Pai é Pai
A volta
Enfim terminou. Depois de dois meses, chegou o dia de a meninada voltar aos bancos escolares. E a grande incógnita que se abatia sobre a família era uma só: como reagiria o João no seu primeiro dia de aula numa escola nova? No caso do Pedro, apesar de ser mais novo, estávamos tranquilos. Afinal, não haveria praticamente mudança alguma, já que ele permaneceria na mesma escolinha, com os mesmos amigos, professoras já conhecidas e ambiente amplamente familiar. Mas e o João? O que seria dele num lugar completamente diferente daquele que ele frequentou desde quando ainda usava fraldas e mamava no peito da Mãe? Essa foi a dúvida que martelou sem folga a minha cabeça nos dias que antecederam o esperado début do garoto.
Ainda nas férias, o João falou pouco sobre a nova escola. Vez ou outra, se certificava se teria mesmo de mudar. Ao que nós respondíamos que sim, enfatizando que seria bacana para ele, que a escola nova era mais bem equipada, com aulas diferentes e, claro, novos e incríveis amigos. "Mas será que eles vão gostar de mim?", era, sempre, a pergunta que vinha a seguir. "Mas é claro, João, todos gostam de você...", emendava a Mãe, sempre com um sorriso nos lábios, não daqueles que a gente tem pronto para qualquer situação, mas um genuinamente sincero. "Como alguém pode não gostar do João?", perguntávamos a nós mesmos em silêncio.
E assim correram as férias, sem muitos questionamentos ou chororôs. Até que chegou domingo, a véspera. Durante o dia todo, não tocamos no assunto. A iniciativa, concordamos, devia ser dele. E foi só depois da pizza, lá pelas oito da noite, que o menino falou. "Amanhã começam as aulas, não é? Você vai comigo, mamãe?" Claro que sim. No primeiro dia, é parte da liturgia os pais levarem e buscarem os alunos novos. Coube à Mãe a tarefa de acompanhá-lo na entrada.
Na manhã de segunda, porém, aconteceu algo inusitado. Normalmente, o João acorda cedo (não tão cedo quanto o Pedro, que insiste em pular da cama antes das 7 da matina), mas dessa vez parece que ele não estava muito a fim de levantar. Embalado num sono pesado, esticou até quase 9 horas, quando eu e o Pedro decidimos despertá-lo. "Acorda João, acorda!", pulou o menorzinho por cima. Ainda meio atordoado, com os olhos remelentos, ele olhou para mim: "Socorro!" e se enfiou debaixo das cobertas. Brinquei, disse que ele, um super-herói tão intrépido, jamais deveria ter receio de encarar um dia de aula. Colou. Logo, ele estava desperto, pulando sobre a cama e correndo em direção à sala. Não disse mais nada e, quando chegou a hora, se mandou com a Mãe para enfrentar o maior desafio de sua vida até agora.
Enquanto isso, o Pedro empacava. Surpreendentemente topou vestir o uniforme, mas não se mostrava muito disposto a voltar para a sua rotina escolar. A todo momento, dizia que não queria se afastar da Mãe, que preferia ficar em casa, que não queria encontrar os amigos na escolinha. No limite de sua contestação, chorou lágrimas gordas. O fato é que nós, preocupados demais que estávamos com a mudança à qual o João seria submetido, acabamos não dando lá muita atenção à volta do Pedro. Achamos que tudo correria bem, sem atropelos, pois, afinal de contas, as coisas seriam quase que exatamente iguais ao ano anterior, dentro da rotina. Mas eis que existe o "quase" e talvez, não sei, esse 'quase' seja composto por dois fatores: a tristeza por voltar a ter de se afastar de casa e, consequentemente, da Mãe, e, claro, a ausência do João. Sim, pois desde quando começou a frequentar a escola, o Pedro sempre teve o João ao seu lado, seja no carro, na hora do recreio, nas brincadeiras no parquinho, na volta pra casa, enfim, o irmão mais velho, ainda que noutra turma, estava por perto. E agora, não mais.
Pouco a pouco, no entanto, ele foi se acalmando e, claro, ao se reencontrar com os amigos e o carinho de todos na escolinha, logo percebeu que de forma alguma estaria só. Devagarinho, foi recuperando a segurança e, ainda que continuasse por toda a semana a chorar um pouco antes de sair de casa, percebeu que não teria como escapulir da rotina escolar.
Já o João teve a Mãe ao seu lado até chegar à classe e ser apresentado à nova professora. E só. Cinco minutos depois, na hora da aula, a Mãe foi gentilmente convidada a se retirar. O que se passou exatamente entre a uma e as seis da tarde nunca saberemos. O fato é que quando cheguei para buscá-lo, ele se mostrava um pouco mais sério do que o habitual, mas longe da aparentar tristeza. "E aí João, como foi o primeiro dia?" Depois de um breve silêncio, ele respondeu. "Legal. Tudo bem." E só. "Mas a tia nova? E os colegas de classe?" E ele: "Ela é legal. Os amigos... bem, ainda não falei com muita gente. Tô ficando na minha nesse começo". Na hora só pude imaginar que, fosse eu, faria o mesmo. "Bacana, aos poucos você vai conhecendo a turma toda." "É isso aí." No carro, voltando pra casa, ainda falamos das aulas e do lanche. Tudo aprovado pelo menino, com uma naturalidade que me surpreendeu. Depois, fizemos a lição de casa, jantamos, vimos desenhos e ele foi dormir. Tudo na boa. Sem traumas. No dia seguinte, teria mais uma novidade: não iríamos mais levá-lo ou buscá-lo. E ele sabia disso. Ao acordar, dessa vez na hora de sempre, olhou bem pra mim e disparou: "Socorro! Hoje tenho de ir de perua!" E foi.
fim
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
