Pai é Pai
Minhas férias
Praia, sol, chuva. Depois de quinze dias nessa toada, volto ao batente. As crianças ainda não. Ficam até o final do mês gozando um merecido descanso da puxada rotina infanto-escolar, aproveitando a melhor fase da vida, um período em que o ócio ainda não se associou à culpa e ao remorso, em que a ordem é uma só: curtir, curtir, curtir. E isso eles sabem muito bem como fazer.
Mais uma vez, a diversão começou com a chegada do Papai Noel. Sim, ele mesmo. Se vocês não acreditam, paciência. Eu, assim como o João e o Pedro, somos crentes sim senhor. O bom velhinho baixou em casa surpreendendo os meninos com uma árvore misteriosamente iluminada e caprichosamente adornada com alguns presentinhos numa sala antes escura e desprovida de qualquer encanto. Ao se depararem com a surpresa, os garotos vibraram. Não importava se era antes ou depois da meia-noite. O fato é que a magia mais uma vez estava ali. E os olhinhos deles brilharam.
Se Papai Noel foi o responsável pela surpresa, o rei da festa foi mesmo... Adivinha quem? Ben 10! Claro. Camisetas, fantasia, joguinhos, bonecos, bonés, bermudas, enfim o enxoval completo. O Pedro não sabia o que fazer. Num acesso incontrolável de alegria explícita e contagiante, vestiu tudo o que recebeu. Uma peça sobre a outra. E saiu pulando pela sala. O João foi mais contido. Abraçou seus livros de quadrinhos e o mais novo joguinho eletrônico e deles não desgrudou nem quando embarcamos todos no carro abarrotado de malas, mantimentos e toda sorte de badulaques de verão rumo ao litoral norte de São Paulo.
Diferentemente do ano passado, quando fomos engolidos pelo tráfego pesado e fustigados pelo calor inclemente, a viagem foi tranquila, praticamente indolor, não fosse o dilúvio que nos recebeu logo que chegamos à casa de praia. As ruas do condomínio mais lembravam um grande e misterioso lago, cuja profundidade poderia, quem sabe, engolir nosso carro para sempre. Ainda assim, encorajado pela visão de um bravo cidadão que enfrentava destemido a correnteza a bordo de sua bicicleta, resolvi enfrentar o desconhecido. Cruzamos ruas e valetas em primeira marcha, velocidade constante, água na altura da porta. Os meninos, claro, vibravam com a aventura. Minutos depois, chegávamos sãos e salvos à nossa casa. Lá dentro, tudo muito bem, não fosse algumas goteiras que insistiam em alagar a cozinha e parte da sala. "Culpa do vento que descolou algumas telhas", me explicava o caseiro. Incômodo, claro, mas nada que me assustasse mais do que a possibilidade de a chuva simplesmente não cessar nos próximos dias. Aí, meu irmão, eu (e, claro, nós todos) estaríamos bem ferrados.
Felizmente não foi o que aconteceu. Entre idas e vindas, chuva e sol se revezaram no firmamento. Deu praia todos os dias, assim como piscina. A molecada se esbaldou. O Pedro logo mandou o medo do mar pro espaço, se espalhou na areia, pulou ondas, destruiu castelos (construí-los era a minha tarefa...), pegou conchinhas, se lambuzou de picolé de abacate, comeu milho verde, enfim aproveitou como nunca as delícias que só litoral oferece. O João, ainda mais apaixonado pelas ondas, se entregou a elas com todas as suas forças. Juntos enfrentamos marolas de todos os tipos e modelos. Não faltaram "caldos" e "jacarés". O mar era dele. E, por tabela, meu também.
Ainda que estivéssemos na companhia de amigos com filhos pequenos, com quase a mesma idade dos meninos, notei que o Pedro aos poucos foi se aproximando cada vez mais de mim. "Papai, vamos entrar no mar?" "Papai, vamos fazer um castelo?" Por mais que eu tenha uma certa restrição em relação a praias em geral (na boa, não tenho lá muita paciência pra ficar me lambuzando de protetor solar, usar roupa molhada e cheia de areia o dia inteiro, suar feito um leitão no forno, enfim...), nada pareceu me incomodar dessa vez. Senti-me cada vez mais próximo dos meus filhos. Aproveitei para observar ao máximo as suas expressões, o modo como corriam direção ao mar, seus pés tocando a areia com aquela estranheza de quem quase nunca fica descalço na cidade, as sungas estampadas com as imagens dos super-heróis favoritos, a pele que aos poucos ia ficando mais e mais morena, os cabelos que iam mudando de cor, o sorriso aberto estampando no rosto uma alegria impossível de ser mensurada. É para isso que servem as nossas férias.
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
