Futebol na Rede
Trinta anos sem um Rei
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Há trinta anos Pelé jogava sua última partida como jogador. Um amistoso entre o New York Cosmos e o Santos, os dois únicos times em que o craque atuou profissionalmente, em 1º de outubro de 1977, foi a última aparição do Rei como jogador profissional. Na vitória do time americano, por 2 a 1, Pelé atuou um período em cada time.
Mesmo na sua despedida, ele marcou o seu último gol. Foi de falta, um tiro longo, da intermediária, que quicou no úmido gramado artificial do Giants Stadium e enganou o goleiro Ernani. O jogo também ficou marcado pelo discurso do jogador e principalmente, quando ele disse três vezes a palavra "love".
Acho que passados trinta anos da despedida, o futebol não viu surgir (e nem verá) jogador que poderia ocupar o lugar deixado por Pelé. E isso é muito fácil de explicar. Pelé pode não ter sido o melhor cabeceador do mundo, mas está entre os melhores. Ele não está entre os maiores dribladores do planeta, mas dava dribles desconcertantes. Até como goleiro, se necessário, também funcionava bem. Pelé conseguia ter uma visão de jogo e tinha um poder pensar nas jogadas muito mais rápido do que qualquer atleta na história. Sem dizer que ele foi único no poder de finalização (os quase 1.300 gols compravam isso).
Todos os jogadores que foram aclamados como seus sucessores de Pelé não chegaram nem perto. Nem mesmo Maradona. O argentino foi fantástico, mas a comparação não vale. Maradona não foi completo como o brasileiro. Ele não usava o pé direito com eficiência e nem sabia cabecear. O mesmo acontece com outros jogadores. Platini? Baggio? Ronaldo? Ronaldinho? Todos não chegam perto de Pelé. Eles não vão conseguir (ou não conseguiram) igualar os números do Rei, tanto em títulos quanto em gols e muito menos em carisma e popularidade --mesmo com muitos deles aparecendo a toda hora em comerciais de TV. Nenhum dos citados teria a personalidade de estrear em uma Copa do Mundo, aos 17 anos, ganhar um Mundial e ser aclamado como o "Rei do Futebol", como aconteceu com o Pelé nos gramados da Suécia, em 1958.
Pelé foi tão gênio que só craques conseguiram ter sucesso fazendo dupla com o Rei. O primeiro foi Pagão. Depois, Coutinho o complemento foi mais perfeito de Pelé. As tabelinhas entre os dois eram um tormento para as defesas adversárias. Outro parceiro de destaque de Pelé foi Toninho Guerreiro. Sem ter o mesmo talento que os outros dois citados, Guerreiro sabia se colocar muito bem para receber os passes de Pelé. Na seleção, o grande companheiro foi Tostão. Muitos diziam que eles não poderiam jogar juntos, mas em campo formaram uma dupla genial na Copa de 1970. Tostão soube como poucos abrir espaços para o que o Rei encontrasse seu espaço para furar as defesas adversárias no Mundial do México.
Muitos dizem que Pelé não seria o mesmo se jogasse atualmente. Discordo plenamente. Mesmo sendo difícil fazer comparações entre épocas diferentes do futebol, acho que Pelé faria o mesmo sucesso, ou até mais. Seria até covardia ver Pelé com a preparação física que os jogadores têm hoje, jogando com material esportivo atual e, principalmente, protegido pelas leis do futebol que são muito mais rigorosas com os zagueiros. O único senão é que seria impossível, nos dias de hoje, Pelé jogar toda carreira no Brasil.
Tive poucas oportunidades de ver Pelé em campo. Quando comecei a acompanhar futebol ele já estava no final de carreira, e o Santos já não tinha um time fantástico, mas Pelé foi um dos poucos jogadores que me fez chorar. Num jogo contra o meu time, o camisa 10 do Santos fez um gol de falta. Imediatamente comecei a chorar no colo da minha mãe. Talvez pelo medo que a camisa 10 do Santos, que era sinônimo de Pelé, não me fez perceber que o jogo era da categoria de aspirantes e o jogador não era Pelé (na verdade era o jovem Claúdio Adão). Pelé nem precisava estar em campo para fazer os torcedores do outro time chorarem.
Trinta anos sem Pelé. Três décadas com o reino do futebol vago. Um trono que nunca mais será ocupado.
Até a próxima.
Merece ser mencionada a sensacional reação do Náutico no Campeonato Brasileiro. Em pouco tempo, a equipe, que estava com um pé na Série B, teve uma reação fantástica, com cinco vitórias seguidas, jogando um futebol ofensivo, que deixa o time com o segundo ataque mais positivo do Campeonato Brasileiro. Aliás, os times pernambucanos parecem que tiraram o ano para grandes viradas. Além do Náutico, o Sport também saiu da zona de perigo na Série A, e o Santa Cruz também se recuperou de maneira inacreditável na Série B.
Já que falei de Pelé, não posso deixar de citar Roberto Dias, falecido na última semana. Segundo o próprio Rei do Futebol, o craque do São Paulo foi o seu melhor marcador. Dias é um bom exemplo de um tipo de jogador raro nos dias de hoje. Um atleta que veste e ama a camisa do seu clube. Mesmo sempre sendo destaque do São Paulo no pior momento da história do time, durante a construção do Morumbi, ele nunca deixou de honrar a camisa tricolor e não se deixou seduzir pelas propostas para jogar num clube mais forte.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
