Colunas

Futebol na Rede

14/04/2009

O perigo das semifinais

Publicidade

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Estamos em uma fase de decisão nos campeonatos estaduais. No Paulista, por exemplo, as vagas para a decisão continuam indefinidas, com Santos e Corinthians em vantagem após conseguirem vencer no primeiro jogo seus adversários Palmeiras e São Paulo, respectivamente. Mas o que é muito comum é o fato de que alguns times se dedicam tanto para esta fase que simplesmente esquecem que precisam jogar as decisões e acabam perdendo o título.

O efeito de se jogar uma grande semifinal e fracassar na decisão acontece devido a alguns fatores. Um deles é o cansaço. Um time se esforça tanto para chegar à decisão, que acaba chegando sem forças para decidir nas finais.

O desgaste físico acontece principalmente em torneios de curta duração, como no caso de uma Copa do Mundo. Na história não faltam exemplos disto.

Em 1954, por exemplo, o grande time húngaro precisou jogar uma semifinal duríssima com o Uruguai, que só foi decidida na prorrogação. Na decisão, com um time baleado, os húngaros, mesmo com um time muito superior à Alemanha, acabou perdendo o jogo final para o time alemão que tinha como uma das suas virtudes o grande preparo físico.

Em outros Mundiais, o desgaste das semifinais também minou as chances das equipes. Está certo que dificilmente a Itália venceria o Brasil na final da Copa de 1970, mas o desgaste dos italianos, que precisaram enfrentar a Alemanha na semifinal e só venceram na prorrogação, por 4 a 3, em um dos jogos mais fantásticos da história dos Mundiais, atrapalhou na final. Na decisão, faltou perna para os italianos acompanharem as jogadas de Pelé e seus companheiros.

Se no México no cansaço prejudicou os italianos, 12 anos depois, na Espanha, eles tiveram a sorte de jogar a final contra um time cansado. A Alemanha, para enfrentar a Itália na final daquele Mundial, precisou vencer a França, nos pênaltis, depois de uma recuperação fantástica na prorrogação, quando conseguiu a igualdade depois de estar perdendo por dois gols no tempo extra. Na decisão, faltou fôlego para o time alemão, e os italianos venceram e chegaram o tricampeonato com uma vitória por 3 a 1.

Outro dos motivos que levam um time a perder uma decisão depois de realizar um feito impossível nas semifinais é a acomodação. Muitas vezes, uma equipe consegue realizar uma partida tão excepcional para disputar o título que se acomoda e passa a pensar que é capaz de realizar uma grande partida sempre. Acho que o melhor exemplo desta situação é o Santos que foi vice-campeão brasileiro em 1995.

Está certo que a decisão contra o Botafogo teve vários erros de arbitragem, mas na decisão o Santos não foi nem sombra do time que uma semana antes tinha feito uma partida memorável contra o Fluminense, com uma goleada incrível, por 5 a 2, quando tinha obrigação de vencer por três gols de diferença. Incrível como o Santos chegou no auge naquela partida e simplesmente não conseguiu atingir o mesmo nível de concentração e superação que teve nas semifinais. Infelizmente o Santos daquele ano ficou pensando muito mais nas semifinais do que na decisão que lhe daria o título.

Também existem casos em que chegar à decisão é o máximo que uma equipe pensa em conseguir. O Corinthians que foi vice-campeão brasileiro de 1976 é um bom exemplo disso. Depois de eliminar o forte time do Fluminense, no jogo que ficou marcado pela invasão da torcida corintiana no Maracanã, o time paulista entrou na decisão contra o Internacional, no Beira-Rio, acovardado e sem parecer que estava decidindo o Nacional. Foi uma presa fácil para o time gaúcho, que venceu por 2 a 0, sem fazer muito esforço.

Também fracassa e fica sem a taça quase sempre aquele time que vence as chamadas "finais antecipadas". Por acreditarem que tirou do páreo o mais forte concorrente, pensam que só vão entrar em campo para cumprirem a obrigação de jogar e dar a volta olímpica.

Exemplos? Não faltam. O Brasil que venceu a Holanda na semifinal na Copa de 1998 passou vexame ao ser derrotado pelos franceses na decisão, por 3 a 0, sem a mínima chance para o favorito, que era o campeão antecipado. Outra boa lembrança é o Palmeiras que conseguiu perder o título do Campeonato Paulista para Inter de Limeira, após eliminar o seu grande rival, o Corinthians, nas semifinais.

Não se chega à decisão sem passar pelas semifinais, mas para se vencer campeonatos é mais do que necessário ganhar a final.

Até a próxima.

Para a justa e excelente vitória do Corinthians sobre o São Paulo, no último domingo. O gol de Cristian, no final do jogo, coroou a melhor atuação do time corintiano durante toda a partida. Méritos para o técnico Mano Menezes, que escalou uma formação ofensiva, com três atacantes complicando muito o sólido sistema defensivo do São Paulo. O treinador também liberou seus dois volantes, Elias e Cristian, para jogarem, tanto que os gols do time foram feitos por ele.

Mais uma vez, Cuca consegue levar um time para uma decisão. Que não se cobre e não jogue o peso de uma eventual derrota do Flamengo na decisão da Taça Rio nas costas do treinador. Pode se questionar se Cuca é ou não um bom treinador, mas ele não tem medo de ousar e fazer alguma coisa diferente. Aliás, não faltam no nosso futebol exemplos de treinadores que foram taxados de perdedores, mas que logo se tornaram técnicos vencedores.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca