Noutras Palavras
28/01/2005
Colunista da Folha Online
O uso das preposições costuma ser fonte de dúvidas entre aqueles que escrevem. Muitas dessas palavras têm seu sentido apagado, isto é, seu valor semântico praticamente imperceptível para os falantes. Em construções do tipo "Gosto de você" ou "Preciso de ajuda", não se tem noção do significado específico da preposição "de".
Em outras construções, no entanto, permanecem traços semânticos capazes de evocar um significado. Numa frase como "Dirija-se a outro caixa", a preposição "a" indica direção. Essa mesma idéia está presente, por exemplo, em "Fui ao cinema", muito embora haja franca tendência ao uso da preposição "em" numa sentença como essa --talvez como forma de privilegiar a idéia de lugar contida em "cinema" em detrimento da idéia de direção presente no verbo "ir".
Lendo a seguinte declaração: "Queremos contribuir com a revitalização do centro da cidade e recuperar o prestígio de um ponto comercial que já foi o maior da América Latina", encontrará o leitor alguma imprecisão quanto ao uso das preposições? É possível que não, mas o fato é que o ideal seria que tivesse sido usada a preposição "para" no lugar de "com" ("Queremos contribuir para a revitalização do centro da cidade...").
Observe que a revitalização do centro da cidade é o objetivo, a meta ou o fim de quem contribui --daí ser recomendável o uso da preposição "para", que carrega esse valor semântico. "Contribuir com alguma coisa" é a construção adequada à expressão daquilo que é dado como contribuição. Por exemplo: "Contribuiu com dinheiro", "contribuiu com um artigo", "contribuiu com um quilo de farinha" etc.
Num período como "O técnico do São Paulo vai pedir para os atacantes iniciarem a marcação ao adversário", construção das mais comuns na imprensa, encontramos o verbo "pedir" seguido de complemento introduzido pela preposição "para". O verbo "pedir", entretanto, admite dois complementos, o objeto direto (que designa aquilo que se pede) e o objeto indireto (que designa o destinatário da ação), que, na construção acima, aparecem "fundidos".
Para "enxergar" os dois objetos, seria preciso refazer o período: "O técnico do São Paulo vai pedir aos atacantes que iniciem a marcação do adversário". Note que, agora, o elemento "aos atacantes" é o objeto indireto do verbo "pedir" (o destinatário da ação de pedir), enquanto a oração (subordinada substantiva) "que iniciem a marcação do adversário" é o objeto direto (aquilo que será pedido aos atacantes pelo técnico).
Se, na construção destacada, o verbo "pedir" aparece com um só complemento preposicionado ("para os atacantes iniciarem a marcação do adversário"), que funde os dois objetos, na reformulada, aparece com dois objetos "separados".
Essa construção não deve ser confundida, por exemplo, com a seguinte: "Pediu para sair da aula mais cedo", caso em que foi omitida a palavra "licença" ("Pediu licença para sair da aula mais cedo"), à qual está ligada a preposição "para".
Observe que o autor da frase escolhida empregou a construção "marcação ao adversário", mas o substantivo derivado de um verbo transitivo direto geralmente rege complemento iniciado por "de". Assim: marcar o adversário/ marcação do adversário; vender a casa/ venda da casa; favorecer alguém/ favorecimento de alguém; comprar o carro/ compra do carro etc.
A respeitar a chamada norma culta do idioma, também seria imperfeita a construção seguinte: "De acordo com a nova lei, hotéis, motéis, pensões, bares, restaurantes e casas noturnas serão sumariamente fechados se fizerem apologia ou incentivarem o turismo sexual". O problema agora está no uso de um só complemento ("o turismo sexual") para termos de regência diversa. Faz-se apologia de alguma coisa. Ora, os estabelecimentos serão fechados "se fizerem apologia do turismo sexual".
Para refazer o período e evitar a repetição do complemento ("o turismo sexual"), é possível empregar um pronome que retome a expressão. Assim: "...serão fechados se fizerem apologia do turismo sexual ou o incentivarem". Outra solução seria, por exemplo, "...serão fechados se fizerem apologia do turismo sexual ou incentivarem a sua prática".
O assunto continua oportunamente.
