Futebol na Rede
Vencer para sobreviver
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Nunca acreditei nas palavras de dirigentes e técnicos que adoram vir a público fazendo lindos discursos sobre planejamento e trabalhos cujos resultados podem demorar alguns anos para vingar. No futebol, isso não existe, principalmente para treinadores.
O que faz uma pessoa ser competente, ou não, é o resultado da última partida. Sem exceção, os dirigentes --e porque não os torcedores-- após um revés parecem esquecer todo o trabalho de uma pessoa, por mais que ela tenha vencido tudo. Esse imediatismo que transforma vencedores em perdedores em apenas um jogo também serve para transformar em gênios alguns que eram recentemente criticados.
"Só estou aqui porque ganho", a frase dita várias vezes por Muricy Ramalho na sua passagem vitoriosa pelo São Paulo reflete bem essa situação. Uma vitória que não veio e o treinador perdeu o emprego.
Podem falar que o ciclo de Muricy Ramalho teria acabado no São Paulo --o que eu não concordo--, mas em apenas dois dias, logo após a eliminação no jogo contra o Cruzeiro até a sua demissão, parece que todos os problemas do treinador apareceram. Parecia que Muricy não havia ganhado três títulos brasileiros seguidos comandando o São Paulo, e sim que ele tinha assumido o time há poucos meses e o levado à Série B.
Aliás, muitos parecem pensar que o sucesso de Muricy Ramalho só aconteceu por causa do São Paulo e de sua estrutura. Isso não é verdade. Parece que muitos se esquecem que antes de voltar ao Morumbi, o técnico praticamente reconstruiu o Náutico e o Internacional e foi campeão paulista com o São Caetano.
Não concordo com a afirmação de que o treinador não sabe jogar campeonatos "mata-mata", principalmente na Taça Libertadores. As seguidas eliminações no torneio intercontinental não foram para times piores do que o São Paulo. Em nenhuma delas o time perdeu para equipes sem expressão ou era apontado como franco favorito.
Perdeu o título para o Internacional? Mas poucos se lembram que logo depois os gaúchos, com um time mais fraco do que o que enfrentou o São Paulo, foi campeão Mundial batendo o Barcelona na final. Ser eliminado por Grêmio e Fluminense, que chegaram às finais, e agora para o Cruzeiro não tira a competência do treinador.
De repente, só se falava dos defeitos de Muricy, que até pouco tempo eram apontados como grandes virtudes. A eficiência do time tão aclamada na conquista do tricampeonato brasileiro se transformou em crítica que o São Paulo só tinha uma jogada, os cruzamentos aéreos.
As mudanças táticas e as escalações promovidas pelo técnico de uma partida para outra --ou até dentro do jogo--, que eram apontadas como o grande trunfo do treinador para surpreender os adversários, nos últimos dias se transformaram em críticas. Isso sem falar na falta de lançamentos de jovens e na má vontade do treinador em escalar os reforços contratados.
Concordo que o São Paulo não conseguiu jogar grandes partidas em 2009. Mas não se pode esquecer que, na temporada, Muricy teve vários problemas que não havia enfrentado nos seus anos anteriores. Ele perdeu, por exemplo, Rogério Ceni, que o próprio treinador considerava o único craque do time, uma referência para os outros jogadores. Os problemas de contusão começaram acontecer com uma frequência maior que o normal no clube.
Também não se pode esquecer que dois jogadores importantes no esquema de Muricy caíram muito de produção. Jorge Wagner e Hernanes não conseguiram apresentar uma pequena parte do futebol que mostraram no ano passado. Sem dizer que, apesar de ter contratado jogadores, o São Paulo não conseguiu achar substitutos para atletas importantes como Leandro e Souza.
A diretoria que demitiu Muricy Ramalho também não deu o suporte que já tinha dado ao treinador em outras oportunidades. Casos, como as reclamações de jogadores insatisfeitos por não serem escalados, eram resolvidos internamente. Se vazassem, os atletas não eram defendidos pela diretoria.
Com certeza o São Paulo vai sentir muito mais falta de Muricy Ramalho do que o contrário.
Até a próxima.
Para quem quiser conferir pitacos diários confira no meu Twitter
Convincentes as últimas partidas da seleção brasileira, tanto nas eliminatórias quanto na Copa das Confederações. Mas daí dizer que o time para a Copa do Mundo já está pronto e que Dunga já é um treinador completo vai uma grande diferença. Continuo achando que conseguimos jogar bem quando temos a oportunidade de jogar usando o contra-ataque. Com a velocidade de Maicon, Ramires --que finalmente o treinador colocou no time--, Kaká, Robinho e Luís Fabiano fica muito difícil parar a seleção. Agora, com um time mais bem fechado --coisa que eu esperava da Itália e ela não fez-- as coisas podem se complicar. Vejo que Dunga ainda não arranjou uma saída para isso.
Ainda está no começo, foram apenas sete rodadas, mas a disputa pelo acesso na Série B parece que nesse ano vai ser emocionante. Com um começo espetacular, o Guarani parece que vai ter fôlego para lutar até o final por uma das vagas, principalmente após a vitória sobre a Ponte Preta. O Brasiliense também começou muito bem. Depois, a classificação fica totalmente embolada, pois a diferença do terceiro colocado, o Atlético-GO, até o 13º, o Vila Nova é de apenas três pontos. Apontados como favoritos, antes do início do torneio, Portuguesa e Vasco ainda não embalaram no torneio e têm perdido pontos importantes.
![]() |
Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |
