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Futebol na Rede

03/03/2009

Não cabem comparações

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HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Sei que todos os torcedores de futebol são saudosistas. Adoram discutir sobre os fatos do passado, ídolos e lances. Adoro e acho saudável reviver os grandes momentos da história do futebol. O que eu não concordo são comparações de times e atletas de épocas diferentes.

O andamento da partida mudou muito nos últimos anos, assim como a preparação física, que é totalmente diferente do que era há 20, 30 anos. Por exemplo, é impossível comparar um goleiro da década de 1940 com os de hoje. Naquela época os arqueiros não tinham preparação especial, atuavam sem luva de proteção e, principalmente, não tinham a altura que os goleiros atuais têm.

Parece que é só faltar assunto para começarem as comparações. Com o início arrasador do Palmeiras na temporada, não faltaram aqueles que procuraram semelhanças com o time que conquistou o Campeonato Paulista de 1996, com o ataque que passou de 100 gols. Tudo bem que se pode comparar a média de gols, o aproveitamento de pontos, mas daí para achar semelhanças na forma de jogar e na comparação entre jogadores vai uma grande diferença.

Em tempo: se o time de 1996 não tivesse existido, as comparações seriam com o time bicampeão paulista e brasileiro de 1993/94 ou com a segunda academia do início dos anos 1970.

Primeiro que o time da década passada jogava num 4-4-2 e o time atual joga no 3-5-2. Há treze anos Vanderlei Luxemburgo não pensava em montar um time com três defensores. Aquele time também tinha dois volantes clássicos de marcação --Galeano, Amaral e Flávio Conceição ocupavam as duas vagas. Agora o time conta só com Pierre na cabeça da área e, teoricamente --apesar de que em muitos momentos Edmílson se transforma em jogador de meio-de-campo--, o outro volante é Cleiton Xavier, que toda hora chega no ataque. O time do passado também tinha um armador clássico, Djalminha, que ditava o ritmo de jogo, o que o time atual não tem --inclusive a equipe de 2009 joga com muito mais rapidez que a de 1996.

Se falarmos do trio ofensivo, mais diferença. A maior semelhança pode ser feita com Rivaldo e Diego Souza. Pois ambos são meias que carregam a bola e tentam finalizar, mas o pernambucano chegava mais na área, pois não tinha as mesmas obrigações defensivas que Diego Souza tem hoje.

Também não se pode dizer que o Palmeiras atual tenha uma dupla de ataque. Willians é muito mais um meia que atacante. Já o time de 1996 tinha dois atacantes mais enfiados: Muller, pela esquerda, e Luizão jogando enfiado entre os zagueiros centrais. Hoje Keirrison se movimenta muito mais que o ex-centroavante do Guarani.

Aliás, falando do jovem atacante palmeirense, já começaram as comparações entre ele e Evair. A única semelhança é que ambos são artilheiros. Mas o estilo de jogo é totalmente diferente. Keirrison é muito mais rápido que Evair. Já o antigo centroavante era mais técnico --jogava muitas vezes de meia e dava passes precisos para seus companheiros.

Agora, enquanto se discute a demora dos reforços do São Paulo a se adaptarem ao time, logo já começam as comparações com o tempo que jogadores como Dario Pereira e Careca demoraram a se tornar ídolos do time. Mas as circunstâncias são totalmente diferentes. O uruguaio veio para o clube como meia, teve muitos problemas físicos e só se firmou quando passou a jogar como zagueiro. Já Careca sofreu muito para se recuperar de uma contusão --são-paulinos mais exaltados não cansavam de pedir sua saída nos jogos para a entrada de Marcão.

No Santos, então, agora é só aparecer um jovem atacante para ser comparado com Robinho. E assim o time vai perdendo jogadores jovens, que é claro não suportam a pressão de herdar a camisa sete. Está certo que jogadores como Renatinho e Wesley não eram gênios, mas poderiam fazer sucesso se não fossem comparados ao atacante que agora está no Manchester City.

Nem vou falar no passado, quando qualquer revelação santista era logo comparado a Pelé.

Nunca se deve tirar o mérito de quem fez sucesso em sua época, mas a comparação não cabe, até porque o futebol que se joga hoje é praticamente outro esporte se comparado ao que era praticado até pouco tempo --pode-se se discutir a qualidade, mas isso é uma longa discussão que fica para uma próxima oportunidade.

Para o Botafogo que conquistou com toda a justiça a Taça Guanabara. O time acertou em montar um elenco dentro das suas possibilidades financeiras --hoje consegue fazer o mínimo que é pagar o salário do elenco em dia-- inclusive sendo muito feliz nas contratações. Também foi muito bom o trabalho do técnico Ney Franco, que em um curto espaço de tempo conseguiu remontar o time após a saída de vários jogadores no final do ano passado. O time atual ainda está longe de brigar pelo título Brasileiro, mas se continuar a se recuperar financeiramente e voltar a revelar jogadores na base, logo o clube poderá sonhar com títulos de maior expressão.

Até tento acreditar que a maioria dos membros das torcidas organizadas são pessoas que querem a paz e participam dessas associações apenas para torcerem. Mas acho que essas pessoas deveriam lutar para expulsar quem quer transformar esses grupos em facções criminosas. É só falar algo contra as torcidas, como fiz na semana passada com o texto "O Carnaval acabou, mas a violência não", para logo começarem a chegar e-mails com ameaças e xingamentos. Argumento para discussão nenhum, só tentativas de tentar ganhar as coisas no grito --método que sempre funciona com os frouxos dos nossos dirigentes e alguns políticos que adoram ter essas associações ao seu lado.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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