Futebol na Rede
Muito mais do que os estádios
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
No próximo dia 31, a Fifa vai, finalmente, anunciar quais as cidades brasileiras que devem sediar as partidas da Copa do Mundo de 2014. Foi uma disputa cara, com direito a apresentação de projetos de arenas faraônicas e que teve vários jogos políticos, com direito a briga de bastidores e visitas relâmpagos --e animadas-- dos delegados da Fifa.
Para fazer uma matéria sobre todos os estádios do Campeonato Brasileiro da Série A, fiz um roteiro passando por 12 cidades e 18 estádios durante uma turnê de 15 dias. A primeira conclusão que cheguei é que, para a Copa do Mundo de 2014, não temos nenhum, repito, nenhum, estádio em condições de receber uma partida de Mundial aqui no Brasil.
O que mais se aproxima do ideal é a Arena da Baixada, do Atlético-PR, que vai se tornar um campo com nível de Copa do Mundo quando for finalizada --as obras estão em curso--, e resolver o problema crônico de seu gramado, que ocorre devido à cobertura do estádio. Outros campos modernos como o Engenhão, no Rio de Janeiro, e a Arena Barueri, em Barueri, também contam com excelentes instalações, mas não serão utilizados em 2014.
É bom que se diga que os clubes, pelo menos, da Série A, estão tendo um cuidado maior com seus estádios. Bem ou mal, os estádios têm gramados melhores que tinham há 10 ou 15 anos, e foram criados alguns setores especiais que de certa maneira dão mais conforto ao torcedor. Mas ainda estamos muito longe do ideal.
O que esquecemos é que nossos estádios são velhos --tirando os três que já citei acima-- e, por isso, por mais reforma que se faça, nunca ficarão perto do ideal. Não existem saídas que facilitam o acesso ou a entrada dos torcedores nas arquibancadas, os banheiros são sujos e não são em número suficiente e o espaço para imprensa praticamente não existe, o que provoca mais improvisações.
Os vestiários também são um problema. Se os times da casa contam com lugares arrumados e até certo ponto confortáveis, o que se oferece aos visitantes não apresenta o mesmo padrão.
Tudo bem que para a Copa de 2014 novos estádios serão construídos ou grandes reformas nos atuais estádios serão feitas. Mas se deve tomar um cuidado básico, que, por exemplo, não foi tomado no Engenhão, que é a facilidade de circulação dos torcedores em volta do estádio. No belo estádio carioca, o entorno do campo é formado por ruas estreitas que não dão vazão ao trânsito de um jogo de grande porte. Essa localização também deve ser cuidadosa para que o estádio depois da Copa não se transforme num gigantesco elefante branco e fique abandonado.
Como no projeto das cidades candidatas está o projeto de reformas de alguns estádios, que quando foram construídos ficavam em áreas despovoadas e hoje são cercados de construções, é preciso fazer um grande plano para acomodar os torcedores que chegam --principalmente transporte e estacionamento. Aliás, falando em transporte, ele é ruim e chega a ser precário nas cidades-candidatas.
Diferentemente dos delegados da Fifa que visitaram as cidades a bordo de helicópteros, ou viajaram de jatinhos particulares, quando se visita realmente as cidades é que se conhece os problemas que devem ser corrigidos imediatamente nos serviços que são oferecidos em uma Copa do Mundo.
O problema do caos aéreo diminuiu muito no Brasil, mas todos os serviços em aeroportos brasileiros deixam muito a desejar, como a má distribuição dos voos. Não entendo, por exemplo, como para ir de Belo Horizonte para Goiânia precisa se fazer uma conexão em São Paulo, passando por problemas simples, como não se ter o que comer após determinada hora, mesmo com voos confirmados. O serviço de check in em alguns aeroportos é tão ruim que eles praticamente param para a troca de turno dos funcionários.
Com certeza, com as distâncias entre as cidades e os problemas de voo, seria prudente que a Fifa mudasse a logística que utilizou nas últimas Copas, quando os grupos não tiveram mais de uma cidade como sede e outra como sub-sede. Fazer as seleções viajarem muito durante o Mundial de 2014 causará um problema grande para as delegações.
A locação de carros também pode ser outro transtorno. Mesmo com reserva, cheguei a esperar quase 50 minutos, do momento que começou o atendimento até sair com o carro. Fora os problemas do atendente não saber me explicar como funcionava o GPS. Seria até engraçado se não fosse de madrugada --e eu não estava em uma grande cidade.
Na devolução do carro, mais problemas. No local determinado só encontrei um bilhete dizendo um "já volto". Depois da espera de 20 minutos, o atendente chegou e demorou quase o mesmo tempo para a liberação total.
Do que adianta termos belas arenas se quem presta serviço ainda não sabe trabalhar com um cartão. É nítida a dificuldade dos atendentes em trabalhar com esse tipo de pagamento. Para você comprovar isso é só você ver como aumentaram os tempos de espera e de fila das grandes redes de fast food. O atendimento em hotéis, táxis, restaurantes e o serviço de atendimento ao turista nas cidades são muito ruins.
Eu sei que quem leu esse texto e já esteve em grandes eventos deve estar falando: houve problemas na Olimpíada de Pequim, existiram estádios sem condições no Mundial de 1998, na França, e na Alemanha, em 2006, precisava se caminhar muito para chegar aos campos. Depois da Copa da África do Sul no próximo ano, as cobranças para 2014 serão menores.
Não concordo com isso. Temos que parar com essa mania nacional que se espalha por todas as atividades que não é necessário fazer o melhor, mas apenas o "menos pior" já é o suficiente.
Hoje seria impossível fazer uma Copa no Brasil sem problemas. Temos quatro anos para fazer isso, mas creio que o tempo não será necessário, pois como, já disse, se organizar um Mundial é muito mais que construir belas e superfaturadas arenas.
Até a próxima.
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Para quem quiser conferir uma parte da minha visita aos estádios confira aqui (http://revistamonet.com.br/coluna/category/campeonato-brasileiro/)
Para Internacional e Vitória, que foram as duas únicas equipes que conseguiram duas vitórias nas rodadas iniciais do Campeonato Brasileiro. Apesar de estar no início, os gaúchos conseguiram duas importantes vitórias, contra Corinthians e Palmeiras, concorrentes diretos na briga pelo título do torneio. Já o Vitória, com os dois triunfos iniciais, se credencia a repetir a boa campanha que fez no ano passado.
Se a primeira rodada do Campeonato Brasileiro foi movimentada, com algumas partidas que foram agradáveis de assistir, a segunda rodada foi ruim. Parece que a competição só vai valer realmente quando os times não estiverem envolvidos com a Copa do Brasil ou a Libertadores. Um grande erro para quem pensa assim, pois os pontos que alguns times estão perdendo agora não vão ser nada fáceis de recuperar.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |
