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27/06/2005

Seis razões que provam porque o time de 70 foi o melhor

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Os meses de junho e julho são de festas para o futebol brasileiro. Também pudera no período são comemorados os títulos mundiais da seleção brasileira. No dia 17 de junho, é festejado o bicampeonato mundial, conquistado no Chile em 1962 (a nossa conquista menos valorizada); no dia 21 de junho, é a vez da festa do tricampeonato no México (1970); a data de 29 de junho marca o primeiro título conquistado em 1958, na Suécia; o quinto título (2002), conquistado em gramados do Japão e da Coréia do Sul, é comemorado no dia 30 de junho; enquanto o sofrido título da Copa dos EUA (1994) é festejado no dia 17 de julho.

Com tantas festas em um curto período, é inevitável que se façam comparações entre os cinco times brasileiros que foram campeões mundiais, mas não podemos negar que a seleção da Copa-70 foi a melhor. Antes que os mais exaltados comecem a discutir, dizendo que a de 58 foi melhor porque tinha Pelé e Garrincha no time, ou a deficiência de Félix, Brito e Everaldo no time tricampeão, ou a eficiência do time de Parreira, ou o show do trio formado por Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo na última Copa do Mundo, vou apresentar seis motivos que provam a superioridade do time que conquistou a Taça Jules Rimet em definitivo.

Copa de 1970 - O time de 1970 foi o melhor, porque venceu o melhor Mundial da história, o que teve o melhor nível técnico. No mínimo, cinco grandes seleções tinham grandes chances de ficar com o troféu (Brasil, Itália, Alemanha, Uruguai e Inglaterra). Com um pequeno detalhe: todos esses times já tinham conquistado títulos mundiais. E eram times excepcionais, recheados com vários jogadores fora de série. Nenhum outro Mundial conseguiu juntar uma gama de craques tão grande. Com tantos craques, a Copa-70 teve lances e jogos inesquecíveis.

Dois dos melhores jogos da história dos Mundiais aconteceram no México-70. Um deles foi entre Brasil e Inglaterra na primeira fase. O jogo reunia os campeões das últimas três Copas (Brasil bi em 1958 e 62 e Inglaterra campeã em 66) e para muitos foi a final antecipada daquela Copa. O jogo foi tão espetacular, que recentemente o árbitro da partida, o israelense Abraham Klein, encantado pelo nível da partida, confessou que prolongou o jogo encantado com o espetáculo que presenciava em campo. Antes que eu me esqueça, a partida foi 1 a 0 para o Brasil. O gol foi de Jairzinho, após jogada genial pela esquerda, que incluiu um drible (por entre as pernas) em Bobby Moore, mítico zagueiro inglês. Um jogo espetacular teve a defesa mais incrível da história das Copas. Após um cruzamento da direita, Pelé subiu livre e testou com força para o chão, por milagre, o goleiro inglês Gordon Banks conseguiu desviar a bola.

Foi o único jogo em que o Brasil não tomou gol e o nosso goleiro Félix, um dos mais criticados na campanha do tri, teve uma atuação exemplar. Perfeito na saídas de gols, ele evitou a jogada mais temida dos ingleses, os cruzamentos na área. Além disso, o arqueiro fez um milagre (que foi ofuscado pela defesa de Banks) ao defender uma cabeça desferida dentro da pequena área.

Outro jogo inesquecível foi a semifinal entre Itália e Alemanha. Depois de um empate por 1 a 1 no tempo normal, com os alemães empatando no final da partida, a Itália ficou com a vaga na final ao vencer a prorrogação por incríveis 3 a 2 (no total o placar foi 4 a 3 para os italianos).

Pelé no auge - Outro fator que conta a favor do time de 70 está no fato de contar com Pelé no auge. No Mundial do México, ele jogou todas as partidas, diferentemente das Copas de 1958 (quando só entrou na terceira partida) e 1962 (quando se machucou na segundo jogo). Nos gramados mexicanos, ele provou que era o melhor do mundo. Sua participação foi tão fantástica que até lances que não terminaram em gols ser tornaram inesquecíveis. Como esquecer a tentativa de gol por cobertura contra a Tchecoslóvaquia, com um chute desferido antes da linha central; ou a cabeçada contra a Inglaterra (já descrita acima); ou o drible de corpo no goleiro uruguaio. Pelé sabia que seria sua última Copa e jogou como nunca.

