Pai é Pai
Parafuso
Tem dias que, sinceramente, não sei. Como ontem, por exemplo. Mas para falar de ontem, preciso falar de um dia antes. Então vamos lá. Na manhã de anteontem, tudo parecia exatamente igual a tantas outras manhãs dos últimos dias. Rotina de sempre, João acordando cedo, tomando café, fazendo a lição de casa, pulando na minha cama, batendo um papo sobre super-heróis diversos, trocando o pijama pelo uniforme e embarcando na perua rumo à escola. Ao mesmo tempo, o Pedro também tomando o seu café, assistindo seus desenhos, trocando de roupa, uma duas, três vezes até a Mãe se irritar e dizer chega, rabiscando o papel, pulando no colchão como se fosse uma cama elástica, rindo, brincando, pegando um brinquedo, um livro até chegar a hora de dois descermos para o carro e nos mandarmos para a escola (ele) e trabalho (eu).
Pois bem, assim vinha sendo até que aconteceu ontem. E, bem, nada disso funcionou.
Não tenho a menor ideia do motivo, mas o fato é que o menor de todos acordou com a pá virada. Nada estava bom, tudo o irritava. Do café à roupa, passando pela TV, pelo brinquedo, pelos rabiscos, pelo livro, tudo era motivo para choro. E daqueles, que a gente já sabe qual é: barulhento, estridente, seco. Traduzindo, manha em seu estado mais puro. Eita!
E como se não bastasse reclamar de tudo, o menino ainda decidiu irritar o irmão mais velho, normalmente um santo travestido de menino no que diz respeito à sua paciência para com o pequeno. Por mais que tente, difícil o Pedro tirar o João do sério. Mas não ontem. Ele tanto fez, tanto azucrinou, que em pouco tempo eu tinha dois meninos extremamente mal-humorados ao meu lado. Um com aquela chorumela encharcada de falsidade, outro irritado com a situação e a folga do primeiro, que ainda tinha feito o favor de rabiscar todo o caderno de desenhos do mais velho e ainda bagunçar todos os seus livros. Rapaz, não tava fácil.
Foi tanta a confusão, que depois de me trancar para um banho numa desculpa esfarrapada para fugir daquela zona toda, saí como um foguete quase me esquecendo do tradicional 'buenos dias!' para o João carregando o Pedro pela mão, mochila e lancheira noutra, até o elevador e, ufa, quem sabe, depositando todas as minhas fichas na nossa brincadeira diária, a única coisa capaz de restaurar o sossego até o momento de entregá-lo com indisfarçável alívio aos cuidados das professoras e convívio dos seus pequenos pares.
E não é que funcionou? Não de cara, porque logo que entrou no carro o moleque começou a resmungar algo a ver com o fato de ter esquecido um brinquedinho X ou Y não me lembro bem. Com a cabeça zonza, ignorei os lamúrios, manobrei o carro e logo estávamos no meio da rua, sob um agradável sol de outono e temperatura espetacularmente amena para um dia agitado como esse. O menino, que de bobo não tem nada, notou que meu humor não estava lá daqueles e, milagrosamente, vejam só, aquietou-se por duas ou três quadras. Até que:
-- "Papai, olha ali! Um fusquinha! E é vermelho!"
Era a senha que eu tanto havia esperado. A partir daquele momento, a irritação dava lugar à única coisa que realmente valia a pena a partir de então: caçar Fuscas pelo caminho até a escola, nosso esporte predileto e, o melhor de tudo, só nosso. E assim foi. 'Olha ali, outro! Branco!' 'E mais um!' 'Outro!' Durante a nossa caçada, o tempo voou até o momento que parei o carro na frente da escola. Do mau humor matinal, nada restava. Decidido, garoto ignorou a minha ajuda, desceu do carro, pegou sua mochila e rumou para o pátio. 'Buenos dias, papai!' e sumiu. Buenos dias, Pedro. Buenos dias.
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
