Colunas

Futebol na Rede

12/05/2009

Damos muito valor aos pernas-de-pau

Publicidade

HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

Fico impressionado como no Brasil, nos últimos anos, passamos a valorizar os jogadores de má qualidade técnica. Alguns são altamente rigorosos com os nossos craques, cobrados demasiadamente, exigindo que eles decidam uma partida em cada lance. Quando os bons jogadores têm uma atuação ruim logo são taxados de preguiçosos, que só jogam bem quando querem, ou, o que é pior, de mercenários. Por outro lado, eles têm veneração por alguns pernas-de-pau e jogadores que entram em campo apenas para bater ou destruir jogadas.

Eu não sei de onde surgiu essa falsa regra que só jogador ruim é que tem raça e vontade. Correr, todos os jogadores correm, mas os pernas-de-pau precisam suar mais a camisa porque se esforçam para tomar a bola e, quando conseguem, ao tentar dar um passe, entregam a posse de bola para o adversário e vão ter que correr de novo para tentar pegar a bola.

Não concordo com aqueles que adoram vibrar com um bico desnecessário para a linha lateral. O pior é que depois de quase furar a bola, o perna-de-pau ainda urra e vibra como se tivesse marcado o gol --e os torcedores deliram na mesma sintonia.

Alguns jogadores medíocres se tornam autênticos xodós de suas torcidas e técnicos. Dirigentes são obrigados, até contra a vontade, a manterem atletas ruins na suas equipes apenas para não criarem atrito com seus torcedores.

Dentro dessa veneração aos pernas-de-pau, poucos percebem as besteiras que esse tipo de jogador faz em campo. O pior é que essa fixação por pernas-de-pau gera algumas injustiças sem tamanho. No início da década de 1980, quando o centroavante Careca acabava de chegar no Morumbi, não foram poucos os são-paulinos que pediam, nos jogos, a saída do espetacular centroavante para pedir a entrada do gigante Marcão. Poderia citar outros milhões de casos como esse.

Outra mentira é que os grossos é que são valentes e não se intimidam. O problema é que, muitas vezes, o jogador ruim parece acreditar e assume essa personalidade de perna-de-pau que tenta se impor no gramado dando pernadas para todos os lados.

O bom exemplo atualmente é o zagueiro Domingos, do Santos, que parece que entra em campo apenas para dar pontapé, antes de tentar desarmar os adversários jogando futebol. Os mais exaltados, que adoram um perna-de-pau, chegam ao delírio quando o zagueiro santista leva um cartão vermelho ou acerta uma entrada desleal num adversário. O pior é que Domingos, pelo porte físico que tem, teria mais sucesso se só se preocupasse em jogar futebol.

A cultura de amar os pernas-de-pau também está passando para a maneira como os torcedores gostam de ver seus times. É duro ver como eles vibram quando o seu time fica todo o jogo na retranca, tomando sufoco e ganha a partida. Tudo bem que em um jogo ou outro isso acontece, mas pedir e gostar que a sua equipe atue sempre se defendendo já passa dos limites --ainda mais quando for uma equipe de tradição.

Para os amantes dos pernas-de-pau, é sempre bom lembrar que nossos times ganham campeonatos graças aos craques.

Para quem quiser conferir pitacos diários confira no meu Twitter

Foi promissor o início do Campeonato Brasileiro. Tivemos algumas partidas bem disputadas e movimentadas. Poderia ser bem melhor se nada menos que 11 equipes --cinco na Libertadores e seis na Copa do Brasil-- jogassem a primeira rodada sem ter que se preocupar com os jogos decisivos do meio da semana. Uma pena, também, que os clubes ainda comecem o torneio sem seus elencos completos --eles ainda terão muitas alterações durante o campeonato.

Já percebo muitas críticas ao jovem Neymar, dos Santos. Está certo que suas atuações foram ruins, mas elas têm justificativas. É normal que depois de despontar de maneira rápida os adversários comecem a marcar o jogador com mais rigor, e que ele não encontre mais facilidade para jogar. Agora é preciso ter paciência com o jogador, que ainda está em formação, para que logo ele possa voltar ao mesmo futebol que exibia quando foi lançado no time principal do Santos.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca