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17/03/2009

Flamengo em ruínas

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HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

"Meeeeengo!". Por vários anos, só a possibilidade de ouvir a torcida do Flamengo entoando seu grito de guerra no Maracanã já colocava medo nos torcedores e jogadores adversários. Com este clima, o rubro-negro parecia que subia ao gramado como se já estivesse em vantagem no marcador. Ganhar do time no grande estádio era uma proeza. Muitas equipes consideravam as vitórias contra o Flamengo no Rio de Janeiro como históricas, ou comemoravam como se fosse a conquista de um título.

Hoje não. Ninguém mais respeita o Flamengo no Maracanã. Times pequenos e sem tradição não sentem o mínimo problema em desafiar o time mais popular do país. Também pudera: o rubro-negro de hoje está muito mais perto de ser um time mediano do nosso futebol do que uma potência.

Atolado em dívidas, o clube é uma equipe sem credibilidade. Faz pouco tempo os jogadores brigavam para atuar com o manto rubro-negro. Hoje, a maioria dos profissionais não demonstra a mínima vontade de ir para Gávea e, quando vão, fazem exigências absurdas, como pagamento antecipado. Os que estão no time estão loucos para deixar a Gávea --é lógico que eles não vão declarar isto.

Até o clube não vê o momento de se livrar de alguns dos seus principais jogadores para conseguir arrumar uns poucos trocados para pagar uma parcela do que deve aos outros atletas e demais funcionários.

Os torcedores do Flamengo precisam cair na real e aceitar de vez que o time, como eu já disse, está longe de ser um timaço, como os dirigentes do clube gostam de apregoar. Não adianta ir protestar contra os atletas, gritar que eles são mercenários e que não jogam com raça. Talvez os jogadores sejam os menos culpados desta situação. Sem receber e tendo que conviver sempre com a promessa dos dirigentes de que o dinheiro vai cair na próxima segunda-feira, fica difícil se concentrar em apenas jogar futebol.

O pior é que a falta de comando se reflete em situações de crise no elenco. As brigas em rachões, declarações polêmicas e contusões misteriosas surgem porque os jogadores não confiam mais nos dirigentes e aproveitam esse vácuo no poder para fazer o que bem entenderem. Como alguém pode levar a sério uma multa nos seus vencimentos se não recebe os salários?

É lógico que o buraco que se encontra o Flamengo já vem de algum tempo. A dívida atual do clube não foi criada nos últimos anos. Ficaríamos dias discutindo quais foram os culpados pela crise --por isso nem vale a pena ficar citando nomes de dirigentes, pois eles vão passar e o clube continua. Mas não posso eximir ninguém de responsabilidade, pois não faltaram dirigentes que assumiram o clube nos últimos anos e não o tiraram do buraco --pelo contrário, afundaram mais o time.

Talvez o grande erro do Flamengo tenha começado em meados da década de 1990, quando o clube praticamente abandonou as categorias de base para começar a investir em contratações milionárias. O time preferiu jogar várias revelações fora para montar o famoso ataque dos sonhos --aquele formado por Edmundo, Romário e Sávio-- e trazer medalhões que pouco acrescentaram, como Vampeta --trocado pelas promessas Adriano e Reinaldo--, Gamarra, Juninho Paulista e Edílson. Ou seja, o Flamengo foi se apequenando, porque deixou de lado uma das suas principais características que era formar seus ídolos em casa.

Não tem jeito. Para sair da crise em que vive, o Flamengo precisa parar com planos faraônicos. O time arrecada muito dinheiro, mas o joga no lixo. Não adianta gastar por conta, esperando que projetos sem consistência tragam retorno, como as campanhas de sócio-torcedor e uma TV --nem de longe, os dirigentes conseguiram arrecadar o que se projetava. Os planos mirabolantes só fizeram o clube dilapidar o seu patrimônio.

No mínimo, o Flamengo vai precisar de três anos para se reconstruir. Isso passa por recuperar a credibilidade pagando salários e fornecedores. É preciso uma reformulação total no departamento de futebol, como no primeiro momento uma redução drástica na folha do pagamento e no número de pessoas que pensam que comandam o departamento.

Com certeza, os resultados vão demorar um pouco para aparecer, a torcida vai sofrer, mas com a esperança de que o clube consiga montar um time forte, com jogadores jovens e que tenham identificação. Assim o Flamengo vai voltar a brigar por campeonatos e não ser apenas um participante dos principais campeonatos.

O Flamengo precisa rapidamente dar um passo para trás, pois se continuar da maneira que está, o próximo movimento será a falência do clube.

Até a próxima

Esquenta a briga pela classificação para as semifinais do Campeonato Paulista. O Palmeiras está com sua classificação praticamente garantida. Já as outras três vagas serão disputadas por cinco times. O Corinthians, motivado pela estreia de Ronaldo, ficará em situação difícil se perder para o Santos no próximo domingo. Já o São Paulo tem os jogos da Libertadores para atrapalhar. O time santista, que está em quarto agora, tem a pior sequência e vai precisar ganhar de concorrentes diretos, como o já citado Corinthians, Portuguesa e Santo André. A Portuguesa tem alguns jogos fáceis pela frente, mas tem que jogar com o Santos na Vila. Já o Santo André mostra força em casa e pode ser a surpresa nas semifinais.

Já virou rotina. É só ter um jogo de grande apelo e já começam os problemas. Para o clássico Corinthians e Santos não foi diferente. Filas intermináveis, confusão e alguns privilegiados que conseguem ingressos com uma facilidade incrível. Sem dizer o "equívoco" da diretoria corintiana, mandante do jogo, que tentou cobrar ingresso mais caro dos santistas. Como eu já disse, não adianta termos leis muito bem elaboradas, mas que não são cumpridas. Infelizmente não são apenas as carterinhas que farão com que os torcedores tenham segurança e conforto quando quiserem ir aos estádios.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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