Futebol na Rede
Mais que sorte, apito e faltas
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Confesso que o futebol exibido pelo São Paulo não me encanta. Tirando o recente jogo contra o Paraná, quando o time de Muricy Ramalho aplicou uma sonora goleada, com uma grande exibição e sem deixar o adversário respirar, em alguns momentos chega a me irritar o modo como o time joga. Irrita pela maneira eficiente como conquista pontos.
É justamente essa medida exata para conquistar os resultados que deixa a impressão de que o São Paulo é apenas um time que joga retrancado, tem muita sorte, abusa das faltas e sempre conta com uma pequena ajuda dos árbitros. Mas, ao fazer uma análise mais aprofundada e menos apaixonada, logo se percebe que é um time que só tem essas "qualidades" não teria a vantagem de pontos que o São Paulo tem no Campeonato Brasileiro.
Um time pode ter sorte em um ou outro jogo, mas isso não é o suficiente para ganhar um título. Os árbitros erram a favor e contra o São Paulo e se no final do campeonato fizermos um balanço dos problemas de arbitragem vamos ver que os clubes são favorecidos e prejudicados na mesma proporção. Quanto às faltas, o São Paulo não é muito mais faltoso que a média dos outros clubes. Todos fazem faltas na mesma medida e todos os clubes procuram parar os contra-ataques dos adversários.
Não se pode esquecer que o São Paulo bateu todos os seus maiores perseguidores diretos. Venceu Botafogo, Grêmio, Vasco, Santos, Palmeiras e Cruzeiro jogando na casa do adversário. Um time ruim não conseguiria essa seqüência de triunfos.
Não acho absurdo um time campeão brasileiro ter como seu principal destaque o sistema defensivo. Muricy Ramalho achou uma maneira de tornar o time tão fechado que o São Paulo poucas chances oferece aos adversários. Tirando o primeiro tempo da partida contra o Vasco, os adversários dos São Paulo ficam com a posse de bola, mas pouco ameaçam o gol de Rogério.
E, nesse processo, todo o time marca. Começando pela dupla de atacantes Aloísio e Dagoberto, que incomodam a saída de bola do adversário, passando por Leandro, Hernanes, Richarlysson, Souza e Jorge Wagner no meio e chegando finalmente no trio defensivo, com Miranda, Alex Silva e Breno. Se o adversário passar por essa muralha ainda tem que passar por Rogério Ceni.
Aliás, falando no goleiro, devo confessar que nunca achei Rogério Ceni excepcional, mas agora parece que ele atingiu o seu melhor momento técnico. Se você observar Rogério no estádio, vai ver como o goleiro consegue ler o que está acontecendo numa partida e, por isso, está perfeito nas antecipações. Poucas vezes vi um atleta jogar com tamanha confiança.
Confiança que, como capitão, ele passa ao time, que parece saber o que tem que fazer para em um ou dois lances decidir uma partida. Oportunidades que sempre surgem em contra-ataques, pegando o adversário sempre mal postado em campo.
Também é necessário elogiar o trabalho da diretoria, que conseguiu ter paciência para manter o técnico Muricy Ramalho, quando o time passou por um período de turbulência após as eliminações do Campeonato Paulista e da Libertadores. O técnico, aliás, é outro que vive um bom momento. Além de conseguir achar substitutos para Ilsinho e Josué, ele está muito feliz nas substituições e nas mudanças táticas que faz durante a partida, principalmente no lado esquerdo, quando alterna Jorge Wagner e Richarlysson na armação e na marcação.
Num Campeonato Brasileiro tão equilibrado, com os times tão nivelados tecnicamente, o São Paulo está provando que se espetáculo ganha um ou outro jogo, a regularidade e a eficiência ganham o campeonato.
Até a próxima.
Para o Campeonato da Série B, que está muito disputado. Na última semana, o Coritiba conseguiu chegar à liderança do torneio superando o Criciúma, que está perdendo o fôlego. Além dessas duas equipes, Ipatinga, Brasiliense, Marília, Vitória, Portuguesa e Barueri, são as outras equipes que estão lutando por uma das vagas do acesso. A distância do primeiro ao oitavo colocado e de apenas cinco pontos.
Há 20 anos tinha início a Copa União, torneio organizado pelo Grupo dos 13. O torneio seria um marco na história com os clubes organizando um campeonato sem a CBF e negociando os direitos de transmissão. Mas, infelizmente, o Grupo dos 13 perdeu muito das suas (boas) idéias de fundação e, atualmente, se tornou um sócio (ou melhor, refém) da CBF e não conseguiu criar a tão sonhada Liga dos Clubes.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
