Futebol na Rede
Goleiro de time grande
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Todo goleiro gosta de jogar num time pequeno ou mais fraco do que o adversário. Mesmo que ele tome muitos gols, nunca vai ser considerado o vilão de uma derrota. Pelo contrário, sendo seguidamente bombardeado pelos atacantes inimigos ele vai conseguir fazer algumas defesas e se destacar. Vai ser abraçado pelos companheiros e ainda ouvirá: "se não fosse você a coisa seria bem pior".
O difícil e estressante para o goleiro é jogar num time forte, num time grande. Quem joga nesse tipo de time sabe que a bola vai pouco para o gol. Quando chega, o goleiro sabe que vai precisar trabalhar --e muito. Muitas vezes, vai ter que praticar um milagre. Talvez por isso foi criada a frase: "Todo grande time começa com um grande goleiro".
Por isso é preciso ter muito cuidado para sair falando --ou escrevendo-- que fulano é um grande goleiro. É preciso observar como um goleiro se comporta na transição de passar de um time fraco para um time mais forte, que briga por títulos. Essa passagem não se resume apenas ao nível técnico: ela também é feita na parte psicológica. Arqueiro de time pequeno (ou fraco) se acostuma a tomar muitos gols e mesmo assim é elogiado. Já para o goleiro de time que briga por títulos, tomar um gol é motivo de uma enxurrada de críticas.
Pelo que descrevi, fico em dúvida se Felipe, do Corinthians, pode ser considerado como um grande goleiro, ou melhor, goleiro para times grandes ou até para a seleção brasileira. Felipe ganhou destaque no Corinthians do ano passado. Jogando num time fraco, que acabou rebaixado para a Série B, se destacava graças à fragilidade da sua equipe. Fazia grandes defesas, defendia pênaltis e, mesmo quando o time perdia, era o melhor da equipe.
Para 2008 a situação mudou. Na Série B, por exemplo, o Corinthians é o time a ser batido. Felipe não é tão exigido como era no final do ano passado. Agora se exige que as poucas bolas que vão ao gol corintiano sejam defendidas. E, para mim, Felipe vem negando fogo na prova para ser um grande goleiro. O jogo com o Bahia foi um exemplo claro. Felipe falhou feio no gol do time baiano e isso custou a derrota. É lógico que todos os goleiros falham, mas não sinto em Felipe a confiança de fazer a diferença em momentos decisivos. Não o vejo fazendo um milagre num jogo importante.
Também não tomem Felipe como um frangueiro, ele é um bom goleiro, só não acho que ele será excepcional para jogar na seleção brasileira e ganhar muitos títulos.
O mesmo que falei para Felipe vale para arqueiros como Bruno (Flamengo) e Fernando Henrique (Fluminense).
Talvez um exemplo de como é difícil fazer a transição de um time pequeno para uma equipe de nível é o ex-goleiro Abelha. Na Ferroviária, de Araraquara, na década de 1980, ele se destacava. Chegou a ser apontado como o melhor goleiro do Campeonato Paulista. Contratado pelo São Paulo, acabou indo muito mal. Teve uma passagem pequena pelo Flamengo, também sem sucesso. Ou seja, Abelha provou que não conseguia ser excepcional nas duas ou três bolas que chegava ao seu gol quando jogava em times maiores.
Se jogar em time grande é complicado, na seleção é muito mais complicado. Pode reparar: a bola chega pouco ao gol do Brasil, mas quando chega o goleiro precisar operar um milagre. Por isso, me preocupa a camisa um ser disputada por Júlio César, que é extremamente irregular, Doni ou Hélton, outros goleiros que já foram chamados por Dunga. Na verdade, penso que na geração atual de goleiros --escrevo de novo, todos são bons tecnicamente e bem treinados-- não temos um arqueiro fora-de-série. Não existe um goleiro do mesmo nível de Marcos, Dida e Rogério Ceni para assumir o gol da seleção.
Voltando a contar história. Sempre lemos críticas ao goleiro Félix, da nossa seleção que conquistou o tricampeonato em 1970. Está certo que ele não era um grande goleiro e falhou em alguns jogos daquele Mundial, mas quando o time precisou, Félix, como deve se comportar um goleiro de um time excepcional, fez também seus milagres. Na partida contra a Inglaterra, fez defesas excepcionais e não foi vazado no único jogo que o Brasil, para vencer, não poderia ter levado gol, já que o time ganhou por 1 a 0. E, na semifinal contra o Uruguai, mesmo após ter falhado no gol do adversário, fez defesas importantes quando o Brasil vencia a partida por 2 a 1.
Taffarel também foi um goleiro de seleção exemplar. Era extremamente regular quando jogava com a camisa da seleção, em Copas do Mundo. E nos três Mundiais que jogou, quando foi exigido, se saiu muito bem.
Ser goleiro não é fácil. Mas quando se joga na seleção brasileira ou num time que briga por títulos a responsabilidade e a exigência são multiplicadas. São realmente poucos os que se saem bem nessas condições. Por isso, os chamamos de heróis ou santos.
Até a próxima.
Ele não é simpático, nem faz questão de ser, mas não se pode negar que Muricy Ramalho é um grande técnico de futebol. Mesmo sem tempo para treinamento e com alguns desfalques, o treinador do São Paulo está sendo muito competente para armar sua equipe de acordo como o seu adversário joga. Foi assim principalmente nas vitórias contra o Palmeiras e o Vitória, quando além de anular os pontos fortes dos rivais soube explorar muito bem os defeitos dos adversários.
Mesmo com poucos jogos já é possível ver o bom trabalho do técnico Ney Franco no comando do Botafogo. O time subiu muito de produção com ele no comando. Se os atacantes tivessem um melhor aproveitamento nas finalizações a equipe teria conseguido melhores resultados nas partidas contra Santos e São Paulo. Por fim, não poderia deixar de destacar o trabalho de Celso Roth no Grêmio --que desde o início do torneio sempre figura entre os melhores.
![]() |
Humberto Luiz Peron, 40, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, redator da revista Monet e colaborador do Diário Lance. Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@folha.com.br |
