescendo o gasto público e o consumo privado por causa do crédito. O crédito cresce numa velocidade muito maior do que o gasto público. É preciso uma gestão de demanda. Deixar as duas coisas crescendo tem impacto explosivo. Aí é bomba-relógio.

FOLHA - Que medida deveria ser adotada para limitar o crédito?

BELLUZZO - Cuidado com as regras prudenciais do sistema financeiro. O BC tem de propor um conjunto de regras para que o sistema bancário seja mais restrito ao conceder crédito. O jogo entre o BC e o sistema financeiro é de permanente vigilância e fuga. É da natureza do sistema, não adianta imprecações morais. É isso que o BC tem de fazer.

FOLHA - O sr. sugeriu isso a Lula?

BELLUZZO - Sugeri, sim.

FOLHA - Concorda com a teoria de que o Brasil sofre uma 'inflação importada', contra a qual a elevação dos juros não adiantaria nada?

BELLUZZO - Não dá para fazer uma separação entre inflação importada e inflação interna. São as duas coisas. Há uma crise do modelo sino-americano: a sinergia e a relação, agora não tão virtuosa, entre Estados Unidos e China. Há uma discussão de que haverá descolamento da China. É difícil a China crescer autonomamente, porque precisa mudar os fatores internos que puxam o seu crescimento.

FOLHA - O BC, então, acertou ao subir juros para combater a inflação?

BELLUZZO - O BC tinha de se adiantar ao perceber que a inflação estava mudando de patamar. Mas eu disse ao Meirelles: o problema é que, se a taxa de juros estivesse a 8,5% ao ano, e ele subisse meio ponto e depois mais meio ponto, não seria criado diferencial tão grande que afetaria a taxa de câmbio. A taxa de juros estava errada, estava errada. Quando as condições externas ficaram muito favoráveis, a taxa de juros tinha de ter caído mais rapidamente.

FOLHA - O Meirelles respondeu?

BELLUZZO - Ele é democrático. Estávamos almoçando. Não contestou. Fez um meneio com a cabeça.

FOLHA - Meneio de concordância?

BELLUZZO - Não sei (risos).

FOLHA - Há risco de crise no balanço de pagamentos na gestão Lula?

BELLUZZO - Risco muito grande. Os mesmos fatores que contribuem para valorizar o câmbio contribuem para deteriorar o balanço de pagamentos.

FOLHA - Se houver crise no balanço de pagamentos, quais os efeitos?

BELLUZZO - Uma crise em geral é antecipada pelos mercados. Se acham que há risco, eles vão se mandar. No que se mandam, haveria um salto [desvalorização] no câmbio. Seria o pior dos mundos. Nos próximos meses, com a mudança de patamar inflacionário, um choque cambial seria a pior coisa. Poderia haver inflação descontrolada.

FOLHA - O sr. aceitaria um cargo na área econômica do governo?

BELLUZZO - Tive uma experiência traumática nos anos 80, porque peguei a casa em completa desordem.

FOLHA - O presidente fez recentemente alguma proposta?

BELLUZZO - Há uns dois anos atrás, sim. Há uns dois, três meses, ele fez uma brincadeira. Perguntou: "Você não quer vir trabalhar comigo?". Eu respondi: "Não sei, não sei". Foi num clima de brincadeira. Minhas lembranças de Brasília são terríveis. Dormia à meia-noite e acordava às sete da manha. Era duro administrar o congelamento de preços [Plano Cruzado]. Você não sabe o inferno que era aquilo, porque foi uma medida de desespero. Eu não concordava com aquilo, mas tinha de fazer, porque a sua função pública exigia e não tinha outra alternativa.

FOLHA - O sr. concorda com a tese da oposição de que parte dos bons indicadores atuais da economia são mérito mais de uma política econômica do governo FHC do que da gestão Lula?

BELLUZZO - É uma discussão realmente ridícula. Foi um produto de anos de construção, que começou no governo Sarney com duas medidas: o fim da conta movimento do Banco do Brasil [na prática, capacidade de emitir moeda] e a criação da Secretaria do Tesouro. Depois, veio a estabilização do Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal. São 20 anos de construção das instituições.

FOLHA - O que o sr. acha dessa disputa entre PT e PSDB? Eles não têm mais em comum do que admitem?

