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Futebol na Rede

22/01/2008

Saudosistas

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Não adianta negar. Todo fã de futebol é um saudosista. Em qualquer bate-papo sobre o tema, em menos de dois minutos, algum torcedor logo resgata um fato do passado para tentar explicar o que está acontecendo no momento. A proporção de lembranças depende da situação do time. Quanto pior o momento, mais os torcedores se apegam ao passado, tentando lembrar das inúmeras vezes que o clube estava tão por baixo, mas conseguiu dar uma virada épica.

Estamos no início de temporada, e esse é outro período em que as lembranças voltam vivas na cabeça dos dirigentes que procuram armar seus times para a temporada. Se analisarmos como vários clubes montaram seus elencos para 2008, vamos observar que todos apelaram ao passado para ter sucesso no ano que está apenas começando.

No pior momento da sua gloriosa história, o Corinthians tenta voltar aos seus melhores dias apostando na tradição do passado. O clube apostou na armação de um time sem grandes estrelas, mas com jogadores que têm um histórico de jogar com muita garra e superação. Marca registrada da equipe, que não se dá bem quando tenta mudar essa tradição e monta equipes com várias estrelas.

Também apostou na contratação de um técnico gaúcho, que prega a disciplina, monta times que jogam com muita vontade e marcam muito forte, além da fama de conseguir que jogadores medianos consigam ter desempenho que nunca tiveram.

Para muitos corintianos, Mano Menezes tem o estilo de Osvaldo Brandão, que tirou o clube de um jejum interminável de títulos. Agora a esperança é que Mano Menezes consiga tirar o Corinthians da Série B do Campeonato Brasileiro.

O Palmeiras também apostou no passado. O clube contratou Vanderlei Luxemburgo, na esperança de ganhar um título importante na temporada. É lógico que a competência do técnico é inegável, mas o passado glorioso do treinador na equipe também ajudou na sua contratação. Com saudades da fase gloriosa de títulos da década passada, o clube também espera que a parceria atual com a Traffic traga bons jogadores e conquistas como a união com a Parmalat na década de 90. É inegável como a confiança dos torcedores subiu ao saberem que o time está turbinado com o dinheiro da empresa de marketing esportivo e finalmente pode contratar jogadores de grande nível.

Ao contratar Leão, o Santos apostou que o técnico poderia fazer o mesmo que fez em 2002, quando pegou um time sem dinheiro para fazer grandes contratações e com a utilização de jogadores da base montou a equipe que foi campeã brasileira daquele ano. O problema é que agora o treinador não vai ter tempo para armar uma equipe nova --é bom lembrar que há seis anos o técnico teve dois meses, devido à Copa do Mundo, para estruturar um time-- e a geração atual de novatos não tem jogadores como Diego e Robinho.

O São Paulo também apostou na tradição que o clube tem na recuperação de jogadores e apostou nas contratações de Adriano e Carlos Alberto, que estavam passando por momentos difíceis na Europa. O time também espera que Dagoberto finalmente mostre o mesmo futebol que mostrava no Atlético-PR. Os torcedores e dirigentes esperam que o atacante tenha o mesmo destino que Careca, Dario Pereira e Raí, jogadores que demoraram na adaptação ao clube, mas se tornaram grandes jogadores da história do time

Mas não só os grandes de São Paulo apostaram no passado. A Portuguesa, de volta à elite do futebol paulista e brasileiro, trouxe Zé Maria, ex-ídolo do clube. O Vasco contratou Edmundo, na esperança que ele seja o mesmo jogador que levou o time ao título do Brasileiro de 1997. O volante Jônatas voltou ao Flamengo. O clube espera que ele tenha o mesmo sucesso de Íbson, que retornou ao clube no ano passado e foi um dos destaques do time no último Campeonato Brasileiro. O Atlético-MG repatriou Marques, um dos maiores artilheiros da história do clube.

Que 2008 seja um ano que o seu clube só lhe traga boas lembranças.

Até a próxima

Faltou inteligência à Federação Paulista de Futebol na confecção da tabela do Campeonato Paulista. Fazer com que um time, no caso o Santos, jogue dois clássicos seguidos no início de temporada é um erro sem tamanho. É ruim para o clube, que sem estar bem preparado, tem que enfrentar jogos em que um resultado negativo pode abalar o clube. Também é péssimo para o torneio, já que um clássico no início da competição não tem o mesmo apelo de um jogado em uma fase mais decisiva da etapa de classificação.

Acho que chegou a hora de se pensar qual é o papel da Copa São Paulo de juniores. O torneio perdeu o charme que tinha de ser a vitrine dos jovens craques --até porque os jogadores vão para o profissional cada vez mais cedo-- já que é impossível acompanhar atletas de 88 times espalhados por várias cidades do Estado de São Paulo. O torneio que era a única atração do futebol em janeiro também perdeu espaço, pois passou a ter a concorrência dos profissionais, já que os Estaduais começam mais cedo.

Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@folha.com.br

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