Pai é Pai
Distância
Semana passada, a Mãe e eu estivemos fora por uns tempos. Sem os meninos. Essa é uma prática que adotamos desde quando o João era pequenininho. Uma ou duas vezes por ano, tiramos um tempo pra nós dois e caímos no mundo. Desta vez, na Califórnia norte-americana e, por pouco, como todos vimos, quase que o mundo acabou. Bem, mas o fato é que enquanto a gente vai, os garotos ficam. E bem.
Para tais ocasiões, sempre temos o privilégio de contar com o auxílio mais que luxuoso de nossa Fiel Assistente e do carinho incondicional das duas avós, que se revezam na tarefa de fornecer a quantidade máxima de amor e de mimo que esses meninos merecem.
Mas, por mais que saibamos que eles vão ficar bem, que a rotina vai ser preenchida de brincadeiras em tempo integral, visitas de tios e tias, pizzas, cineminhas e afins, o coração sempre aperta. Não tem jeito. Ainda no aeroporto, pouco antes da hora do embarque, falei com o João. Ele parecia chateado. Nem a coleção completa dos desenhos do Speed Racer que eu tinha lhe dado pouco antes de partir parecia ter tido o poder de consolá-lo.
A coisa só melhorou quando disse que nesse período ele ia poder brincar um pouquinho mais no computador e que sim, iria ganhar aquele livro dos Seres Imaginários que a tia Cacá havia prometido. O Pedro sequer se aproximou do telefone. Ao fundo, ouvia suas risadas em alguma pirotecnia com a vovó. Desliguei e rumei para o portão de embarque. Por dentro me sentia um verme.
Achei que com o tempo iria tirar essa história de letra. Como disse, essa não é a primeira vez que damos essas escapadas. E, na boa, racionalmente acho que todo casal deveria fazer isso. Para o bem da sanidade emocional de ambos. São momentos que deixamos, pelo menos por um período determinado, de ser pai e mãe em tempo integral para vivermos como marido e mulher, retomando aqueles empoeirados tempos de namorados. Não tenho dúvidas que as crianças, apesar de sentirem a nossa ausência, se beneficiam, em muito, dessas nossas pequenas fugas. E nós, também, claro.
No entanto, não é fácil. Confesso que preciso exercitar um pouco mais o que os budistas pregam como desapego. Aos poucos, porém, as coisas vão se acomodando. O tipo de viagem que fazemos também ajuda, rodando de um lado para outro, montando o roteiro à medida que avançamos na estrada, cada dia dormindo num hotel diferente, numa cidade completamente estranha. A Mãe, por incrível que possa parecer aos olhos de outras mães, é quem lida melhor com tudo isso. Tem determinação. Sabe que os meninos estão em excelentes mãos e que não temos porque nos preocupar.
Meu lado racional concorda, e me escoro na certeza de que não há nada melhor para avós e netos do que poderem conviver assim, de maneira tão intensa. Para muita gente pode parecer óbvio, mas para a nossa família essa não é uma situação muito corriqueira, já que ambos os avós vivem no interior e só se encontram com as crianças uma ou duas vezes por mês. Então essa é a hora do desbunde. Pode mimar à vontade.
Durante nossa temporada americana, ligamos todos os dias, sempre na mesma hora, para falar com os meninos. "Moshi moshi!", diz o João em sua característica saudação em japonês. Não dá para dizer que rola assim um longo diálogo, mas eu pergunto sobre o que ele fez no dia, se está tudo bem, se a vovó e o Pedro estão se comportando e ele vai respondendo: "Sim. Sim. Sim. Sim!" E meio que é tudo. Já o Pedro, de novo, só ao fundo. Falou comigo apenas uma vez, no dia do meu aniversário: "Parabéns, papai". E só. Logo em seguida, seus passinho apressados se afastam do aparelho. Mais do que suficiente.
Uma semana depois, aterrissamos em solo tupiniquim bem no Dia das Crianças. Aeroporto lotado, dia chuvoso. A nossa casa parece mais distante do que nunca! Mas, depois de percorrer a marginal cinzenta e inacreditavelmente silenciosa, finalmente estamos na porta de casa; ao abrir a porta, abraços, beijos, sorrisos, gritos, piruetas, dancinhas. Melhor que ir, é sempre poder voltar.
fim
Em tempo: na semana seguinte, foi a vez do João viajar. Ele ficou três dias num acampamento com a turma da escola. Numa boa, curtiu demais. Por aqui, o coração apertou. De novo!
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
