Futebol na Rede
A nossa produção de craques está limitada
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
O final da carreira de Ronaldo, cada vez mais próximo devido às seguidas contusões e vários problemas longe dos gramados, e a má fase enfrentada por Ronaldinho desde a Copa de 2006, que até lhe rendeu a dispensa do Barcelona, me fez atentar um detalhe: o Brasil, decantado como a maior fábrica de talentos do futebol mundial, está produzindo um número muito pequeno de craques.
É lógico que não paramos de exportar jogadores, mas a maioria desses atletas são comuns ou de um nível técnico até duvidoso. Muitos só vão para o exterior pelo preço barato. Fica mais fácil para um clube europeu comprar um jogador brasileiro do que contratar um europeu de mesmo nível. Mas craques, jogadores que realmente decidem, já não conseguimos fabricar na mesma velocidade de anos passados.
Vamos nos atentar para apenas este século. Quais foram os jogadores diferenciados que o Brasil produziu? Na minha opinião, apenas dois: Kaká e Robinho. Temos outro jogador que pode ser um craque, que é o Alexandre Pato, mas ainda tem 18 anos, e temos que aguardar para ver se ele consegue ter o desempenho que se espera.
Esse número é muito pouco para a nossa população e número de meninos que sonham em se tornar profissionais. Em pouco tempo estaremos revelando craques na mesma velocidade que os franceses, que nos últimos 30 anos revelaram apenas dois gênios: Platini e Zidane.
O número é muito inferior ao que o Brasil produziu sempre. Fabricávamos tantos craques, que alguns deles (Canhoteiro, Dirceu Lopes, Ademir da Guia, por exemplo) nunca tiveram a chance de brilhar com a camisa da seleção brasileira, pois não havia lugar para acomodar tantos gênios no mesmo time.
Talvez a ganância dos jogadores e de seus empresários de ganharem dinheiro rápido e forçarem uma transferência rápida para o exterior seja a principal razão da falta de revelação de craques.
Jogadores com bom potencial se transferem sem a melhor preparação para isso. Eles têm potencial, mas vão para a Europa sem ter a maturidade suficiente e sem os fundamentos bem lapidados, além da falta de experiência (profissional e de vida). Em pouco tempo, se perdem e ficam encostados em um time europeu e têm suas carreiras abordadas. Assim, são condenados a jogarem em times de pequena expressão.
Não parece, mas o caminho que o jogador fazia há pouco tempo de surgir em um time do interior, ir para um clube grande, se firmar na seleção e aí sim ir para o exterior era fundamental para que se formasse bons jogadores. Eles se tornavam craques quando uniam sua habilidade com a experiência adquirida.
Acho que o exemplo da falta de craques pode ser vista nesta última convocação do técnico Dunga.
Vamos começar pelo gol. Tanto Júlio César quanto Doni e Diego Alves não são jogadores que me inspirem confiança para serem titulares da seleção brasileira. Tudo bem que eles fazem boas campanhas na Europa, mas os três são infinitamente inferiores aos três goleiros que se revezaram no gol da seleção nos últimos tempos: Marcos, Rogério Ceni e Dida. Vou tirar o Diego da comparação, já que ele é muito novo, mas tanto o Júlio César quanto Doni são muito irregulares e falham muito.
Nas laterais, sofremos como a herança de Cafu e Roberto Carlos terem ficado por anos como titulares absolutos da seleção. Tanto Daniel Alves e Maicon, que se revezam na direita, quanto Marcelo, Gilberto e Kleber não me convencem. Aliás, a melhor partida de Daniel Alves na seleção foi contra a Argentina, na Copa América, mas naquela partida ele entrou como meia.
Na zaga, onde sempre sofremos com a falta de boas opções, por incrível que possa parecer, é o setor que estamos mais bem servidos no momento. Todos os quatro convocados, Alex, Juan, Lúcio e Luisão, têm condições de serem titulares. Ainda temos sobrando jogadores como Miranda e Alex Silva (São Paulo), além de Thiago Silva (Fluminense).
Em compensação, no meio, tirando Kaká, a coisa está feia. Temos três volantes veteranos, Josué, Mineiro e Gilberto Silva, que lutam para jogar como titulares em seus times. Há o Elano, que pode ser um bom coadjuvante, mas não pode ter uma função fundamental na seleção.
O Diego tem talento, mas precisa jogar na seleção o mesmo que ele joga nos times, embora eu penso que seja válido investir nesse jogador. Até porque não temos mais meias criativos. Kaká é craque, mas não é um jogador que organize um time, pois ele rende mais jogando próximo aos atacantes.
Já o Júlio Baptista pode ser esforçado, jogar em várias posições, mas não dá para ser jogador de seleção. O Anderson é muito novo, mas é um grande erro transformar um jogador com seu o talento apenas em um segundo volante, como fez Alex Ferguson, seu técnico no Manchester United. O pior é que assistimos calados à chance de termos um craque para ficarmos com um volante comum.
No ataque, podemos ter esperança, apesar dos jogadores convocados não primarem pela regularidade. Robinho precisa assumir a responsabilidade de ser o craque do time ao lado de Kaká e pode fazer uma boa dupla de ataque com a Adriano, desde que esse continue se lembrando que é um jogador profissional.
Além deles, sempre há a esperança do estouro de Alexandre Pato. Também não podemos nos esquecer da boa fase de Luís Fabiano, que pode ser um boa opção para jogar mais fixo na área quando Adriano não estiver jogando bem. Já Rafael Sóbis está um pouco abaixo dos outros.
O pior é que a nossa safra de jogadores está tão deficiente que nem podemos criticar Dunga por suas convocações. A lista de qualquer outro treinador ou torcedor seria muito próxima da escolhida pelo nosso técnico atual. Talvez dois ou três jogadores diferentes.
Mais uma prova que o futebol brasileiro não produz mais grandes craques é que nos últimos três anos escolhemos como melhores jogadores do país um argentino (Tevez, em 2005), um goleiro (Rogério, em 2006 e 2007) e este se encaminha para um chileno, Valdívia
Aos poucos temos que nos acostumar que não somos os melhores do mundo e agora estamos em igualdade com os nossos concorrentes. O pior que fomos alcançados não porque os outros cresceram. Fomos nós que caímos, e muito.
O Campeonato Brasileiro está no começo, mas merecem destaque Cruzeiro e Náutico, que foram os dois únicos times da Série A que conseguiram vencer duas partidas nas rodadas iniciais do torneio. O clube do Recife aproveitou que o Fluminense atuou com os reservas e conseguiu uma bela vitória jogando no Maracanã. Já o Cruzeiro está fazendo valer sua condição de favorito no torneio. Agora a esperança dos torcedores do time é que a diretoria não desmonte o time no meio do campeonato, com fez nas últimas temporadas.
Técnicos reclamam que os clubes não lhes dão tempo para trabalhar. Mas eles não pensam duas vezes quando são convidados para trocar de time. Agora isso acontece com Alexandre Gallo, que deixou o Figueirense para acertar com o Atlético-MG. O treinador errou, pois deveria dar continuidade ao seu trabalho no time de Florianópolis. Não é a primeira vez que Gallo toma essa atitude. Há pouco tempo ele abandonou a Portuguesa para ir treinar o Santos. Foi demitido do time do litoral e ele teve que reconstruir sua carreira. Depois, fez o mesmo no Sport ao se transferir para o Internacional.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
