Futebol na Rede
Menos chutões e bicões no futebol brasileiro
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
No atual Campeonato Brasileiro, está chamando a minha atenção a quantidade de chutes para cima, ou bicões que temos em uma partida. Existe a máxima que diz "bola para o mato que o jogo é de campeonato", mas os nossos jogadores estão abusando desse recurso. Tudo bem se em um lance confuso, dentro da área, um zagueiro dê um chutão para o alto para aliviar o perigo.
Mas o que me causa espanto é que em qualquer lance, sem a mínima necessidade, vem um jogador e dá um chute de bico na bola. Parece que virou moda tentar dar um bico no adversário para ganhar apenas um lateral ou tiro de meta. Essa mania está produzindo lances grosseiros.
Quantas vezes a bola não bate no inimigo e acaba indo para escanteio. Desculpe se me torno repetitivo, mas na maioria dos lances isso não é necessário, pois o jogador que dá o estouro, tem todo o espaço para dominar a bola e dar um passe, mas ele prefere "brincar" de tiro ao alvo no jogador do adversário.
O pior que eu observo é que alguns torcedores parecem gostar dos bicos para longe. E só um jogador fazer um lance desse, e a torcida vai ao delírio (se acertar o adversário e esse cair, a empolgação é comparável a comemoração de um gol). Os chutões para todos os lados também se transformaram em uma arma. Muitos adoram deixar a perna para acertar o adversário.
O que nós não percebemos é quanto o número elevado de chutões piora a qualidade dos jogos. Fica impossível ter um jogo bonito com a bola viajando todo o tempo. Da maneira como estão jogando os nossos clubes atualmente, em curto espaço de tempo não vamos precisar ter mais armadores em campo, pois vamos viver só de ligação direta entre a defesa e o ataque. Como já disse, estamos nos acostumando com chutões.
O torcedor atento já percebeu que os nossos times não conseguem sair com a bola dominada da defesa --mesmo se a equipe adversária não marcar a saída de bola.
O goleiro ou algum zagueiro dão um chutão para frente e, na sorte, a bola pode cair no pé de um companheiro. O problema é que a bola quase sempre cai no pé de um adversário, que não pensa duas vezes e dá um bico para o outro lado do campo.
A síndrome do chutão parece ter afetado os nossos atacantes. É impressionante como os nossos atacantes não finalizam mais, eles dão um chutão em direção ao gol e ficam torcendo. Não se vê mais os atacantes observarem a colocação do arqueiro, para que, com um toque sutil, tirem o goleiro da jogada.
O futebol brasileiro sempre jogou com a bola no chão, por isso temos que cobrar que nossos jogadores parem de usar o bico do pé ou chutar a bola para cima, caso contrário, em pouco tempo, vamos praticar o mesmo futebol que os ingleses disputavam até o meio da última década, com a bola no ar o tempo todo.
No futebol se vibra com os gols e não com um chutão para cima.
Até a próxima.
Faltando somente oito rodadas para o final do Campeonato Brasileiro, apenas Fluminense (com vaga garantida na Libertadores) e América (rebaixado) não aspiram mais nada no torneio. Se o São Paulo está com as mãos na taça; Cruzeiro, Santos, Palmeiras e Grêmio brigam por três vagas na Libertadores; e os demais lutam por uma vaga na Copa Sul-Americana e, principalmente, para escapar do rebaixamento, pois apenas cinco pontos separam o sétimo colocado (Sport) do Corinthians, que o ocupa o 17º lugar.
Com larga vantagem de pontos, o São Paulo passa por um momento difícil, provocado pelo desgaste físico dos atletas e, principalmente, com um número de contusões que não é normal no clube. O técnico Muricy Ramalho está ficando sem opções de armar o time, já que a diretoria, como fez com maestria nas últimas temporadas, não conseguiu ser eficiente para repor os jogadores que perdeu durante a temporada. Atualmente, por exemplo, o treinador não tem um jogador experiente para atuar como lateral direita.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
