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Futebol na Rede

21/08/2007

O futebol vive em constante evolução

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Uma coisa que torna o futebol apaixonante é que nada é eterno. Aos poucos, conceitos que eram considerados verdades absolutas vão se tornando apenas pequenas lembranças ultrapassadas. Por isso, para acompanhar futebol é preciso ficar sempre atualizado. Não dá para ficar parado em teorias que valiam há 30 ou 40 anos.

Não vou negar que adoro ver, ler, escrever e falar sobre o futebol do final da década de 1960 e do início da 1970, época que comecei acompanhar diariamente o esporte, mas sou o primeiro a reconhecer que não posso ficar repetindo frases que eram comuns naquela época. Hoje, se continuasse a defendê-las, seria motivo de piada. Vou citar algumas, para mostrar como o futebol mudou nas últimas três décadas.

Foco total nos campeonatos estaduais
Atualmente, os principais clubes e seus torcedores praticamente não dão importância aos estaduais. Mas, não faz muito tempo, eles eram os torneios que os clubes mais valorizavam, mais do que o Brasileiro e a Taça Libertadores. Pela sua importância, os estaduais, que estão espremidos num período de disputa de apenas três meses, chegavam a ter um período de disputa maior que o Nacional. Um exemplo da perda de importância dos estaduais. Para corintianos, que ficaram longos 23 anos sem ganhar um Paulista (1954-77), e palmeirenses, 17 anos sem ganhar o Estadual (1976-1993), o período de jejum foi muito mais dramático --e marcante-- do que para os santistas, que ficaram sem vencer o torneio entre 1984 e 2006.

Taça Libertadores
Por muito tempo os clubes brasileiros menosprezaram o torneio continental. Era comum dizer que o campeonato era organizado para argentinos e uruguaios vencerem, além de ser um campeonato deficitário para os clubes. Até a divulgação da competição no país era pífia. Era dada alguma importância à competição quando algum time brasileiro chegava às fases decisivas. Mas, nos últimos quinze anos, o torneio virou uma obsessão para nossos clubes. Agora os times fazem de tudo para ganhar uma vaga no torneio, que além do prestígio internacional é rentável.

Goleiros argentinos e uruguaios
Vivíamos criticando nossos goleiros e tínhamos uma admiração pelas chamadas "escolas" argentinas e uruguaias. Por isso, importávamos vários goleiros --até alguns de qualidade técnica duvidosa-- desses países. Causava admiração como os goleiros estrangeiros sabiam sair do gol nas bolas cruzadas. Mas, hoje, o nível dos goleiros é aclamado. É inegável como nas últimas três décadas o nível dos nossos goleiros cresceu, principalmente pelo trabalho dos preparadores específicos da posição, que teve como pioneiro o professor Valdir Joaquim de Moraes. São poucos os clubes que pensam em contratar um goleiro estrangeiro --até porque os nossos vizinhos não conseguem produzir grandes arqueiros em profusão.

Jogar com pontas especialistas
Era impossível pensar em equipes que não tinham pontas que jogavam fixos nas laterais do campo, com a única missão de partir para cima dos laterais adversários, seja com dribles desconcertantes, ou em velocidade, e preparar jogadas para os centroavantes. Infelizmente, isso não acontece mais. Não existem mais pontas especialistas. Eles foram substituídos por armadores. As poucas jogadas pelos lados do campo são feitas pelos alas ou laterais.

Todo time precisa ter um grande camisa 10
Um grande meio-campista funcionava como o jogador que servia de referência para o time todo. Ter um armador bom era fundamental para se fazer um grande time. Geralmente a camisa 10 ficava com o craque do time. Hoje, com os times armados para jogar no contra-ataque, eles abrem mão de um jogador que dite o ritmo de jogo e que consiga manter a posse de bola. Um atleta que seja capaz de carregar a bola já resolve o problema. Até o mito da camisa 10 está se desfazendo. Com os clubes adotando a numeração fixa, em muitos jogos as equipes entram sem um número dez em campo.

Seleção acima de tudo
Até pelo fato de a ditadura militar brasileira (1964-1985) usar a seleção como instrumento de propaganda de um país grande, quando o time entrava em campo --ou era convocado-- o país parava. Hoje, a seleção não tem a mínima intimidade com o torcedor brasileiro, até porque os principais jogadores estão no exterior. O time nem atua no país. Os amistosos da seleção contra adversários de segunda classe nas tardes de quarta-feira não chamam mais a atenção.

