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Pai é Pai

02/11/2008

Febre

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"Eu não gosto de você! Não quero você! Quero a mamãe!" Bem, essa talvez tenha a sido a frase do Pedro mais ouvida por mim na última semana. Com uma inflamação na garganta, que desencadeou febre alta e mal-estar, o menino ficou totalmente fora de combate por dois dias. E, nessas 48 horas, pouco quis saber de mim.

Por mais que eu saiba que isso é uma fase (o João também se comportou assim por um tempo), o fato é que machuca ser rejeitado. Ainda mais por uma criança enferma, fragilizada e tão pequena. Mas era só eu chegar perto e encostar a ponta do dedo indicador no seu braço, para ele disparar: "Pára papai! Não quero você!" E pimba! Lá se vai minha auto-estima pelo ralo. Será que alguém aí pode me ajudar a resgatá-la?

A tal da inflamação na garganta pegou o menino, e a todos nós, de surpresa. Numa tarde aparentemente normal, ligaram da escola dizendo que ele estava com febre e "caidinho". No segundo filho, na mesma escola, confesso que às vezes desconfio que a turma exagera um pouco nos sintomas. Compreensível, já que uma criança enferma pode significar o contágio das demais. Mas, na prática, quando a coisa não é efetivamente grave, tampouco contagiosa, acaba se transformando numa revolução na rotina cronometrada da maioria dos pais que trabalham. E aí incluo eu mesmo e a Mãe.

Pode parecer insensatez minha (afinal é o Meu filho que está doente!), mas acredito que a escola hoje deve estar preparada para não apenas passar o problema adiante, mas agir em parceria com os pais em busca da melhor solução. O que muitas vezes significa dispensar atenção especial ao pequeno enquanto os pais se desvencilham de sua burocrática rotina para efetivamente estar presentes e prontos para cumprir o seu dever.

Bem, a questão era que ele não estava no seu, digamos, "estado normal", que pode ser traduzido em pula-corre-brinca-fala sem parar. A Mãe pediu que fosse ministrado o medicamento indicado para essas ocasiões. Melhorou, mas não sarou. Pouco tempo depois, pegamos o menino preparados para uma longa noite de febre alta e sono intermitente. E assim foi.

No dia seguinte, ele acordou bastante debilitado. Se recusava a comer, preferindo o sofá a qualquer outro cômodo da casa. A febre, que havia cedido um pouco, voltava a aumentar. À tarde, levamos o garoto ao médico. E, mais uma vez, operou-se o milagre do consultório. Bastou o garoto botar os pezinhos na sala que seu humor se transformou. A febre desapareceu. Brincamos juntos com os brinquedinhos de madeira, bolas de gude, quebra-cabeça. Parecia até que estava num passeio de fim de semana. O diagnóstico veio rápido: inflamação na garganta, mais uns dois dias de febre alta e pronto. No mais, estava saudável. Nada de virose. Ufa! Seja lá o que é isso (afinal, tudo é virose hoje em dia...), mas que normalmente vem acompanhada de vômito e diarréia. E isso, felizmente, não pintou. Encaramos o trânsito do final da tarde aliviados. Pegamos o João e rumamos pra casa já certos de que mais um dia e tudo estaria bem.

O alívio, no entanto, não resistiu à visão do Pedro mais uma vez caidinho no sofá, ardendo em febre e me esculachando, como de costume. O João, surpreso com a ausência do Pedro na sua rotina, chegou a perguntar para a Mãe se o Pedro iria morrer. "Não, João, nada disso. Ele está apenas com uma dorzinha de garganta, logo passa", confortou ela. O João retribuiu abraçando o menor com um carinho daqueles que só um irmão tem pelo outro.

Nossa Fiel Assistente grudou no menino e nos ajudou a enfrentar as últimas 24 horas de crise. Para a felicidade geral, ele atravessou a noite sem incômodo. Na manhã seguinte, acordou outro. Bem-humorado, pediu para vestir uma fantasia para a festa de Halloween como o João, com direito a gel no cabelo e tatuagem nos punhos. Brincamos juntos, fotografei os garotos. O João fotografou o Pedro. Ele pulou-correu-brincou-falou sem parar. Estava pronto pra outra. Os olhos brilhando. "Papai, deixa eu fotografar?" Alívio.

Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online.

E-mail: paiepai@grupofolha.com.br

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