Futebol na Rede
No futebol, pensar ainda é preciso
HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online
É incontestável. Hoje o futebol é jogado com muito mais rapidez do que há 20 ou 30 anos. O jogo tem muito mais contato, pois os atletas têm uma condição física espetacular e se movimentam o tempo todo para fugir da marcação do adversário. Mas se agora as partidas têm uma intensidade muito grande, falta um pouco na parte técnica, do toque mais refinado.
Por isso, com as partidas ficando cada vez mais rápidas, aos poucos foram sumindo os armadores do nosso futebol. Hoje, por exemplo, os jogadores que atuam no meio-de-campo são volantes que correm muito para marcar, ou carregadores de bola, aqueles que partem para cima dos adversários tentando uma sequência de dribles.
Temos a mania de confundir esses carregadores de bola como armadores. Em várias oportunidades são eles que dão um passe importante para um gol. Vamos a um exemplo prático. Kaká, hoje no Real Madrid, está muito longe de ser um armador. Apesar de ser um grande jogador, é difícil ver o craque mudando o ritmo da partida, acalmando a equipe, ou, o que é a característica de um armador clássico, estando sempre livre para receber a bola para servir de opção para um zagueiro ou volante que tenha dificuldade para sair jogando.
Também é fundamental que um bom armador tenha um excelente aproveitamento de passes. E quando falo isso, não é apenas nos toques curtos, mas principalmente nos longos.
Um grande armador precisa também ser frio. Alguns mais afoitos adoram dizer que os armadores são lentos e tiram a velocidade da equipe. O que é uma grande besteira, pois com apenas volantes e carregadores de bola no meio um time, sem um jogador que segure a bola, corre muitos riscos. Do que adianta um volante correr para tomar a bola se no lance seguinte ele vai dar passe errado e vai ter que correr atrás dos adversários de novo.
O mesmo ocorre com os carregadores de bola. Não é sempre que eles conseguem fazer a jogada individual. Quando perdem a posse de bola, a equipe, invariavelmente, fica exposta a tomar um contra-ataque.
A seleção brasileira, por exemplo, mesmo com os últimos grandes resultados, não tem um grande armador. Basicamente o time de Dunga conta com uma linha de três volantes formada por Gilberto Silva, Elano --Ramires ou agora Daniel Alves-- e Felipe Melo e um carregador de bola, o já citado Kaká. Por isso, continuo com a impressão de que continuaremos a ter alguma dificuldade contra equipes que atuam na defesa.
É lógico que não temos mais grandes armadores. Falar em um Ademir da Guia, para dar um exemplo de armador típico, ou em Zidane para aqueles que são mais novos e ainda têm na memória as grandes atuações do francês, é covardia com os jogadores de meia da atualidade.
Ainda encontramos bons armadores no Campeonato Brasileiro. Pena que três deles já são veteranos. No Avaí, Marquinhos comanda o time. Não tem um boa jogada de ataque que não comece em seus pés. Já Petkovic, com seus 37 anos, mostra muita classe no Flamengo. É muito bonito ver um jogador que, como ele, consegue sempre jogar com a cabeça erguida e que tem uma maneira refinada de bater na bola. Finalmente, no Atlético-PR, Paulo Baier executa com excelência a função.
Tirando os três jogadores experientes, podemos citar Cleiton Xavier, no Palmeiras, que tem um grande acerto nos passes e um alto índice de assistências, e Gilberto, que está conseguindo se sair bem no Cruzeiro.
No futebol corrido de hoje, ter alguém que consegue pensar no meio é decisivo.
Até a próxima.
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Mesmo longe da disputa do título, o bom time do Cruzeiro pode ser decisivo na disputa pela ponta do Campeonato Brasileiro. Depois de vencer o Internacional, os mineiros jogando em casa podem tirar pontos importantes do Palmeiras. Além disso, o time enfrenta equipes que ainda pretendem se aproximar da liderança ou que lutam para chegar à Taça Libertadores, como o trio formado por Corinthians, Atlético-MG e Goiás. Nesse cenário, sorte do São Paulo, que conseguiu vencer o Cruzeiro duas vezes nessa edição.
O Flamengo, que fez uma boa partida contra o Sport. Está certo que o adversário está em má fase, mas o time de Andrade fez uma partida muito boa. O treinador conseguiu que Léo Moura voltasse a jogar como lateral. Os experientes Álvaro e Maldonado acertaram a defesa, o já citado Petkovic dá o seu recado no meio, enquanto Adriano está mostrando muita vontade de voltar ao melhor de sua fase. Agora o time precisa ser mais regular, pois o histórico do Flamengo nesse Brasileiro é de muitos altos e baixos.
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Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha Online às terças-feiras. E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br |