Reunião de craques - Mesmo com tantos craques, o grande mérito do time de 70 foi conseguir que tantos craques fizessem funções que não estavam acostumados a jogar. Ou seja, foram para campo os melhores ou que tinham personalidade para jogar uma Copa do Mundo. Por exemplo: Rivellino que era meia no Corinthians, fez um papel importante pelo lado esquerdo, muitas vezes, atuava no meio para liberar Pelé e deixá-lo como atacante. Tostão, jogou com perfeição como centroavante. Fazendo um papel diferente dos centroavantes na época. Tostão não era finalizador, ela jogava "sem bola", abrindo espaços. Jairzinho também teve que se transformar em um atacante de velocidade que entrava em diagonal. Piazza, célebre volante do Cruzeiro, foi recuado para a zaga, para que Clodoaldo pudesse jogar como volante. Até o lateral-esquerdo Everaldo mostrou personalidade ao ganhar a posição dias antes da estréia e não comprometeu.

Se João Saldanha montou e classificou o time para o México e devolveu a confiança a seleção, Zagallo também teve o mérito de mudar o time taticamente. Com Saldanha, o time jogava no 4-2-4, com Edu na ponta esquerda. Na Copa, o time jogou num 4-3-3, com um time aplicado na marcação. Parece mentira, mas o time brasileiro era bom na parte defensiva. Ao perder a bola, o time voltava para o seu campo. Esta postura facilitou os contra-ataques do time (reveja os gols da campanha do tri e observe quantos gols o Brasil marcou em contragolpes).

Planejamento físico - Foi perfeita a preparação física do time para enfrentar o calor e a altitude no México. O time fez uma aclimatação perfeita para o Mundial. Foram mais de três meses de preparação (algo impossível atualmente). Com energia de sobras, o Brasil decidiu todos os seus jogos no segundo tempo. Na campanha do tri, o time de Zagallo só saiu em vantagem no final do primeiro tempo no jogo contra a Romênia.

Emoção - A conquista do tri foi a primeira em que os brasileiros puderam acompanhar ao vivo. A emoção, antes "assistidas" apenas pelo rádio ou em vídeos tapes que chegavam dias após os jogos, agora era instantânea. Era possível acompanhar a Copa como se tivesse em um estádio.

Jejum de 24 anos - Depois de 1970 a seleção só foi ganhar um título em 1994. Isso ajudou a aumentar os feitos do time do tricampeonato. Desde a conquista de 1958, o Brasil não tinha ficado tanto tempo sem ganhar um título.

Desculpe as outras seleções brasileiras campeãs do Mundo, mas não houve um time com o de 1970, aliás nunca teve uma Copa do Mundo tão grandiosa como a do México-70.
O destaque   O que deveria ser destaque
Para a Ponte Preta, que depois de nove rodadas lidera o Campeonato Brasileiro. Depois de fazer uma campanha pífica no Campeonato Paulista, poucos apostavam (inclusive eu) numa boa presença do time de Campinas no Nacional. Agora, resta saber se a equipe vai ter fôlego para se manter entre os primeiros. Para isso, seria importante que a Ponte Preta não perdesse jogadores importantes, como aconteceu recentemente com o atacante Roger, que acabou se transferindo para o São Paulo. Depois de um início arrasador, o Botafogo vai perdendo fôlego. A sintonia perfeita que existia entre diretoria, comissão técnica e jogadores parece não existir mais. Foi só surgirem problemas como sálarios atrasados e brigas entre o técnico Paulo César Gusmão e a diretoria, para o time entrar em queda livre com duas derrotas consecutivas (São Paulo e Figueirense). Para piorar ainda mais a situação, o Botafogo ainda perdeu seu melhor jogador, o goleiro Jefferson.
Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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