Problemas de regência apresentam sutilezas
THAÍS NICOLETI DE CAMARGOColunista da Folha Online
O uso das preposições costuma ser fonte de dúvidas entre aqueles que escrevem. Muitas dessas palavras têm seu sentido apagado, isto é, seu valor semântico praticamente imperceptível para os falantes. Em construções do tipo "Gosto de você" ou "Preciso de ajuda", não se tem noção do significado específico da preposição "de".
Em outras construções, no entanto, permanecem traços semânticos capazes de evocar um significado. Numa frase como "Dirija-se a outro caixa", a preposição "a" indica direção. Essa mesma idéia está presente, por exemplo, em "Fui ao cinema", muito embora haja franca tendência ao uso da preposição "em" numa sentença como essa --talvez como forma de privilegiar a idéia de lugar contida em "cinema" em detrimento da idéia de direção presente no verbo "ir".
Lendo a seguinte declaração: "Queremos contribuir com a revitalização do centro da cidade e recuperar o prestígio de um ponto comercial que já foi o maior da América Latina", encontrará o leitor alguma imprecisão quanto ao uso das preposições? É possível que não, mas o fato é que o ideal seria que tivesse sido usada a preposição "para" no lugar de "com" ("Queremos contribuir para a revitalização do centro da cidade...").
Observe que a revitalização do centro da cidade é o objetivo, a meta ou o fim de quem contribui --daí ser recomendável o uso da preposição "para", que carrega esse valor semântico. "Contribuir com alguma coisa" é a construção adequada à expressão daquilo que é dado como contribuição. Por exemplo: "Contribuiu com dinheiro", "contribuiu com um artigo", "contribuiu com um quilo de farinha" etc.
Num período como "O técnico do São Paulo vai pedir para os atacantes iniciarem a marcação ao adversário", construção das mais comuns na imprensa, encontramos o verbo "pedir" seguido de complemento introduzido pela preposição "para". O verbo "pedir", entretanto, admite dois complementos, o objeto direto (que designa aquilo que se pede) e o objeto indireto (que designa o destinatário da ação), que, na construção acima, aparecem "fundidos".
Para "enxergar" os dois objetos, seria preciso refazer o período: "O técnico do São Paulo vai pedir aos atacantes que iniciem a marcação do adversário". Note que, agora, o elemento "aos atacantes" é o objeto indireto do verbo "pedir" (o destinatário da ação de pedir), enquanto a oração (subordinada substantiva) "que iniciem a marcação do adversário" é o objeto direto (aquilo que será pedido aos atacantes pelo técnico).
Se, na construção destacada, o verbo "pedir" aparece com um só complemento preposicionado ("para os atacantes iniciarem a marcação do adversário"), que funde os dois objetos, na reformulada, aparece com dois objetos "separados".
Essa construção não deve ser confundida, por exemplo, com a seguinte: "Pediu para sair da aula mais cedo", caso em que foi omitida a palavra "licença" ("Pediu licença para sair da aula mais cedo"), à qual está ligada a preposição "para".
Observe que o autor da frase escolhida empregou a construção "marcação ao adversário", mas o substantivo derivado de um verbo transitivo direto geralmente rege complemento iniciado por "de". Assim: marcar o adversário/ marcação do adversário; vender a casa/ venda da casa; favorecer alguém/ favorecimento de alguém; comprar o carro/ compra do carro etc.
A respeitar a chamada norma culta do idioma, também seria imperfeita a construção seguinte: "De acordo com a nova lei, hotéis, motéis, pensões, bares, restaurantes e casas noturnas serão sumariamente fechados se fizerem apologia ou incentivarem o turismo sexual". O problema agora está no uso de um só complemento ("o turismo sexual") para termos de regência diversa. Faz-se apologia de alguma coisa. Ora, os estabelecimentos serão fechados "se fizerem apologia do turismo sexual".
Para refazer o período e evitar a repetição do complemento ("o turismo sexual"), é possível empregar um pronome que retome a expressão. Assim: "...serão fechados se fizerem apologia do turismo sexual ou o incentivarem". Outra solução seria, por exemplo, "...serão fechados se fizerem apologia do turismo sexual ou incentivarem a sua prática".
O assunto continua oportunamente.
![]() |
Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa, é autora de "Redação Linha a Linha" (Publifolha), "Uso da Vírgula"(Manole) e "Manual Graciliano Ramos de Uso do Português" (Secom-AL) e colunista do caderno "Fovest" da Folha. E-mail: mailto:thaisncamargo@uol.com.br |
