Futebol na Rede
3-5-2 como (mau) legado
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
Considero uma excelente coluna, quando a lemos e ficamos um bom tempo pensando sobre o que foi dito. Foi o que aconteceu com o texto do Eduardo Vieira da Costa, na sua última Regra 10, que está aqui na Folha Online. Depois de ler o texto do Edu em que ele fala sobre a implantação do 3-5-2 no Brasil pelo técnico Sebastião Lazaroni, fiquei o último final de semana pensando sobre o esquema --tanto que peço licença para usar quase o mesmo título que ele.
Falando no esquema, ao meu ver, os defensivistas técnicos brasileiros nunca usaram o 3-5-2, mas sim o 5-3-2. Considero que as únicas tentativas corretas de armar um time nesse esquema que entrou na moda graças à seleção da Dinamarca em 1986 foram o Mogi Mirim, comandado por Oswaldo Álvares, no início da década de 1990, e o Grêmio, treinado por Tite, que conquistou a Copa do Brasil em 2001.
Vocês devem estar se perguntando qual a razão para eu citar apenas esses dois times. Simples: eles tinham a presença de líberos, que são fundamentais para que o esquema não se transforme no 5-3-2. Para os nossos treinadores imitadores, o líbero é apenas o jogador de espera, o último zagueiro --isso quando os três beques não jogam em linha--, que fica apenas confinado na defesa. Para que o sistema funcione é fundamental que um dos zagueiros tenha a capacidade de articular ataques, finalizar e aparecer como elemento surpresa.
Isso acontecia com o Mogi Mirim, que tinha Capone na função. Ele sabia sair jogando. Já o Grêmio tinha um sistema um pouco diferente. Com o veterano Mauro Galvão não tendo mais fôlego para ir ao ataque e voltar para a defesa o jogo todo, Tite liberava os dois outros zagueiros --Marinho se transformava em meia-direita e Roger em meia-esquerda quando o time tinha a posse de bola.
Outro ponto que os técnicos nunca souberam é que para evitar o 5-3-2 os alas não têm --nem podem ter-- a função dos laterais tradicionais, mas de meio-campistas. Com os alas atuando na mesma linha dos três zagueiros, o time fica fragilizado no meio-campo --três jogadores contra quatro ou cinco adversários-- e encontra sérias dificuldades de retomar a bola ou, o que é pior, não consegue atacar com mais de cinco jogadores. Para piorar, os treinadores adoram escalar dois ou três volantes na sua equipe.
Muitos argumentam que o Brasil foi campeão do Mundo em 2002 com o esquema, assim como o São Paulo foi tricampeão Brasileiro dessa forma. Bom, acho que não foi assim.
Na conquista do penta, Luiz Felipe Scolari utilizava Edmílson muito mais como um volante do que como um zagueiro. Por isso o jogador que atualmente está no Palmeiras ganhou a posição de Anderson Polga, que é um zagueiro, nos últimos dias antes do Mundial. Se você se lembrar, o Brasil levou sufoco em todos os momentos em que Edmilson atuava como zagueiro, mas quando ele avançava para formar um trio de volantes com Gilberto Silva e Kleberson o nosso time ficava muito mais consistente.
O São Paulo também tinha --e tem-- em sua escalação três zagueiros, mas em quase todas as partidas, se reparar bem, o time se defende com uma linha de quatro defensores. Por exemplo, quando o time tinha o jovem Breno, em muitos lances ele era um zagueiro pela direita. O mesmo acontecia com Zé Luís e agora com Jean. Talvez por isso, apesar de contratar vários laterais, nenhum jogador se adaptou à posição.
Para não voltarmos tanto ao passado, não faz muito tempo Muricy tentou fazer isso no Palmeiras. Ele escalou três zagueiros --Maurício Ramos, Danilo e Marcão-- mas em nenhum momento o time atuou no 3-5-2, já que a linha defensiva do time era composta por quatro zagueiros, já que era completada com Wendel, pelo lado direito.
Chego à conclusão de que o esquema fez muito mal para a história do nosso futebol, principalmente porque acabou com jogadores em posições chaves, e, vinte anos depois de sua introdução, começamos a sentir esses efeitos ruins.
Por exemplo, graças ao uso excessivo do 3-5-2 não temos mais armadores no nosso futebol. Como os técnicos esperavam que os alas fossem os criadores das jogadas, a função dos homens de meio ficou restrita a marcar ou no máximo correr com a bola.
Por isso a seleção de Lazaroni triunfou na Copa América de 1989 e fracassou um ano depois na Copa do Mundo. O sistema de jogo do time só funcionava quando os alas tinham espaço para avançar. No torneio intercontinental eles tinham todo o espaço e, por isso, nossos gols aconteciam pelo lado do campo. Já na Copa os adversários não davam espaço para os laterais e o time não funcionou porque nem Dunga nem Alemão conseguiam criar jogadas e Valdo era um carregador de bola.
Outra posição que o nefasto 3-5-2 fez rarear foi a de laterais. Por exemplo: hoje pagamos o preço de não termos um lateral-esquerdo de nível. Tirando Maicon e Daniel Alves, não temos também jogadores de nível no lado direito. Os laterais agora só sabem atacar, funcionam como os antigos pontas de velocidade e se transformam em autênticas avenidas quando estão na marcação.
O esquema 3-5-2, que praticamente já morreu no resto do planeta, só funcionou com a Dinamarca e a geração excepcional que o país tinha em meados da década de 1980. O mesmo com o Carrossel Holandês, que só teve sucesso em 1974. Quem tentou imitar esses esquemas acabou copiando muito mal.
Até a próxima.
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Para o clássico entre São Paulo e Palmeiras. Além de poder definir o destino das duas equipes no torneio, quem vencer vai embalar na disputa pelo título. O clássico tem o ingrediente de ter Muricy Ramalho, agora no Palmeiras, enfrentando o time que ele montou. Está certo que Ricardo Gomes mudou o estilo de a equipe jogar. O novo treinador fez o São Paulo jogar mais com a bola no chão. Mas, principalmente na parte defensiva, o time é bem semelhante ao de Muricy. Resta saber como o treinador, agora no Palmeiras, vai conseguir neutralizar a equipe adversária e como armará o seu time para furar a defesa são-paulina. Lembrando que nos tempos de Muricy como treinador do São Paulo o Palmeiras levou desvantagem no confronto contra seu rival, principalmente atuando no Morumbi.
A grande campanha do Vasco, que terminou como melhor time da Série B no primeiro turno. O time tem uma defesa muito forte, que dificilmente toma gols, e o ataque, principalmente nos últimos jogos, parece que finalmente voltou a funcionar. O meia Carlos Alberto, jogando mais livre e com mais maturidade, finalmente assumiu a condição de líder da equipe. Com o bom trabalho de Dorival Júnior fica possível dizer que o Vasco não terá mais dificuldades em conseguir uma das vagas para a Série A no próximo ano. Se por um lado o Vasco vai bem, não poderia citar a decepcionante campanha da Portuguesa até agora. Com o elenco que tem, esperava que o time do Canindé estivesse mais tranquilo na competição, mas o time se encontra em uma posição delicada, com sério risco de não conseguir o acesso.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |
