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Futebol na Rede

04/11/2008

Eles não sabem o que dizem

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HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Na semana passada, momentos antes do início de um jogo do Campeonato Brasileiro, o repórter perguntou a um técnico de um time da Série A, do principal torneio do país, qual o motivo de ele ter mudado o esquema da equipe do 3-5-2 para o 4-4-2. O treinador, que nas últimas duas décadas ganhou um bom número de títulos, mas também levou algumas goleadas históricas, não teve dúvidas e falou: "Como o time adversário tem um meio-de-campo forte, resolvi tirar um zagueiro para reforçar o nosso meio."

Um dia depois, outro técnico, esse considerado por muitos um exemplo de estrategista, soltou uma pérola parecida. Na dúvida se armava o time com três ou dois zagueiros, o treinador disse que usaria dois defensores para equilibrar o setor de meio com o do adversário.

Não sei se todos perceberam, mas esses dois treinadores --repito, dois dos maiores vencedores de títulos nas duas últimas décadas-- disseram uma besteira sem tamanho.

Primeiro, mostraram total ignorância com a matemática. Eles --e não só eles-- esqueceram um detalhe pequeno: cinco sempre foi maior que quatro. Então, se a intenção deles era neutralizar o meio-de-campo do adversário seria muito melhor utilizar cinco homens no setor e ter, no mínimo, a vantagem numérica nessa faixa do campo.

Também não me conformo quando os nossos "professores" dizem que vão jogar com três zagueiros para reforçar o sistema defensivo. Outra vez, contamos com a ignorância aritmética dos nossos técnicos. Como vão reforçar a defesa se tiram um zagueiro do time?

Tirando a matemática de lado, o que mais me deixa preocupado é que são poucos os treinadores no país que conseguem entender o 3-5-2. E olha que o sistema foi criado há quase trinta anos e hoje, praticamente, está morto na Europa. Na verdade, quando nossos técnicos dizem que vão jogar no 3-5-2, na verdade eles adotam o 5-3-2.

Por isso eles falam as besteiras como as escritas no começo desse texto. Os técnicos dizem que vão reforçar o meio tirando um zagueiro pois quando usam o esquema com três defensores não percebem que deveriam usar os laterais --ou alas-- como jogadores de meio-de-campo.

Reparem bem: na maioria dos casos, os laterais atuam da mesma maneira, mesmo com o time atuando com dois ou três zagueiros. E isso é muito fácil de perceber. Se você pegar a estatística de um jogo, vai ver que em todos os fundamentos a performance dos laterais é bem parecida, mesmo quando eles teoricamente têm mais liberdade para atuar como alas.

Se os técnicos querem se sentir revolucionários ou modernos, nas vezes em que eles inventam jogar no 3-5-2 deveriam colocar jogadores de meio-campo atuando pelos lados. Aí sim teriam a vantagem numérica no setor.

Talvez hoje, no nosso futebol, somente Muricy Ramalho consegue entender isso. Seria uma boa explicação para explicar o motivo de o São Paulo, mesmo não tendo um elenco magnífico e tão superior ao dos seus concorrentes, dominar o nosso futebol nos últimos anos.

Voltando à ignorância dos nossos técnicos em utilizar o 3-5-2. Eles se complicam é na parte defensiva. Insistem em escalar os três zagueiros jogando em linha. Ou seja, um atacante que passa por um zagueiro passa por toda a linha defensiva. Para que o 3-5-2 realmente funcione é preciso que um dos zagueiros jogue na sobra, o que seria o líbero.

Para isso é necessário que quem faça essa função seja um zagueiro rápido, com excelente poder de antecipação e que saiba se colocar muito bem em campo. Também é necessário que esse jogador tenha a capacidade de saber sair jogando.

O grande problema é que não temos no nosso futebol zagueiros formados para jogar dessa maneira. Nos últimos tempos os nossos zagueiros, protegidos por uma quantidade enorme de volantes, se acostumaram a ser simples rebatedores de bola. Pode reparar: os nossos defensores sofrem muito quando enfrentam, no mano a mano, um atacante adversário.

Dentro das invencionices dos nossos treinadores temos que engolir termos como "falso zagueiro". Na verdade mais um jogador que fica sem função no gramado, já que ele não funciona no sistema defensivo e não ajuda no meio.

Pobre do nosso futebol quando os nossos principais treinadores não sabem matemática e, o que é pior, pensam que sabem, mas não entendem nada de como funcionam alguns esquemas táticos.

Até a próxima.

Para a Portuguesa, que lutando para escapar do rebaixamento tem sido decisiva também na luta pelo título. O time do Canindé já venceu o Cruzeiro e o Grêmio, tirou pontos do Flamengo e do Palmeiras e agora pode tirar o São Paulo da liderança do torneio. Sempre é bom lembrar que a vitória para o time de Estevam Soares será fundamental para que espante o fantasma de uma nova queda para a Série B.

Merece destaque o futebol de Goiás. Na Série A, o Goiás faz uma boa campanha e deve conquistar uma vaga na próxima Copa Sul-Americana. Na segunda divisão, empurrado pelos gols de Túlio, o Vila Nova caminha para voltar à elite do nosso futebol. Já na Série C, o Atlético-GO lidera com folga o octogonal final e tem o acesso à Série B praticamente assegurado.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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