Futebol na Rede
O domínio do jogo
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
O melhor caminho para se vencer uma partida de futebol é ter o domínio sobre o adversário. Atenção: domínio não quer dizer ter mais posse de bola ou ficar o tempo todo no campo do adversário atacando sem nenhuma organização. Dominar o adversário significa fazer que ele atue da maneira que for melhor para o seu time.
Isso quer dizer que nenhuma equipe vai vencer uma partida se deixar o adversário ditar o ritmo do jogo. O treinador pode até armar um time defensivo para tentar surpreender o adversário em contra-ataques. O que não se pode fazer, por pior que seja o time, é montar um time todo atrás, sem nenhuma opção de ataque.
Quem joga todo recuado, só se defendendo, além de passar a ter fama de treinador covarde, vai perder a partida. Talvez esse seja o principal motivo de ter surgido a frase: "Quem joga pelo empate, sempre acaba perdendo".
Todos já perceberam que existem partidas em que você já consegue descobrir qual vai ser o resultado final após os primeiros cinco minutos. Um time consegue dominar o outro com tal facilidade que, mesmo se o dominado fizer um gol, é muito claro que vai ganhar a partida. Não tem erro.
Por isso, é fundamental que os técnicos estudem muito bem seus adversários e saibam anular suas principais jogadas. Agora, não vale mais o velho bordão: "Em time que ganha não se mexe". A cada jogo, o técnico tem de arrumar a sua equipe de maneira diferente. Por isso, tem que ser competente para descobrir (e pôr em prática) várias formações táticas.
Estamos na fase final do Campeonato Brasileiro e vários clubes já têm seus pontos fortes conhecidos. Todos sabem quais os times que, se marcados os laterais, não jogam. Também parece que todos sabem como anular os principais jogadores dos times adversários.
Uma das sugestões que eu daria para surpreender seria optar por marcar a saída de bola do adversário com mais constância durante os jogos. Já ficou provado que os zagueiros que atuam nos nossos clubes atualmente não sabem sair jogando e se atrapalham quando são marcados. Um bom esquema de marcação por pressão pode dar ao time que usa esse expediente o total domínio de uma partida, pois o adversário vai ser obrigado a rifar a bola.
Não entendo também por que os clubes brasileiros não conseguem usar o esquema de duas linhas defensivas de quatro jogadores com eficiência. Estamos cansados de ver os nossos times sofrendo uma barbaridade quando enfrentam equipes que jogam dessa maneira nos torneios intercontinentais. Até contra times muitos fracos tecnicamente, os brasileiros sofrem para furar esse bloqueio.
Estranho que os nossos treinadores não usem essa maneira de se defender. Usam o ultrapassado sistema com três zagueiros pesados, mas não experimentam se fechar com as duas linhas defensivas.
Disse acima que os pontos fortes dos clubes já são conhecidos, mas os fracos também já foram revelados. Se aproveitar dos pontos fracos do rival também é uma boa maneira de dominar o adversário. Saber que uma defesa é fraca no jogo aéreo e saber se aproveitar disso é um grande passo para ganhar uma partida, seja ela em casa, ou atuando no campo do adversário.
Gostamos de pedir atitude aos jogadores, que eles corram mais e marquem o adversário. Mas em algumas partidas, um time domina tanto o adversário, que por mais que os jogadores corram, não conseguem achar os oponentes. Parece que o time que está mais acertado em campo tem mais jogadores no gramado.
Vários times marcaram por impor o seu ritmo ao adversário. No futebol brasileiro, tivemos vários exemplos, como o Santos, de Pelé, o Cruzeiro, com Tostão, o Internacional, com Falcão, e o Flamengo, de Zico, no início dos anos 80, mas gosto de citar o Palmeiras do início da década de 1970 e o São Paulo do ano passado como times que faziam o que queriam com os seus adversários durante uma partida.
Esses times dominavam de tal maneira o jogo, que poucos riscos sofriam durante uma partida e, por isso, tomavam poucos gols. Essas equipes citadas cansaram de ganhar partidas de 1 a 0, mas sem sofrerem sufoco dos adversários.
A única diferença entre eles é que o Palmeiras tinha um craque chamado Ademir da Guia, que ditava o que o time fazia no gramado. Já o São Paulo do ano passado não tinha craques, mas dominava os adversários, mudando a cara das partidas, com várias mudanças táticas durante os jogos.
Com times tão nivelados, saber como dominar o adversário passou ser fundamental.
Até a próxima
Independentemente do resultado contra a Bolívia, merece ser citada a boa atuação do Brasil contra o Chile. Duramente criticado, inclusive por mim, o técnico Dunga foi muito bem e levou grande vantagem sobre Marcelo Bielsa, um dos treinadores mais competentes da América do Sul. Jogando com um trio ofensivo formado por Robinho, Luís Fabiano e Ronaldinho, o treinador brasileiro desarrumou o esquema defensivo do Chile, que era composto por três zagueiros. Também digno de registro a vontade (alguns até passaram da conta) que os brasileiros tiveram na partida. O ideal é que eles sempre jogassem assim e não somente quando são provocados ou não gostam das declarações da imprensa e/ou do Presidente da República.
Acho que já chegou a hora de a Fifa rever a recomendação de só se marcar impedimento do jogador que vai receber a bola. Não acho certo que um jogador em posição irregular no início de uma jogada receba a bola, mesmo não mais em impedido, e faça o gol. Isso não faz sentido: se o jogador estava em impedimento passivo, ele não poderia mais participar até o lance terminar. Nessas ocasiões, o atacante só faz o gol porque ele leva vantagem por estar adiantado na hora que começou a jogada. Muitas vezes ele não precisa fazer nada para sair do impedimento, já que os defensores têm de recuarem e acabam tirando o atacante da posição irregular.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |

