Futebol na Rede
Ainda há espaço para os pontas
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
O atacante Guerrón foi o melhor jogador da Taça Libertadores. Com suas arrancadas pela direita, dribles e cruzamentos, o jogador destruiu o sistema defensivo dos adversários e levou a LDU ao título inédito do torneio intercontinental. Mais do que isso: com suas excelentes e decisivas atuações, o ponta nos fez ver que é possível jogar com jogadores fixos pelas extremidades do campo.
Com quase todas as equipes atuando preparadas para enfrentar dois atacantes mais centralizados, a utilização de um ponteiro é uma opção bastante interessante. Até porque temos laterais, ou alas --eu prefiro a primeira denominação--, que não sabem marcar. Com a extinção dos pontas, os laterais só pensam em apoiar. Na marcação, o máximo que eles fazem é apostar corrida com o lateral adversário.
Também facilita a função dos pontas abertos o fato de os zagueiros e volantes encarregados de fazer a eventual cobertura dos laterais serem extremamente lentos quando precisam se deslocar para os lados do campo. Sem dizer que a ida dos defensores para os lados do campo abre um espaço enorme para os homens de meio-campo, que ficam com grande liberdade.
Vocês devem perguntar: mas os laterais não podem fazer essa função? Eu acho que não. Os laterais avançam, mas não têm a habilidade de um ponta autêntico para driblar o marcador num curto espaço de tempo. Também, os laterais dificilmente conseguem chegar à linha de fundo para fazer cruzamentos, muitos se limitam a executar "chuveirinhos" feitos da intermediária.
È lógico que só jogar com pontas especialistas não é nenhuma garantia de vitória. Primeiro é preciso ter um jogador que possa fazer a função --até porque desde o início dos anos 1990 nenhum garoto se apresenta em peneiras dizendo ser ponta-direita e ponta-esquerda. Também é preciso que se arme um time seguro, com o ponta --ou os pontas-- ajudando na marcação dos laterais adversários e que se monte uma linha de quatro defensores que não passem para o campo de ataque. Também é preciso que pelo menos um meia recue um pouco para não sobrecarregar o volante na marcação dos adversários.
Os pontas autênticos sempre foram uma tradição no nosso futebol. Mas, já na década de 1950, dois jogadores se destacaram jogando como pontas recuados, como se dizia na época. O ponta-direita Telê Santana, do Fluminense, se multiplicava em campo e recuava para ajudar na marcação. No lado esquerdo, Zagallo fazia a mesma função, inclusive na seleção brasileira, onde foi peça fundamental na conquista das Copas do Mundo de 1958 e 1962. Mas também é preciso dizer que os dois também tinham a capacidade de jogar como pontas autênticos e fazer muitos gols.
Na década de 1960 e início dos anos 70 do século passado os times ainda usavam dois pontas bem abertos. Depois disso, os times e treinadores transformaram um dos pontas em jogador de meio-campo. O que no começo se chamava de quadrado. Essa tendência continuou até o final da década de 1980. Mas, já a partir daí, os times optaram por jogar com dois atacantes mais centralizados, com um dos dois atacantes caindo, algumas vezes, pelos lados.
As atuações de Guerrón trazem lembranças de grandes nomes do nosso futebol. Pontas dribladores, aqueles que entortavam os laterais. Ponteiros como Garrincha, Julinho, Pepe, Canhoteiro, Edu (Santos), Zé Sérgio, Joãozinho, Nei, Lula, João Paulo e Tato não tinham a mínima dificuldade de driblar os pobres laterais adversários num curto espaço de grama.
Também tinham os pontas que eram velocistas, como Gildo, Edu Bala, Terto e Gil que quando lançados batiam os seus adversários na velocidade para chegar à linha de fundo. Cabe a Edu Bala, célebre ponta do Palmeiras no início dos anos 70, a seguinte frase: "Se corro não penso, se penso não corro!"
Os laterais sofriam, mas também tinham seus dias de glória. Bicampeão do mundo, Djalma Santos tinha uma tática para intimidar os ponteiros que teria que marcar, principalmente Pepe e Canhoteiro. O lateral-direito, no início de cada partida, tentava dar um drible desconcertante no ponta adversário.
Estava me esquecendo. Quem deve sentir muita falta dos pontas são os centrovantes. Sem eles ficou mais difícil para os atacantes receberem bolas açucaradas para fazerem gols --isso para dizer que eles também já não contam com grandes armadores. Já que os pontas historicamente sempre se preocuparam mais em driblar os adversários e servir os companheiros do que marcarem gols.
Com tantos jogadores concentrados no meio, jogar pelas laterais é fundamental.
Até a próxima.
Para o Vitória, que na sua volta à Série A faz excelente campanha no Campeonato Brasileiro e está nas primeiras colocações do torneio. O time, que é muito forte quando joga em casa, conseguiu finalmente sua primeira fora de casa, contra a Portuguesa.
LDU e Fluminense fizeram dois grandes jogos na final da Libertadores. Nas duas partidas as equipes jogaram ofensivamente e procuraram o gol a todo instante --foram marcados dez--, algo que não é comum em finais de campeonatos.
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Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
