Colunas

Futebol na Rede

15/07/2008

Vitórias ou derrotas não mudam a história do futebol

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

A vitória da Espanha na última Eurocopa pode servir como uma mudança nos rumos do futebol para alguns. Segundo eles, o fato de a equipe ser formada por jogadores de baixa estatura, de bom nível técnico, que gostam de atuar com toques rápidos, pode influenciar as outras seleções do Velho Continente, ou até mudar os rumos do futebol mundial. Eu não concordo com isso.

Aliás, como escrevi no título desse texto, não acho que a conquista de um determinado time, ou uma eventual derrota, possa mudar ou determinar como será o futebol no planeta. Não gosto de definir marcos que poderiam escrever uma nova história do futebol.

É quase unanimidade dizer que se a Holanda tivesse vencido o Mundial de 1974 e se o Brasil ficasse com o título oito anos depois teríamos um futebol diferente do que temos hoje. Não vou discutir que esses foram times fantásticos, mas mesmo se vencessem nada seria diferente. Teríamos times jogando na defesa do mesmo jeito --nem todos teriam condição de imitar a maneira que esses times atuavam. Até porque é impossível montar times como aqueles, já que vai ser difícil reunir ao mesmo tempo jogadores com aquelas características.

As duas seleções foram fantásticas graças ao elenco que tinham. Devido ao talento dos jogadores, permitiram que os técnicos Rinus Michels (Holanda) e Telê Santana (Brasil) armassem dois dos melhores times da história. Por isso, imitar a maneira de jogar deles foi impossível.

Até a própria Holanda, mesmo com a base do time que foi vice-campeão em 1974, quatro anos depois, na Copa da Argentina, não conseguiu repetir o futebol do Mundial da Alemanha. Sem Cruyiff, o time não foi nada revolucionário, pelo contrário, jogou um futebol burocrático. Na final contra a Argentina, na tentativa de empatar a partida, a equipe se limitava a cruzar bolas na área do adversário.

Com esses exemplos cometemos duas injustiças. É um grande erro afirmar que os campeões do Mundial de 1974, a Alemanha, e de 1982, a Itália, acabaram mudando para pior a história do futebol e sepultaram o sonho de só haver equipes que jogam de maneira ofensiva. Os dois times eram muito bons, tanto que conseguiram derrubar os dois favoritos.

A Alemanha de 34 anos atrás --caramba, como o tempo passa!-- tinha jogadores excepcionais, como o goleiro Maier, Beckenbauer, Gerd Muller e Overath, atletas que seriam titulares sem contestação do time da Holanda, por exemplo. Já os italianos também tinham uma geração fantástica, com nomes como Scirea, Cabrini, Antognoni, Tardeli e um artilheiro inspirado, Paolo Rossi, que decidiu as partidas mais importantes do time no Mundial.

Os que reverenciam a Espanha atualmente são os mesmos que há quatro anos diziam que o final do futebol estava próximo com a conquista da Euro pela Grécia. Nada disso aconteceu. O futebol não acabou e o estilo de o time grego jogar, sempre atuando na defesa e atuando, no erro dos adversários não pegou. Pelo contrário, quem tentou imitar o estilo de jogo grego fracassou feio. Até a própria Grécia teve que mudar seu estilo de jogo depois do fracasso nas eliminatórias para o Mundial da Alemanha.

Se a gente observar, mesmo após a conquista de times ofensivos também não houve uma mudança significativa no futebol no mundo. O Brasil bicampeão do mundo, em 1962, não ditou a forma de jogar das equipes. Até no Brasil por muito tempo os times não usavam o esquema da seleção, o 4-3-3. Os times atuavam no 4-2-4, jogando com dois pontas bem abertos.

Também não concordo com aqueles que dizem que o time da Copa de 1994 foi o marco que deu início à decadência do nosso futebol. Acho que Parreira montou um time com os jogadores que ele tinha confiança. Mas a forma de a seleção jogar também pouco influenciou no nosso futebol.

Durante a gestão da dupla Parreira --até 1994-- e Zagallo --até 1998-- os nossos principais times jogavam de maneira ofensiva. Exemplos não faltam. Nessa época foram montados times que jogavam no ataque, como São Paulo, Palmeiras, Vasco, Cruzeiro e até o Grêmio de Felipão, que era um time que muitos insistiam em dizer que jogava retrancado. Na verdade, era uma equipe que marcava forte, mas fazia muitos gols.

O rumo do futebol passa longe do que aconteceu com uma ou outra equipe.

Até a próxima

Bonita de ver a cena dos presidentes do Flamengo, Márcio Braga, e Roberto Dinamite (Vasco) assistindo ao jogo entre seus times juntos na tribuna do Maracanã. Que o fato mostre para dirigentes e torcedores que o fã de outro time é apenas um adversário e não um inimigo. Que a rivalidade deve e pode existir, mas que se limite ao gramado.

Os times e os árbitros precisam ter mais cuidado na escolha de seus uniformes. Em todas rodadas há confusão de cores. No jogo Flamengo e Atlético-MG, o goleiro Bruno jogou com um uniforme idêntico ao do árbitro. Com times com tantas opções de uniformes, um pouco mais de cuidado evitaria esse tipo de problema.

Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@folha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca