Futebol na Rede
Ontem e hoje
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Confesso que por muitos anos eu fui um chato. Passei muito tempo falando e escrevendo que o futebol do passado era muito melhor que o disputado atualmente. Talvez fiquei parado no tempo, mas o contato com os mais jovens aqui no trabalho --tenho vários companheiros que não tinham nascido na Copa de 1982-- e nas conversas como os leitores "aprendi" a ver o futebol de hoje de outra maneira. Ou seja, consegui vencer a barreira da lembrança afetiva, principalmente dos jogos que vi e ouvi quando criança, principalmente pelo rádio.
Tenho certeza que o problema é enfrentado por todos, principalmente por aqueles que gostam de futebol. Meu avô sentiria saudades do futebol das décadas de 1930 e 40, principalmente do futebol argentino. Meu pai e seus contemporâneos defendem o futebol das décadas de 1950 e 60. Eu gostava de como o jogo era disputado na década de 1970 e no início dos anos 80.
Acho que não dá para comparar o futebol que é disputado hoje com qualquer outra época. Talvez o jogo não seja pior, ou melhor, do que o praticado no passado. Ele é totalmente diferente. Pode-se dizer que o futebol praticado hoje tem muito pouca relação com o que era jogado há trinta, quarenta anos.
Fica claro que os jogadores atuais são inferiores tecnicamente aos do passado. E isso deve-se a como os jogadores eram formados e como se tornaram profissionais no passado. Antigamente os meninos aprendiam a jogar futebol na rua ou num campinho de várzea. Com qualquer tipo de bola. Valia chutar qualquer coisa, desde a bola de capotão até uma bola de meia, pedra ou pilha. Sem perceber, o jogador adquiria habilidades que só nessas condições ele conseguia. Num campo irregular ele aprendia como matar a bola e aprendia como dar um passe em qualquer condição.
Talvez hoje, um jogador, ou melhor, jogadora, tenha essa característica. Ela é a Marta, da seleção feminina. A meia-atacante nos encanta por ainda ter o espírito de peladeira e por ter aprendido a jogar na beira de um rio na sua cidade natal, Dois Riachos (Alagoas). O drible fácil da jogadora vem do fato de ela ter criado uma maneira de se livrar dos meninos maiores que jogavam com ela na infância.
Hoje, não. Os garotos começam cedo nos clubes. Desde pequeno aprendem a jogar dentro de esquemas táticos e a jogar coletivamente. Se não fazem os jogadores terem a mesma habilidade, fazem ter muito mais consciência tática e saber como se colocar dentro do campo. Dentro desse conceito de jogar em equipe, os jogadores de hoje sabem que precisam marcar o adversário, independentemente da posição que atuam. Os atacantes sabem que se apertarem os zagueiros têm muitas chances de tomar a bola. Está acabando a era dos jogadores que só faziam uma função no campo.
O jogador de hoje também já sabe desde cedo que é importante ser um atleta. Está provado que o jogador corre quase duas vezes mais que há 30 anos. Sem preparo físico, mesmo com uma habilidade excepcional, ele não vai conseguir jogar. Ele vai conseguir driblar seu adversário uma vez, mas o rival vai se recuperar. O jogador precisa ser forte para suportar os constantes choques que existem na partida. Sem preparo para se deslocar sempre, para fugir da marcação do adversário, um craque não joga hoje.
Chama a atenção hoje como os jogadores precisam ter rapidez de raciocínio no futebol. Ele tem que estar preparado para fazer a jogada antes de a bola chegar, pois quando recebe o passe já tem um adversário na marcação. Atualmente, o jogador joga sob a pressão de não errar. Um atacante sabe que se perder uma chance de gol talvez não tenha mais nenhuma oportunidade para marcar.
Também se tornou fundamental o trabalho dos treinadores. Até pouco tempo, os técnicos não tinham tanta importância como têm agora. Hoje, com times tão equilibrados, eles podem fazer a diferença. Treina-se muito mais forte taticamente do que acontecia no passado, principalmente nas jogadas ensaiadas que decidem vários jogos atualmente. Pode parecer um exagero, mas em algumas partidas pode-se perceber o duelo entre os dois treinadores. Uma mudança de peça troca todo o ritmo do jogo.
Que bom que o futebol evolui e nos faz mudar nossos conceitos.
Até a próxima.
Para o Grêmio que conquistou o título do primeiro turno do Campeonato Brasileiro. O time vem sendo regular desde o começo do torneio e vem atuando muito bem fora de casa. Pode não parecer, mas o clube abriu uma boa vantagem sobre os concorrentes diretos. Cinco pontos, por exemplo, representam que o Grêmio conquistou o direito de tropeçar em duas rodadas e, mesmo assim, estará na briga pela liderança.
Para o Santos, que não parece encontrar o caminho para sair das últimas colocações no Campeonato Brasileiro. Os seus dirigentes estão fazendo tudo para que o time continue numa zona de risco. Desmontaram a base do time, contratam jogadores de qualidade duvidosa no desespero, gastando muito dinheiro, e não conseguem dar sustentação para que um técnico consiga trabalhar com um pouco de tranqüilidade no clube.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |

