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Futebol na Rede

20/10/2009

Vida de torcedor: a maldição da feijoada

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HUMBERTO PERON
Colaboração para a Folha Online

No futebol não faltam torcedores supersticiosos. Quase todos têm uma mania ou ritual que acreditam piamente vão ajudar seu time chegar à vitória. Mas, de todos os fãs, não conheço algum que tenha mais manias que o meu amigo Carlos.

Palmeirense formado durante os anos em que o time amargava um enorme período sem títulos, Carlos, a cada ano que o time aumentava sua fila, foi criando uma série de superstições que iam deixando o time cada vez mais perto do título. No seu fanatismo, Carlos tem a absoluta certeza de que graças aos seus amuletos e manias o Palmeiras conseguiu ganhar o Campeonato Paulista de 1993 e acabar com os 17 longos anos sem dar uma volta olímpica.

Antes de qualquer coisa é sempre bom dizer que os rituais --se podemos chamar assim-- de Carlos não envolvem religião ou qualquer ritual de magia. "Deus tem muito mais coisas que se preocupar que uma partida de futebol", gosta de afirmar sempre.

O que ele usa são coisas simples. Como sempre usar sempre a mesma camisa surrada do Palmeiras que ele usou na final do Paulista de 1993, faz questão de ouvir a mesma música antes de sair do carro em direção ao gramado. Em jogos importantes ou finais sempre leva o ingresso da final de 1993 --sim, ele comprou dois ingressos para aquele jogo. Um ficou retido na catraca e outro está guardado. Quando está em casa também

Também procura sentar sempre no mesmo lugar, nem que isso possa custar vários minutos de convencimento se alguém estiver sentado no lugar cativo de sorte. Como ele quase sempre vai acompanhado de dois velhos amigos, em toda partida a posição deles deve ser a mesma. O pior de tudo é que para o segundo tempo eles trocam de posição.

A superstição de Carlos chega a detalhes que renderiam bons tempos de análise. Como ele fez uma viagem a Campos de Jordão, na semana que o Palmeiras acabou com o tabu, agora quase toda vez que o time está em uma decisão ele vai para a cidade serrana. Um dos seus maiores arrependimentos foi não ter ido para a cidade antes da final do Mundial Interclubes, em 1999. "Acho que seria melhor ter ido para Campos do que para Tóquio", não para de repetir a cada encontro.

A loucura por coincidências dele fez com que durante anos pedisse para que o pai providenciasse a mudança de apartamento. O motivo era simples. A família mudou para o novo prédio em 1977, ano que começou a fila palmeirense. Por sorte, o pai não deu ouvidos para a criança, que virou adolescente e depois adulto.

Pensei que o já quarentão tivesse perdido essas manias até encontrá-lo na última sexta-feira, fazendo compras num supermercado.

"Estou preocupado com o jogo do Flamengo", disse desanimado.

"Realmente, o Flamengo vive uma boa fase, o Petkovic está jogando muito", retruquei.

"Que Flamengo que nada. Para domingo eu não tenho medo deles. Eu estou preocupado com a 'Maldição da Feijoada'", comentou aflito.

"Realmente, quando um time dispara, aparece uma acomodação natural e parece que a cada partida o time comeu uma suculenta feijoada antes da partida", lá fui eu tentando entender o que Carlos disse.

"Nada disso, rapaz. Larga esse jeito irritante de comentarista. Essa maldição da feijoada tem a ver com a minha sogra. Toda vez que ela oferece esse prato na casa dela é batata, o Palmeiras perde. Não tem jeito. É só eu me fartar de feijão preto, ligar a TV e o Palmeiras entra pelo cano", comentou em desespero.

"E não deu para desmarcar?", pergunto.

"Não. Tentei de todas as formas marcar para a próxima semana, já que não tem jogo do Palmeiras no próximo final de semana. Não teve jeito. Argumentei que na casa dela não teria pay-per-view, mas a minha esposa disse que ela acabou de assinar um pacote de TV por assinatura e ganhou os jogos do Campeonato Brasileiro. Não vai dar para escapar", disse desanimado.

"Bom, talvez essa tradição acabe", tento dar uma animada nele.

"Não sei. Mas já preparei tudo para acabar com o tabu."

Além de fazer tudo que faço quando vou ao Parque Antarctica, vou fazer uma viagem para Campos de Jordão. Vai ser um bate-volta, vou cedo, dou um passeio e volto no final do dia. A minha esposa vai gostar e eu acabo com a "Maldição da Feijoada", disse confiante.

Bom, o resultado da partida, vitória do Flamengo por 2 a 0, todo mundo já sabe, mas, logo depois da partida, via telefone, ele já tinha a fórmula para o Palmeiras não perder em dias em que ele for almoçar na sogra.

"Descobri o que faltou" disse eufórico.

"Faltou criação no ataque e no meio-campo. Faltou alguém marcar o Petkovic", comentou.

"Não é isso. O que faltou para quebrar a 'Maldição da feijoada'. Faltou eu te ligar para te pedir ingressos para o jogo", comentando cada vez mais convicto que tinha feito uma descoberta que iria mudar o destino da humanidade.

"Ingressos? Já te disse mais de mil vezes que jornalista não é cambista para arranjar bilhetes em jogos importantes. É só isso?" aumentei o volume da voz para ver se ele terminava a ligação.

"Vou confessar. A ligação pedindo ingressos para você é outra mania que eu tenho. Desde a final da Libertadores de 1999 eu faço isso com você. Sei que você vai me dizer não. Aliás, sempre que eu te liguei eu já tinha as entradas", confessou.

"Carlos, eu vou ter que desligar, eu estou escrevendo um texto", tentei inventar algo para acabar com a conversa.

"Certo. Mas vou te dizer uma coisa. Os culpados da derrota não foram os jogadores e sim porque eu não acabei com a 'Maldição da Feijoada'. Por sorte, descobri rápido como acabar com isso. Não vai ser tão longo quanto os 17 anos de fila. Prepare-se que eu vou te pedir ingressos até o final do Brasileiro. É bom você atender minhas ligações pedindo ingressos, porque se o Palmeiras perder esse título, não vai haver outro culpado. Vai ser você", disse em tom sério e desligando o telefone.

Bom, tava demorando, sabia que a culpa da derrota ou de fracasso de qualquer time sempre sobra para a imprensa.

Até a próxima.

Para Flamengo e Cruzeiro, que entre os primeiros colocados do Campeonato Brasileiro vivem a melhor fase. O time mineiro parece que esqueceu o fracasso na Taça Libertadores e já tem a melhor campanha do returno. Com a boa sequência de jogos que tem pela frente, pode garantir uma vaga no principal torneio continental. Já o Flamengo mostrou força ao vencer o São Paulo e o Palmeiras jogando melhor nas duas partidas. O título ainda está distante, mas a vaga na Libertadores está nas mãos do rubro-negro.

Começou o horário de verão e a CBF não tomou nenhuma providência para mudar o início das partidas do Campeonato Brasileiro, tanto na Série A, quanto na segunda divisão. Fazer as equipes jogarem às 15h com o sol forte no Nordeste ou Goiânia, por exemplo, é expor os atletas a um desgaste desnecessário. Se o presidente da CBF diz que está mais preocupado com o torneio do que com a televisão, ele bem que poderia anunciar a mudança no horário de início das partidas já para a próxima rodada.

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Para Flamengo e Cruzeiro, que entre os primeiros colocados do Campeonato Brasileiro vivem a melhor fase. O time mineiro parece que esqueceu o fracasso na Taça Libertadores e já tem a melhor campanha do returno. Com a boa sequência de jogos que tem pela frente, pode garantir uma vaga no principal torneio continental. Já o Flamengo mostrou força ao vencer o São Paulo e o Palmeiras jogando melhor nas duas partidas. O título ainda está distante, mas a vaga na Libertadores está nas mãos do rubro-negro.

Começou o horário de verão e a CBF não tomou nenhuma providência para mudar o início das partidas do Campeonato Brasileiro, tanto na Série A, quanto na segunda divisão. Fazer as equipes jogarem às 15h com o sol forte no Nordeste ou Goiânia, por exemplo, é expor os atletas a um desgaste desnecessário. Se o presidente da CBF diz que está mais preocupado com o torneio do que com a televisão, ele bem que poderia anunciar a mudança no horário de início das partidas já para a próxima rodada.

Humberto Luiz Peron, 41, é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a
Folha Online às terças-feiras.

E-mail: futebolnarede@grupofolha.com.br

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