Colunas

Futebol na Rede

19/02/2008

Está no DNA do clube

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Depois de apenas seis jogos, Vágner Mancini foi demitido do cargo de técnico do Grêmio. A versão oficial foi de que o time não estava jogando bem e que a substituição do treinador poderia evitar tropeços no futuro. Mas acho que isso não serve como desculpa definitiva, pois nesse início de temporada nenhum time está encantando.

Eu penso que o treinador foi demitido por duas razões. A primeira está na dificuldade de substituir Mano Menezes, um técnico que ficou um longo período dirigindo, com sucesso, o Grêmio. A outra, que me foi dita por dois gremistas --um ex-dirigente e um torcedor fanático--, é que Vagner Mancini não conseguiria armar um time com as características e a tradição do Grêmio.

Confesso que as palavras características e tradição ficaram martelando na minha cabeça. Será que clubes de futebol têm essência? Será que os times têm características próprias?

Depois de analisar alguns times acho que é possível traçar um perfil das equipes e, o que é mais importante, saber a fórmula que eles têm que usar para dar certo e obter resultados.

Vamos começar com o Grêmio. Os times vencedores do Grêmio sempre tiveram um padrão tático excelente. Foi assim com os técnicos Ênio Andrade, Luiz Felipe Scolari, Tite e Mano Menezes. Seus times também têm que marcar muito, e seus jogadores precisam demonstrar muita vontade. Mesmo com craques no time, o perfil é de um conjunto forte. Não se espera que o Grêmio tenha um toque de bola refinado. Também é tradição gremista ter volantes de marcação e jogadores que recuperam seu futebol jogando no time.

Já os grandes times do Internacional conseguem unir, como nenhum outro clube no Brasil, a força do futebol de marcação e habilidade. Foi assim com o time tricampeão Brasileiro na década de 1970 e mais recentemente o time que conquistou o mundo.

Times populares como o Atlético-MG, Bahia, Corinthians e Flamengo precisam ter jogadores que se identificam com a torcida. Esses times têm que ter atletas que mostram garra e que passem para aqueles que estão na arquibancada que são torcedores apaixonados do clube. Também é necessário que o grande ídolo dessa equipe seja identificado com os torcedores.

Equipes de grandes torcidas precisam ter em suas equipes vários jogadores formados nas categorias de base. Não podem faltar nessas equipes atletas folclóricos como os casos de Dario, Fio, Beijoca, Biro-Biro, Ataliba e Obina. Nunca os dirigentes dessas equipes devem montar equipes contratando várias estrelas. Isto, geralmente, acaba em grandes fracassos. Clubes empurrados por grandes torcidas ganham títulos com elencos que se estivessem vestidos com outras camisas lutariam pelo rebaixamento.

Por outro lado, o Palmeiras nunca vai conseguir formar times vencedores apenas com jogadores esforçados. A torcida do time não tolera jogadores medianos. Um passe errado pode acabar com a carreira do jogador --talvez por isso o clube não consiga revelar jogadores. Só ganha títulos quando consegue montar um time que jogue um futebol bonito, de toque de bola cadenciado, e que tenha alguns jogadores diferenciados, que não causem dúvida de sua qualidade. Talvez o leitor pense: com essas características qualquer time seria campeão. A prática diz que não. Só um exemplo: jamais um time que jogasse como o Palmeiras no início da década de 1970 faria sucesso jogando com a camisa de times populares como Corinthians, Flamengo, naquela época --a torcida não aceitaria um time que jogasse de maneira cadenciada.

O Cruzeiro também é um time que tem uma característica bem peculiar. Qualquer time cruzeirense procura jogar um futebol clássico, com toque de bola e ofensivo. Por isso, quando o time mineiro consegue ter elencos fortes, ele sempre faz boas campanhas.

A chave para o sucesso do Santos é a combinação de jogadores revelados na Vila Belmiro enxertados com alguns jogadores, que de preferência cheguem ao clube ainda jovens. Os times vencedores da equipe precisam jogar ofensivamente, com os jogadores abusando das jogadas individuais. O Vasco têm uma característica semelhante e, por isso, entrou em declínio quando parou de revelar grandes jogadores.

Um time que sempre teve conjuntos fortes é o Fluminense. Por formar times que jogam coletivamente, algumas equipes campeões do clube eram chamadas de "timinho". Mas isso estava longe de ser verdade. Para isso é só ver o time que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1984 e foi tricampeão carioca no mesmo período --isso sem falar dos títulos da década de 1950 e do vencedor do Robertão de 1970. Até a chamada "Máquina Tricolor", que contava com craques como Carlos Alberto Torres, Rivellino, Paulo Cezar Caju, entre outros, também tinha um conjunto muito forte.

O Botafogo não pode perder seu lado supersticioso e sempre tem que ter um símbolo, que teoricamente traga sorte ao clube. Não se pode esquecer o cão-mascote Biriba, das partidas com a camisa de manga cumprida no verão carioca, da mística da camisa sete e por aí vai.

Já São Paulo não tem um estilo marcante. Talvez a grande característica do clube é ter períodos de conquistas mantendo a mesma filosofia de trabalho, mesmo perdendo alguns jogadores. Foi assim no início da década de 1970, no início da década de 1980, com os "Menudos" de Cilinho, com a fase vencedora sob o comando de Telê Santana, nos anos 1990, e o atual período vitorioso com Muricy Ramalho no comando.

Os clubes brasileiros não podem deixar de lado suas tradições se quiserem ter sucesso.

No Rio de Janeiro, Flamengo e Botafogo decidem o título da Taça Guanabara com justiça. O Botafogo dominou o Fluminense, mesmo quando teve um jogador a menos. Já o Flamengo, mesmo não fazendo uma grande exibição, venceu o Vasco. Na partida, o time de Joel Santana só encontrou dificuldades no curto período em que Edmundo teve fôlego.

Além dos critérios de arbitragem, os tribunais esportivos brasileiros também precisam ter um critério uniforme. Não vou entrar no mérito da pena dada ao atacante Adriano, do São Paulo --dois jogos--, nem se deve ser julgado o grau de agressão, mas o mesmo lance, se fosse julgado pelos tribunais da CBF, acarretaria uma pena maior ao jogador.

Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@folha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca