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Pai é Pai

22/03/2009

O aniversário da vovó

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Fim de semana passado foi aniversário da minha mãe. Setenta anos. Festeira, esperava que ela preparasse um evento daqueles, com 300 convidados, almoço, missa, jantar, baile e café da manhã e sei lá mais o quê. Mas não. Tranquila, ela conversou comigo e com minha irmã e propôs um final de semana na pacata estância hidromineral de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais. Somente a gente, filhos, genro, nora, irmão e, claro, os netos. Ok, ok, alguns irão torcer o nariz para a tal "pacata estância hidromineral". Afinal de contas, onde já se viu levar crianças para uma "pacata estância hidromineral"? O que eles iriam faz num lugar onde a faixa etária média supera em muito os 60 e a principal diversão é se meter numa banheira de água sulfurosa que parece saída de um filme de terror do século passado? Calma que eu explico.

Poços de Caldas tem um valor sentimental para a minha família. Meus avós maternos costumavam passar férias e feriados ali. Hospedavam-se sempre no suntuoso Palace Hotel, o maior da cidade, tombado pelo patrimônio histórico, dotado de quartos amplos, piscina coberta e aquecida, jardim de inverno, restaurante e uma infinidade de salas, salões, sofás e corredores. Em algumas dessas vezes, eu e minha irmã (mais ela do que eu) os acompanhamos. E eu, do alto dos meus 10 anos de idade, admito, adorava aquilo tudo. Também visitamos a cidade outras vezes com meus pais, mas foram as estadias com os meus avós que ficaram gravadas na memória. E era por isso que minha mãe queria comemorar ali o seus 70 anos. Para estar mais uma vez, e agora na companhia da nova geração, num lugar onde fomos todos muito felizes. Achei ótimo.

Acostumadas a hotéis de praia, os meninos estranharam um pouco toda aquela arquitetura e espaço. Na frente do hotel, não havia areia ou mar, mas um belo jardim com coreto, gente dançando, famílias caminhando juntas, crianças correndo. Logo eles tomaram conta do lugar. No primeiro dia, logo pela manhã, passeamos de charrete. Isso mesmo: charrete,coisa que o João e o Pedro nunca haviam feito. E eles adoraram sair pelas ruas acompanhando o ploc-ploc-ploc-ploc do cavalo. Numa breve parada, aproveitaram para comer queijo (afinal estamos em Minas!), comer doce de banana e mais ploc-ploc-ploc-ploc. Estavam extasiados.

No hotel, a piscina os aguardava com suas águas deliciosamente quentes e supostamente medicinais. Logo, os dois já estavam lá dentro, pulando e mergulhando até enrugar dedos, mãos e pés. Não preciso dizer que eram os mais novos por ali. Mas quem se importa? Também pulei, mergulhei e enruguei. E olha que eu não era o mais velho da turma que estava por ali.

De volta à praça, deparei-me com algo que eu jamais pensei que voltaria a ver: painéis de madeira pintados com desenhos (avião, carro, super-herói) daqueles com um buraco onde você enfia a cara e é fotografado. Eles estavam ali, congelados no tempo. Eram os mesmos onde eu havia sido fotografado há 30 anos! Não tive dúvida, coloquei a turma dentro do avião e registrei aquele momento histórico. Agora seriam eles, e não eu, os pilotos.

Mas o melhor ainda estava por vir. Depois de correrias, mais banhos de piscina, apertões, brincadeiras, passeios, beijos e amassos dos avós e tios presentes, os meninos seriam finalmente apresentados à maior atração da "pacata estância hidromineral". Pelo menos na minha concepção e dentro do que minha memória ainda guardava: a charrete do bodinho. Isso mesmo. Mais charrete! Só que agora em versão reduzida e puxada por um bode comilão, com seus longos chifres e barbicha. Dessa vez não havia espaço para nenhum adulto a bordo. Os lugares eram apenas para o João e o Pedro que logo se viram com as rédeas na mão "comandando" o bode Papai Noel e seu plec-plec-plec-plec pelos caminhos da praça. E riam com as seguidas guinadas que o bicho dava para comer algo incomível no chão e gargalharam quando ele, bem, soltava umas bolinhas pelo caminho. Quando paramos, o Pedro logo quis alimentá-lo ainda mais. Não com pedras, mas com folhas verdinhas colhidas ali mesmo. E Papai Noel, como um bom bode velho, devorava tudo de bom grado.

Mais uma vez, outra em tantas desde o dia que cheguei, me vi ali na mesma praça, com meus pais, avós, pessoas queridas demais. Olhei-me nos olhos dos meninos, no sorriso do João, na excitação do Pedro, na alegria da minha mãe em seus 70 anos por estarmos todos juntos ali, mais uma vez, naquela pacata estância hidromineral.

Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online.

E-mail: paiepai@grupofolha.com.br

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