Futebol na Rede
Dia de técnico
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
O convite de um velho amigo, que agora mora no interior, seria a grande chance de eu passar um final de semana --prolongado, com um feriado na quinta--, depois de um longo período, sem ter que acompanhar uma partida de futebol. Tinha razões para considerar essa hipótese pois o meu amigo, nos tempos de faculdade, não era muito fanático por futebol e chegava a trocar partidas de Copa do Mundo por uma ida à biblioteca ou ao cinema.
Depois de horas de viagem cheguei na casa do meu anfitrião. Depois de lembrarmos boas histórias do tempo de faculdade, perto da churrasqueira, notei que havia um saco que continha material esportivo. Inocente, perguntei: "O que aquilo fazia lá?". A surpresa aconteceu quando ouvi a resposta.
"Aquela bolsa é a principal razão por eu te convidar", disse alegremente.
Só essa resposta já fez lembrar uma característica do meu amigo que eu pensava ter desaparecido com o passar dos anos. Ele tinha --ou tem-- a enorme capacidade de te colocar em situações que imagina ser tudo o que você gostaria de fazer.
Fiquei esperando o seu complemento.
"No feriado vai ter um torneio de futebol society para os funcionários da empresa e eu coloquei o meu departamento na competição. Por isso, como você diz entender de futebol, pensei em te chamar para ser técnico".
Antes que eu conseguisse dizer não, ele logo emendou: "Nosso primeiro jogo é amanhã, logo às 9 horas".
Tentei argumentar que não conhecia os jogadores, que não daria certo. Mas fui convencido a ficar e aceitar a missão.
"O que aconteceu para você ficar tão interessado em futebol?", não poderia deixar de fazer a pergunta.
"Pois é. Eu cheguei aqui e por um bom tempo não conseguia ir além de um relacionamento formal com as pessoas aqui da cidade e, principalmente, com os meus subordinados. Eles me respeitavam, acreditavam no que eu fazia, mas eu não tinha nenhuma relação pessoal com eles. Um dia eu vi uma reunião, na hora do almoço, e todos os meus funcionários estavam conversando alegremente. Todos falavam e discutiam independentemente dos cargos que tinham. Parecia uma grande reunião de amigos. Curioso, fui ouvir o que estava sendo falado. Eles estavam falando de futebol. Então, logo percebi que se eu quisesse quebrar a barreira de relacionamento eu deveria saber de futebol para me comunicar com os meus funcionários. Depois de um tempo, eu consegui perceber o quanto o futebol era importante para eles. Até é possível perceber que o desempenho de alguns cai quando o time deles perde. Aos poucos, sempre quando ia falar com alguém começava falando de futebol. Isso deu certo, pois hoje estou plenamente adaptado no trabalho e na cidade. Parece que eu e a família nascemos aqui."
No outro dia logo cedo já fomos para o campo. O torneio teria quatro equipes e seria disputado no sistema de todos contra todos, com o campeão sendo a equipe que tivesse mais pontos. Além de conhecer o tipo de torneio fui apresentado ao meu elenco.
"Esse é o cara que eu falei que iria fazer o nosso time campeão. Podem confiar no que ele fizer", disse o meu amigo, confiando no meu trabalho.
Sem conhecer os jogadores, comecei a observá-los no aquecimento e fui descobrindo em que posição eles atuavam. Com pouco tempo fui definindo minha equipe ideal, perguntando aos jogadores, que eu percebia ter mais habilidade, quais eram os melhores do time. Em quinze minutos, tinha uma equipe montada, com um goleiro, dois zagueiros, três no meio e um atacante.
Um detalhe me intrigava, porque todos os jogadores citavam meu amigo para começar jogando. Tudo bem que conhecimento de futebol você vai adquirindo, mas técnica eu nunca vi. Meu amigo não jogava nada na faculdade.
Dei algumas instruções antes do jogo. Todos ouviram atentamente, por educação.
Começa o jogo e em menos de um minuto tomamos um gol.
Meu amigo continuava não sabendo nada de futebol. Seu desempenho em campo era uma tragédia. Depois do terceiro gol, com menos de cinco minutos, pedi um tempo.
