Noutras Palavras
04/02/2005
Colunista da Folha Online
Não faz muito tempo, um leitor escreveu para a Folha queixando-se do freqüente uso feito pelo jornal do que ele considera uma impropriedade lingüística, a saber, a expressão "casal gay".
O motivo da indignação se fundamenta na definição que os dicionários trazem da palavra "casal": "par composto de macho e fêmea ou de homem e mulher". Assim, duas pessoas do mesmo sexo não poderiam, em tese, constituir um casal.
Ocorre, entretanto, que duas pessoas do mesmo sexo podem conviver como um casal. E a diminuição do tabu em relação ao homossexualismo torna essa situação mais corriqueira e, sobretudo, mais visível. Assim, surge a necessidade de um termo para dar conta dessa realidade. Não é preciso pensar muito para, automaticamente, por analogia com os pares heterossexuais, considerar um casal dois homossexuais que namorem ou vivam juntos. O adjetivo "gay" exprime a particularidade desse casal.
Na falta de uma palavra específica, a língua põe à disposição dos seus usuários a possibilidade de estender o significado de uma palavra que guarde vínculo analógico com aquilo que se pretende nomear. Surge, então, uma espécie de metáfora "obrigatória", ou seja, uma palavra que nasce de um processo figurativo da linguagem, mas sem intenção poética. Esse procedimento, que é espontâneo, chama-se "catacrese", termo que significa, segundo a etimologia, "o emprego de uma palavra em sentido abusivo".
Os exemplos de catacrese são abundantes, sobretudo na linguagem informal. "Céu da boca" no lugar de "palato" ou "abóbada palatina", "maçã do rosto" no lugar de "pômulo", "relógio" no lugar de "medidor de energia elétrica" estão entre muitos outros. A catacrese pode surgir como uma imagem mais concreta ou mais sintética que o seu substitutivo. Os termos "teto" e "piso" usados para indicar valores (o mais alto e o mais baixo respectivamente) permitem a compreensão imediata e, portanto, são eficazes e se instalam na linguagem do dia-a-dia. O mesmo vale para o "casal gay".
É comum que a catacrese tenha como ponto de partida as partes do corpo humano, que, reduzidas, sempre por analogia ou comparação, a um significado mais geral, passam a figurar nas mais diversas situações. "Nariz do avião", "olho do furacão", "olho da rua", "boca do túnel", "pescoço da garrafa" ("long neck", em inglês, quer dizer "pescoço longo"), "pé da página", "pé da mesa", "braço da poltrona", "orelha de livro", "cabeça de prego", "cabeça de alho", "dente de alho", "cabelo de milho" e até "as costas da mão", "o peito do pé", "a barriga da perna"...
O jornalista José Simão, da Folha, em sua divertida coluna, lançou a já famosa campanha do "antitucanês explícito" (o "antitucanês" seria a linguagem direta, sem os eufemismos próprios dos políticos tucanos). Diz ele numa edição recente: "E aqui em Sampa tem um boteco atrás da igreja apelidado de Cu do Padre". Além de ser um exemplo de "antitucanês explícito", é um caso de catacrese! Como vemos, geralmente essa figura de linguagem está associada à linguagem oral.
O "casal gay" e a catacrese
THAÍS NICOLETI DE CAMARGOColunista da Folha Online
Não faz muito tempo, um leitor escreveu para a Folha queixando-se do freqüente uso feito pelo jornal do que ele considera uma impropriedade lingüística, a saber, a expressão "casal gay".
O motivo da indignação se fundamenta na definição que os dicionários trazem da palavra "casal": "par composto de macho e fêmea ou de homem e mulher". Assim, duas pessoas do mesmo sexo não poderiam, em tese, constituir um casal.
Ocorre, entretanto, que duas pessoas do mesmo sexo podem conviver como um casal. E a diminuição do tabu em relação ao homossexualismo torna essa situação mais corriqueira e, sobretudo, mais visível. Assim, surge a necessidade de um termo para dar conta dessa realidade. Não é preciso pensar muito para, automaticamente, por analogia com os pares heterossexuais, considerar um casal dois homossexuais que namorem ou vivam juntos. O adjetivo "gay" exprime a particularidade desse casal.
Na falta de uma palavra específica, a língua põe à disposição dos seus usuários a possibilidade de estender o significado de uma palavra que guarde vínculo analógico com aquilo que se pretende nomear. Surge, então, uma espécie de metáfora "obrigatória", ou seja, uma palavra que nasce de um processo figurativo da linguagem, mas sem intenção poética. Esse procedimento, que é espontâneo, chama-se "catacrese", termo que significa, segundo a etimologia, "o emprego de uma palavra em sentido abusivo".
Os exemplos de catacrese são abundantes, sobretudo na linguagem informal. "Céu da boca" no lugar de "palato" ou "abóbada palatina", "maçã do rosto" no lugar de "pômulo", "relógio" no lugar de "medidor de energia elétrica" estão entre muitos outros. A catacrese pode surgir como uma imagem mais concreta ou mais sintética que o seu substitutivo. Os termos "teto" e "piso" usados para indicar valores (o mais alto e o mais baixo respectivamente) permitem a compreensão imediata e, portanto, são eficazes e se instalam na linguagem do dia-a-dia. O mesmo vale para o "casal gay".
É comum que a catacrese tenha como ponto de partida as partes do corpo humano, que, reduzidas, sempre por analogia ou comparação, a um significado mais geral, passam a figurar nas mais diversas situações. "Nariz do avião", "olho do furacão", "olho da rua", "boca do túnel", "pescoço da garrafa" ("long neck", em inglês, quer dizer "pescoço longo"), "pé da página", "pé da mesa", "braço da poltrona", "orelha de livro", "cabeça de prego", "cabeça de alho", "dente de alho", "cabelo de milho" e até "as costas da mão", "o peito do pé", "a barriga da perna"...
O jornalista José Simão, da Folha, em sua divertida coluna, lançou a já famosa campanha do "antitucanês explícito" (o "antitucanês" seria a linguagem direta, sem os eufemismos próprios dos políticos tucanos). Diz ele numa edição recente: "E aqui em Sampa tem um boteco atrás da igreja apelidado de Cu do Padre". Além de ser um exemplo de "antitucanês explícito", é um caso de catacrese! Como vemos, geralmente essa figura de linguagem está associada à linguagem oral.
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Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa, é autora de "Redação Linha a Linha" (Publifolha), "Uso da Vírgula"(Manole) e "Manual Graciliano Ramos de Uso do Português" (Secom-AL) e colunista do caderno "Fovest" da Folha. E-mail: mailto:thaisncamargo@uol.com.br |
