Pai é Pai
A formatura
Sempre ouvi que formar um filho é uma tarefa árdua e uma experiência extremamente gratificante para qualquer pai. Somam-se à sensação do dever cumprido, emoção, orgulho e, claro, lágrimas. Hoje, um dia depois da formatura de primeiro ano do João, posso dizer que concordo com tudo isso, sabendo, no entanto, que aquela parte que diz "dever cumprido" não é lá tão precisa assim. Afinal, ele tem apenas seis anos e trata-se apenas da primeira etapa concluída, a da alfabetização. Muitas virão, sabemos. E tantas outras lágrimas vão rolar, fazer o quê?
O dia começou cinzento e chuvoso. O que prenunciava atraso e confusão para a hora do evento, marcada para as 19h no salão nobre de um sofisticado clube paulistano bem no meio do bairro dos Jardins. Mas até que, no nosso caso, a coisa correu surpreendentemente bem (o mesmo não posso dizer do Tio Celso, que só conseguiu chegar às 21h30, depois de duas horas e quarenta minutos preso num congestionamento na marginal Tietê). Às 18h30 já estávamos no local e os meninos devidamente paramentados. O João, astro da festa, impecavelmente de branco da cabeça aos pés. "Pô pai, mas eu tô ridículo nessa roupa!", foi sua reação ao se ver no espelho. Sinceramente, tava não. E olha que sou o maior crítico dessa história de vestir criança como anão, com terno, gravata e afins, tudo em miniatura. O menino usava camisa, bermuda, meias e tênis. Tudo branco, como as nuvens. Mais cool impossível. Pelo menos até a correria começar e tudo virar de ponta cabeça.
No salão, cada formando tinha a sua mesa. Mas nem deu tempo de acomodar as coisas. O Pedro saiu em disparada atrás dos meninos mais velhos, todos, claro, de branco, e as mães, todas, claro, enlouquecidas atrás: "Mas pára de correr que vai sujar a roupa antes da formatura!". Em vão, diga-se. Para o próximo ano, fica, ó turma da escola, a sugestão: que tal tentar algo um pouco mais sóbrio, mas nem por isso menos elegante? Algo como o azul, por exemplo? Mães desesperadas e filhos super ativos desde já agradecem.
Enquanto relógio avançava, os convidados iam chegando. Todos esbaforidos com o atraso e irritados com a ascensorista do clube, que simplesmente, por sua vontade própria, decidiu decretar greve e não levar mais ninguém até o local da festa, no segundo andar. Com quase uma hora de atraso (o que, convenhamos, para uma tarde chuvosa em São Paulo é bem razoável) a cerimônia começou. Enquanto a Mãe tentava impedir que o Pedro avançasse em direção ao João, os formandos, todos ainda de branco, claro, entraram em fila por um caminho entre as mesas. Quase sessenta meninos e meninas de duas turmas. Todos em absoluta ordem até as cadeiras em frente ao palco. A cerimônia ia começar.
Agradecimentos de praxe, discurso de diretora aqui, de professora ali, todos os alunos se revezaram na leitura de um trecho da Declaração dos Direitos da Criança. Uma a um, subiam ao palco e, ao microfone, exibiam a prova de que sim, a escola cumprira a sua tarefa. Afinal, estavam ali, na frente de todo mundo, lendo. Uns bem, outros ainda bem mal, sejamos honestos. O que, obviamente, não era culpa deles. E assim se seguiu. Quase 60 "direitos". E eu ali, em pé, do lado do palco, tentando captar alguma imagem do João mais descontraído com seus amigos (o que consegui!). Logo depois, uma pausa inesperada. A turma se levanta e, mais uma vez em fila formada, se retiram. Não entendi nada.
Aproveitei para voltar à mesa. A Mãe e o Pedro estavam em algum outro canto, ela provavelmente correndo atrás dele. Falei com nossos convidados, tios e tias que heroicamente atenderam ao nosso apelo (Ei, muito obrigado, pessoal!). Quando percebo, lá vem a turma de novo. E de beca e chapéu! Isso, daqueles quadrados de formatura. Voltam aos seus lugares. E chega a vez das "tias" de cada turma falar. A do João evitou o discurso e preferiu atribuir a cada um de seus alunos uma característica marcante, capaz de resumir a personalidade de cada um ou suas preferências. Quando chegou a vez do João, gelei. Caramba, o que vem aí? "Ah, como eu gostaria que o meu filho tivesse tanto gosto pela leitura e lesse tão bem como o João." Gostei. E ele também, vi. Estava a dois metros de distância do meu filho, sem que ele soubesse, e notei o riso no seu rosto. Ele estava orgulhoso, seguro como só ele em meio a seus pares. Foi aí que senti meus olhos se encherem. Mas, em vez de chorar, cliquei mais uma vez.
Na sequência, os meninos fizeram o "juramento" e cantaram o Hino Nacional (sim, eles sabiam de cor!) e o Hino da escola (não, eles não sabiam de cor). Depois, foram, novamente um a um, sendo chamados a receber o diploma. Abraços, beijos, foto aqui, foto ali, de volta à cadeira. Uma música do Jack Johnson ("Upside Down") cantada em coro e aí, quando já estava praticamente impossível de controlar a galera (O João incluído), veio a autorização que todos esperavam. "Podem jogar os chapéus para o alto! Mas depois, por favor, recolham e devolvam na saída...."
A molecada mandou tudo pelos ares e aí não teve mais fila, nem ordem possível. Começou a gritaria, debandada em direção aos carrinhos de cachorro-quente, hambúrguer, crepe, sorvete, refrigerante, pastel, enfim tudo o que fosse comestível e bebível que estivesse pela frente. Já passa das nove da noite e a turma estava realmente faminta. Em segundos, consegui um sundae para o João, saquei mais umas fotos com os parentes e tchau! O menino saiu em disparada para se juntar aos amigos que corriam enlouquecidos pelo salão. No palco, dois palhaços haviam assumido o lugar que há pouco era reservado aos mestres. Na cola, o Pedro tentava se integrar às brincadeiras, mas, ainda pequeno, era sempre deixado para trás. O que, numa situação normal, poderia resultar em choro, ali era nada mais do que mais uma excitante brincadeira para ele. Uma das amigas do João até "adotou" o Pedro, cuidando para que ele não fosse abalroado. Obrigado, Daniela!
Naquela altura, o branco há muito havia deixado de ser total e radiante. Na camisa do João, uma baba de chocolate escorria pelos botões. Outros estavam descalços, camisas abertas, descabelados. Todos. E assim a coisa foi, entre correrias e pausas para um pastel ou mini-doguinho, até as onze da noite. Quatro horas de festa. Aviso o João que está na hora de ir. A maioria dos convidados já foi, inclusive a Mãe e o Pedro e a maioria dos amigos do nosso formando. Muxoxo, choramingo. "Pai, mas são os meus amigos.... Quero ficar mais um pouco". Deixo. Observo ele correndo com outros dois comparsas pelo agora quase vazio salão. Se diverte como nunca. O cansaço não chega. Na mesa vazia, sento e espero. É o meu filho mais velho que está ali na frente. Logo vai chegar a vez do mais novo e todo o ritual vai se repetir. "Tá bom, pai, vamos." Tomo-o pela mão, evitamos o mau-humor da ascensorista e descemos juntos a escada. Cada um orgulhoso à sua maneira. O branco amarelado e amassado. Ambos felizes.
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