A primeira providência foi tirar meu amigo de campo. Depois passei a dar minhas instruções. A partir daquele momento o nosso time só iria marcar da linha do meio campo para trás. Escolhi o jogador que tinha o melhor preparo físico para marcar o craque do adversário. A tática era bem simples, mas para um time que não tinha nenhuma já era um grande avanço. Por isso, o time parou de levar gols e no contra-ataque ainda conseguiu fazer um. O primeiro tempo terminou três a um.
Parece que depois de sacar o meu amigo, acabei ganhando a confiança dos outros jogadores e eles passaram a atender o que eu pedia. Para o segundo tempo, conhecendo os jogadores, fiz mais algumas alterações, sempre mantendo o esquema de jogar no contra-ataque. Conseguimos uma virada história para 5 a 3. No final, tomamos um gol, mas vencemos.
Agora eu me sentia um técnico. Dava gritos na beira do gramado e fazia pressão nos árbitros. Vaidoso, acreditava que o time só venceu graças à minha inteligência. Já tinha esquecido minha promessa de esquecer o futebol por um final de semana.
Veio o segundo jogo e mais uma vitória. Agora com uma certa facilidade (5 a 2). Tinha o grupo na mão, como gostam de dizer os treinadores. Eu, ingenuamente, pensava que depois de duas partidas já sabia tudo sobre os jogadores.
Agora era a vez da partida decisiva. Os dois times chegavam com duas vitórias, mas o adversário jogava pelo empate, pois tinha um saldo melhor de gols.
Começa o jogo. Mantenho a tática de jogar no contra-ataque e da marcação individual no melhor jogador adversário. Jogo difícil, o time deles ficava com a bola, mas não conseguia furar a nossa barreira. Faltando um minuto para o final do primeiro tempo, num contra-ataque rápido marcamos um gol.
Perfeito. Tudo o que eu planejara vinha dando certo. Agora era só manter o ritmo que eu conseguiria um título como treinador.
Na etapa final, o panorama no jogo não mudava. O adversário ficava mais com a bola, mas o nosso time tinha as melhores chances. Eles não conseguiam sair da armadilha que eu armei. Aliás, ninguém conseguiria. Parece que eu tinha achado a tática perfeita. De repente, mais uma jogada rápida e dois a zero.
Acabou, eu pensava. Os jogadores ao meu lado já me cumprimentavam.
Então cometi um erro terrível. Faltando três minutos coloquei meu amigo em campo. Foi o grande erro da minha curta carreira de técnico. Na primeira bola que ele pegou deu um passe para trás, nos pés de um adversário, que livre marcou o gol.
Imediatamente chamei meu amigo para sair. Enquanto caminhava para a lateral, uma bola foi passada para ele, mas como estava de costas para o lance não viu a bola que saiu para lateral. Com o susto ele demorou para sair do campo. Na substituição com a bola em jogo, o nosso time ficou com um homem a menos em campo. Na cobrança de lateral, tomamos um gol de cabeça.
O título foi embora. E minha carreira de técnico também, pois a primeira frase que meu amigo falou após a partida foi a seguinte: "Você está demitido!". Como se ele fosse um diretor e eu um treinador. Aliás, ele foi o principal culpado pela nossa derrocada.
Minha curta carreira de técnico durou três partidas, mais foi o suficiente para saber que a vida de técnico não é fácil e que a culpa da derrota sempre vai ser do treinador.
Deveria ter cumprido minha promessa e ter ficado longe do futebol naquele final de semana.
Até a próxima.
Finalmente a CBF teve o bom senso de não marcar jogos do Campeonato Brasileiro junto com os da seleção nas eliminatórias para a Copa. Seria um absurdo a penúltima, e decisiva rodada do Campeonato Brasileiro, ter a concorrência dos jogos do time de Dunga.
A bagunça que foi a venda de ingressos para a partida entre Brasil e Uruguai. Fico estarrecido com a forma como o torcedor é tratado quando existe um grande jogo de futebol e que não existe nenhum esquema para facilitar a vida daqueles que querem ir ao estádio.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