BELLUZZO - O sistema partidário brasileiro não reflete as posições dos membros do partido. Há muito mais em comum entre Serra e Lula do que entre Serra e Alckmin. A visão do Lula difere de muita gente do partido dele. O Lula é um pragmático, democrata. Conheço o Lula desde os anos 70 e sei que ele tem a democracia como valor importante.

FOLHA - A crise dos EUA resultará em perda de poder daquele país?

BELLUZZO - A solução dos problemas atuais não será feita sem a presença importante dos EUA. Os EUA vêm empurrando para o mundo uma crise desde os anos 70. O mundo tinha de se ajustar a eles. Agora, é mais complicado. Os EUA vão ter de negociar. Não conseguirão impor o ajuste ao mundo.

FOLHA - Como China, Índia e Europa reagirão à crise dos EUA e qual espaço ocuparão no futuro?

BELLUZZO - São e serão protagonistas mais importantes do que já foram. Boa parte do sistema manufatureiro dos EUA, com suas empresas, está no exterior.

Os EUA têm o núcleo inovador da indústria. Continua ali. Mas, ao mesmo tempo, haverá maior partilhamento entre os países. A economia mundial tem outra estrutura. Houve mesmo uma globalização produtiva.

FOLHA - O euro vai substituir o dólar como moeda de reserva?

BELLUZZO - Não, porque não há mais condição de um país impor aos demais a sua moeda. Creio que precisará haver uma rediscussão do sistema monetário internacional.

FOLHA - Uma moeda internacional?

BELLUZZO - Pode ser um sistema plurimonetário, uma conta de substituição, uma gestão conjunta.

FOLHA - É uma prioridade reduzir a carga tributária?

BELLUZZO - É um objetivo reduzir a carga e tornar o sistema mais racional.

FOLHA - O sr. estimaria uma carga tributária ideal para o atual estágio de desenvolvimento do Brasil?

BELLUZZO - Tem de impedir que a carga suba, porque ela está abaixo de países mais avançados. Se a carga ficasse em torno dos 35%, ficaria bem. Ela está se aproximando dos 40%.

FOLHA - O BNDES deve atuar em negócios como a compra da Brasil Telecom pela Oi?

BELLUZZO - Deve. Uma das funções de um banco de desenvolvimento é estruturar empresas nacionais com capacidade de competição no exterior.

FOLHA - O caso Varig não é exemplo de que o governo Lula interfere em demasia nos negócios privados?

BELLUZZO - São os negócios privados que interferem nos Estados nacionais. É uma velha hipocrisia liberal achar que o Estado se mete na economia. É a economia que se mete dentro do Estado. Se houve favorecimento [no caso Varig], é outra questão, mas o Estado acaba sendo chamado a interferir.

Pergunte a um grande empresário o que ele faz quando tem um problema. Bate à porta do governo. O governo deve ter regras do que pode ou não pode atender.

FOLHA - O sr. assinou um manifesto de apoio a Serra em 2006, quando ele aventou concorrer a presidente. Quando o PSDB optou por Alckmin, o sr. apoiou Lula. Por quê?

BELLUZZO - Porque acho que são mais parecidos do que diferentes [Serra e Lula]. O Serra tromba com os problemas, como o Lula faz. É uma virtude. Assinei o manifesto porque, naquele momento, do ponto de vista da política econômica, o Serra seria mais conveniente para o Brasil. E, depois, o Lula se mostrou mais conveniente.

FOLHA - O sr. é mais amigo do palmeirense Serra ou do corintiano Lula?

BELLUZZO - Conheço o Lula desde os anos 70. O Serra conheço há mais tempo, quando ele foi presidente da UNE. O filho do Lula trabalha no Palmeiras. O Lula hoje em dia não pode deixar de ser um pouquinho palmeirense. Mas a relação do Serra com o Palmeiras nos aproxima muito. Convivo mais com o Serra, assistimos a jogos juntos.

FOLHA - O sr. faz ponte entre Serra e Lula, que parecem mais próximos do que no 1º mandato do petista?

BELLUZZO - Não tenho essa pretensão, mas garanto que nunca falei mal de um para o outro. Ao contrário. Acho que serão adversários políticos, mas não acho que serão inimigos. Não tenho vocação para Rasputin.

Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

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