O sonho de todo jogador era atuar num time grande
A grande aspiração de qualquer garoto é jogar na Europa. Muitas revelações até nem jogam em times de expressão antes de chegar ao Velho Continente. Se passam pelos times grandes só pensam que esses times podem ser a vitrine para serem vendidos mais rapidamente.

A televisão tira público do futebol
Por muito tempo, alguns dirigentes pensavam que a TV não ajudava o futebol, só atrapalhava, pois tirava o público dos estádios. Era um fato raro a transmissão de partidas. Até finais de campeonato, muitas vezes, só eram transmitidas para praças onde não acontecesse o jogo. Hoje, os clubes não sobrevivem sem a venda dos direitos de televisão. Nenhuma competição existe sem o interesse da TV. Em alguns casos, os clubes se tornaram devedores --e ao mesmo tempo reféns-- das emissoras, pois sempre pedem antecipação dos valores que teriam que receber no futuro.

Compra que a torcida garante
Era comum dizer essa frase quando algum clube popular precisava de reforço, pois a grande fonte de receita dos clubes era o dinheiro da renda das partidas. Hoje, infelizmente, os clubes não arrecadam nas bilheteiras dinheiro suficiente para pagar uma pequena parte dos salários de seu elenco.

Aos trinta anos o jogador está no final de carreira
Com o avanço nas técnicas de preparação física, a carreira do atleta aumentou muito. Atualmente, a quantidade de jogadores que ainda conseguem ser eficientes mesmo tendo mais de 34 anos é infinitamente maior que há três décadas.

Investimento no parque social dos clubes
Hoje, os clubes investem pesado na construção de centros de treinamento para profissionais e jovens na esperança de que possam ter retorno financeiro na revelação de jogadores. Há algum tempo, apostavam na construção da parte social, em construção de piscinas, quadras esportivas e salão de festas. Apostavam no aumento do número de sócios e no crescimento de suas receitas. Hoje, para muitos clubes, essas construções são um tormento. Alguns perderam tantos sócios que o dinheiro do futebol tem que ser usado no clube, pois o das mensalidades não paga as verdadeiras cidades que esses clubes construíram.

"Poucas mudanças nos times"
A coisa mais fácil no futebol era decorar a escalação dos times. Por isso não fiquem espantados quando jornalistas lembram de escalações antigas. Para quem acompanhava futebol, as escalações se repetiam tanto que você conseguia decorar as formações sem muito esforço. Todos os torcedores sabiam como jogavam seus times. Os elencos mantinham suas bases durante anos, tanto nos times grandes quanto nos pequenos. Hoje, fica difícil escalar os times da Série A do Campeonato Brasileiro. Lembrar dos jogadores que passaram por um determinado clube nos últimos seis meses ou a base do elenco do ano anterior é um excelente teste de memória.

Que o futebol sempre se recicle, de preferência para melhor.

Participe
O que você acha que era uma verdade no futebol e mudou nos últimos anos? O que você pensa que é padrão hoje e vai cair nos próximos anos. Mande sua opinião para: futebolnarede@folha.com.br

Para Vasco e Cruzeiro que se credenciam como os principais adversários do São Paulo na luta pelo Campeonato Brasileiro. O Vasco tem a força de ser imbatível jogando em casa, mas precisa ser mais eficiente atuando longe de São Januário. Já o Cruzeiro mostra força ofensiva. Se parar de tomar tantos gols por falhas de sua zaga pode sonhar com seu segundo título brasileiro. Em comum, para entrar definitivamente na luta pelo título, os dois têm de vencer o Flamengo em jogos atrasados.

Todo time forte começa com um grande goleiro. O velho chavão do futebol cabe muito bem ao Botafogo. O time esse ano já sofreu muito por não ter um goleiro de nível. Perdeu o Estadual do Rio por erros dos seus goleiros. Foi eliminado da Copa do Brasil também por um frangaço de Júlio César, e despencou no Campeonato Brasileiro muito por culpa dos seus goleiros, que falham constantemente e não passam confiança.

Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@folha.com.br

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