Colunas

Futebol na Rede

27/11/2007

A origem das vaias

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

O que era esperado aconteceu. Não faltaram vaias da torcida paulista para a seleção brasileira que venceu o Uruguai na semana passada. Apupos mais do que merecidos, pois a exibição do time de Dunga foi medíocre e o Brasil só venceu porque o goleiro Júlio César esteve num dia excepcional, e o quase preterido Luís Fabiano teve oportunismo para marcar dois gols.

Não vou cometer o exagero de usar as palavras do atual técnico da seleção que teve a sensação de que a seleção, no jogo do Morumbi, parecia jogar fora de casa. Mas é sempre bom lembrar que a maioria da torcida paulista --e a mídia também-- não tem uma relação tranqüila e de amor incondicional com a seleção brasileira, como acontece, por exemplo, no Rio de Janeiro.

Tenho uma teoria que essa relação nada amistosa entre os paulistas e a seleção brasileira tem muito a ver com a rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Para os paulistas, os cariocas sempre tiveram mais influência no comando da seleção, até porque a sede da CBF --a da antiga CBD-- sempre foi na Cidade Maravilhosa.

È bem provável que os problemas entre os paulistas e a seleção começaram na montagem do time brasileiro que disputou a primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai. Uma briga entre dirigentes da CBD e da Associação Paulista de Esportes Atléticos fez com que os paulistas não tivessem jogadores no time --na verdade houve um paulista, Araken Patuska, que estava sem clube.

Na década de 1940, a rivalidade entre paulistas e cariocas nos torneios de seleções estaduais também afetou a relação entre os torcedores de São Paulo e a seleção. Os paulistas continuavam afirmando que os jogadores do Rio de Janeiro tinham mais chances da atuar na seleção e que os craques paulistanos eram preteridos.

A situação ficou tão insustentável que no único jogo do Brasil em São Paulo na Copa do Mundo de 1950, contra a Suíça, o técnico fez uma série de substituições na equipe para agradar a torcida paulista. Colocou em campo, por exemplo, a famosa linha-média do São Paulo, formada por Bauer, Ruy e Noronha, e o centroavante Baltazar, ídolo do Corinthians. Com o time montado em cima da hora o Brasil só empatou em 2 a 2.

Houve um certo período de trégua quando a seleção foi comandada por Paulo Machado de Carvalho, mas mesmo assim a seleção ainda enfrentou problemas em São Paulo. Um dos casos mais famosos aconteceu perto do embarque da seleção brasileira para o Mundial de 1958. Um amistoso entre o Brasil e o Corinthians foi marcado pelas vaias dos corintianos que não se conformavam com a não convocação de Luizinho, ídolo da fiel.

Na década de 70, mais problemas. No início, os paulistas não suportavam o técnico Zagallo e tinham uma implicância com Paulo César Caju. Em 1977, para complicar a história, a CBD marcou dois jogos do Brasil contra uma seleção paulista. As partidas pareciam decisões de Copa do Mundo, com a torcida, lógico, torcendo pela seleção estadual.

Nem o time de Telê Santana, que se preparava para o Mundial de 1982, escapou de vaias. Um empate em 1 a 1 contra a Tchecoslováquia fez com que Sócrates, Zico e companhia deixassem o campo sob apupos. Três anos depois, num empate com a Bolívia, mais vaias para os comandados de Telê que tinham assegurado vaga para o Mundial de 1986.

Para as eliminatórias de 1993, um jogo contra o Equador marcou mais vaias dos paulistas. A ira era contra o técnico Carlos Alberto Parreira. Mesmo com a vitória, que teve um gol de Dunga, as vaias duraram quase a partida inteira.

Nas eliminatórias para a Copa do Japão e da Coréia, novos problemas. Os jogos do Brasil estavam marcados, no início, para Maracanã e Morumbi. Tirando a partida contra a Argentina, vaias nos jogos contra Equador, Peru e o episódio da torcida jogando bandeiras no campo na partida contra a Colômbia. Quando Luís Felipe Scolari assumiu o time, com o Brasil correndo risco de não se classificar para o Mundial de 2002, a CBF fez uma manobra de tirar os jogos do Maracanã e, principalmente, do Morumbi.

Para os paulistas, a seleção não precisa apenas vencer, precisa convencer.

Até a próxima.

Não se pode tratar o caso da queda da arquibancada no estádio da Fonte Nova como uma simples fatalidade. O que aconteceu lá foi o resultado de anos de descaso das pessoas que administram o estádio. Chamar essas pessoas de assassinos não é nenhum exagero. Que as autoridades punam os responsáveis por liberarem um estádio sem as mínimas condições. Infelizmente, nossos dirigentes não se preocupam com o torcedor que tem coragem de ir ao estádio.

A CBF errou em dividir a penúltima rodada do Campeonato Brasileiro em três dias, com diversos horários. Vários times foram favorecidos. Lutando por vaga na Taça Libertadores, Flamengo, Cruzeiro e Santos jogaram sabendo os resultados de seus concorrentes diretos, Palmeiras e Grêmio. Na luta pelo rebaixamento o mesmo ocorreu com Corinthians, Náutico e Goiás entrando em campo já sabendo das derrotas do Juventude e do Paraná.

Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@folha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca