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Futebol na Rede

31/03/2009

Clássicos monótonos

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HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Confesso que está sendo difícil assistir e ficar satisfeito com os últimos clássicos que acompanhei. Cria-se uma expectativa enorme, se imagina que teremos grande partidas, mas quando a bola rola temos poucos momentos que chegam a empolgar.

São poucas as emoções e diminutas as chances de gol. Assistimos a um festival de faltas e times que mais se preocupam em marcar o adversário do que em tentar criar alguma coisa.

Não me venham falar que esse é o futebol moderno.

Tudo bem, não há mais espaço para que os times só pensem em atacar de qualquer maneira, sem nenhuma preocupação defensiva, mas está na hora de os técnicos acabarem com a mania que está tomando conta do nosso futebol, que é jogar cada vez mais no chamado "erro do adversário".

Só que os times são armados tão cuidadosamente pelos treinadores que não se cria situações para que o adversário cometa erros. Se você não atacar o adversário, vai ser difícil que ele facilite as coisas para seu time.

Está certo que é necessário manter a posse de bola, mas o que me cansa ver são toques curtos sem o mínimo de objetividade. Perde-se a conta de quantas vezes um time troca passes sem que a equipe consiga avançar --isso mesmo quando o outro time nem adianta suas peças para marcar. Nenhum time mais faz viradas de jogo para tentar pegar o lado contrário do adversário desguarnecido.

Isto acontece porque os times têm tanto medo de ceder um contra-ataque que os treinadores preferem ver seus jogadores fazendo o autêntico papel das antigas enceradeiras, ou seja, ficar rodando, sem sair do lugar.

O pior é ouvir alguém dizendo que isto é certo, pois é necessário esperar o momento certo para dar o bote no adversário.

Só falta lembrar a estes arautos do futebol que o rival já sabe que este toque de bola não vai levar a nada, já que um volante ou zagueiro, em algum momento, vai chutar a bola para lateral ou vai tentar um lançamento totalmente sem sentido. Então pergunto: qual o motivo para ter "paciência" e ficar tocando a bola na defesa se é para entregá-la de presente ao adversário? Não seria mais fácil tentar agredir e sair para o jogo?

Ninguém ousa mais. Os técnicos adoram fazer mistério para divulgarem as escalações, mas não precisa ser nenhum gênio para saber que eles sempre vão optar pela opção mais defensiva possível. Neste cenário de covardia só vejo explicações dos treinadores que justificam a escalação de determinado atleta que entrou apenas para acabar com uma jogada forte do adversário.

É difícil um treinador escalar algum jogador ofensivo para explorar um defeito de um adversário. Fico nervoso em observar como se sacrifica um atleta para acabar com os avanços do lateral do time adversário, mas nenhum treinador pensa em explorar a avenida que o adversário deixa e que pode ser explorada.

Aliás, está cada vez mais difícil encontrar um treinador que consiga fazer um time furar a defesa do adversário. Não se vê mais um time utilizar o trabalho do técnico em jogadas de ultrapassagem, ou apostar num atleta que aparece como elemento surpresa no ataque, por exemplo. Agora os treinadores gostam de preparar seus atletas para as jogadas de bola parada --tanto no ataque, quanto na defesa.

Fico com a nítida impressão que em alguns anos teremos gols em clássicos que vão surgir apenas em jogadas de bolas paradas, ou em cruzamentos longos para a área.

O pior é que essa cultura do medo está acabando com a capacidade de improvisação que nossos jogadores sempre tiveram. Hoje o atleta prefere dar um toque para trás ou de lado, do que tentar um passe mais difícil ou tentar um drible, já que se ele perder a bola o adversário vai levar o treinador ao desespero.

O futebol só ganhou a paixão de todos por ser um esporte vibrante e imprevisível. Uma pena que nossos treinadores, principalmente nos jogos mais aguardados, estão tornando as partidas monótonas e sem nenhuma surpresa.

Até a próxima.

Está certo que nosso calendário é apertado, mas já que não tem jeito de se parar os Estaduais durante as eliminatórias, seria bem razoável não se marcar clássicos quando o time de Dunga entrar em campo. Tanto a seleção quanto os jogos tradicionais ficam esvaziados. As partidas de rivalidade precisam ser transferidas para o sábado, enquanto o noticiário da seleção e sua preparação sofrem uma concorrência desnecessária com a rivalidade regional.

Absurdo o regulamento do Campeonato Paranaense, que de tão mal redigido fez com que o Atlético-PR jogasse as sete partidas da fase final em casa. O certo no caso seria que já estivesse determinada a tabela na fase final no regulamento do torneio, com os jogos e os locais já estipulados conforme a colocação na fase inicial. Aqui a culpa não é só dos dirigentes, pois o regulamento já foi publicado há um bom tempo e ninguém se deu conta do absurdo que se transformou a fase decisiva do Paranaense.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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