Futebol na Rede
Tolerância demais
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Sempre temos mais tolerância com aqueles que seguidamente cometem erros, mas que, por algum motivo, temos alguma ligação especial ou admiração. Pode ser aquele colega de trabalho que insiste em inventar desculpas para não cumprir algumas tarefas ou até com os filhos, quando fazemos vistas grossas em algumas coisas que eles cometem.
O pior é que, quando agimos dessa maneira, sempre prejudicamos alguém. Na ânsia de proteger, sempre vai sobrar para aquele que cumpre as suas obrigações.
O mesmo acontece com os jogadores de futebol. Mas me choca como protegemos (incluo nesse coletivo imprensa, dirigentes, técnicos e torcedores) alguns jogadores. O pior é que alguns dos atletas, sabendo disso, aproveitam-se da situação.
Eles sabem que, na fase atual, um time faz um grande esforço para ter um atleta de nível no elenco. O atleta sabe que as equipes, muitas vezes, não têm como abrir mão dele, para não perder dinheiro e não sofrer pressão dos torcedores. Então, alguns se acham no direito de fazerem o que quiserem.
Multas? Todos nós sabemos que elas só existem no noticiário, para os dirigentes justificarem seus postos, mas que na maioria das vezes os atletas não perdem um centavo dos seus ganhos.
Fico chocado pelo tratamento que os profissionais chamados de "chinelinho" recebem, mesmo em um momento em que se cobra profissionalismo ao extremo. Esta fama é tratada com muito bom humor por todos. O pior é que se aceita passivamente que o jogador não treine e não jogue algumas partidas. Damos seguidas gargalhadas das desculpas inventadas pelos jogadores, que simplesmente deixam de cumprir uma das suas funções básicas, que é treinar.
Também é difícil aceitar a expressão: "ele é craque, mas só joga quando quer". É difícil aceitar isto. Se o jogador tem contrato com o clube, a obrigação primária que ele entre em campo com vontade. Jogar bem ou mal, vencer ou perder depende das circunstâncias da partida, mas ao entrar em campo, o mínimo se espera é que o atleta tenha vontade de jogar.
É gostoso dar risadas com histórias de jogadores que fugiram de concentração, ou das estratégias para ter uma noite de prazer antes de uma partida. Não discuto o que o jogador faz durante suas folgas, principalmente se ele não tiver que treinar no dia seguinte, mas na concentração o jogador está trabalhando. O pior que essas histórias contam com as vistas grossas de dirigentes que encobertam, ou se orgulham em satisfazer as vontades de seus craques.
É visível como alguns treinadores protegem alguns jogadores na parte tática. Enquanto em alguns esquemas alguns atletas têm total liberdade para fazerem o que querem em campo, outros são cobrados a exaustão por não cumprirem o que foi combinado no vestiário.
Neste insano processo de mimar os jogadores é comum perdoar aquele que seguidamente é expulso por arrumar confusão em campo. Mesmo que ele prejudique a equipe ao tomar um cartão vermelho logo no primeiro tempo, preferimos jogar a culpa da derrota nas costas do goleiro que falhou no gol do adversário.
No futebol, como na vida, passamos a mão na cabeça das pessoas quando eles erram na esperança que elas se acertem, mesmo sabendo que daqui a poucos segundos os equívocos vão voltar a acontecer.
Até a próxima.
Durou apenas sete meses a passagem de Luiz Felipe Scolari como comandante do Chelsea. Podem ser levantadas várias teorias para a queda do treinador, que passam por um boicote dos jogadores, problemas de comunicação e contusões. Mas a verdade tem que ser dita. Felipão não conseguiu montar o time do Chelsea e caiu porque estava fazendo uma campanha abaixo do esperado, com resultados desastrosos. Não podemos esquecer que o time não conseguiu terminar em primeiro no seu grupo na Copa dos Campeões, está fora da briga do título inglês e, com o brasileiro no comando, o time londrino não conseguiu bater seus principais rivais britânicos: Arsenal, Liverpool e Manchester United.
Os clássicos são as principais atrações dos Campeonatos Estaduais. Por isso, é inexplicável que na mesma rodada, a Federação Paulista marque dois jogos tradicionais (Corinthians enfrentando a Portuguesa e Palmeiras contra o Santos) como aconteceu no último final de semana. Se duas partidas importantes não fossem marcadas na mesma rodada, teria sido evitario todo o problema que aconteceu no Pacaembu no sábado. Sem um clássico no outro dia, Portuguesa e Corinthians poderiam acabar o jogo o domingo, sem nenhum risco para o físico dos atletas e de todos os torcedores, que compraram seus ingressos e conseguiriam assistir aos 90 minutos do jogo.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |
