Pai é Pai
O dia da Mãe
Não é fácil ser mãe. Vejo em casa, sei do que estou falando. Numa corrida sem linha de chegada, acordo com a Mãe acordando com o grito do Pedro, no outro quarto: "Mamãe! Acordei!". E eis que está dada a largada. Ainda cambaleando de sono, ela se levanta e vai acolhê-lo. Logo depois, é a vez do João, que, mais independente, já se manda pra sala correndo. Minutos depois, estão os dois no sofá, ou nas mini-cadeirinhas de balanço, tomando seu leitinho matinal. Anjinhos de pijama e remela, ainda esquentando as turbinas. Enquanto isso, a Mãe, já desperta, aperta o passo afim de esticar ao máximo o seu tempo com os meninos.
Na mesa da sala, ela toma café e passa os olhos no jornal enquanto ouve o João falar até perder o fôlego sobre as histórias que inventa, escolhe a heroína para a brincadeira ("Mulher Maravilha ou Mulher Invisível?"), oferece mais uma bisnaguinha com requeijão para o Pedro, pega cereal para os dois e vê pela milionésima vez o DVD do Rei Leão até que percebe que a manhã escorre pelos seus dedos e precisa correr ainda mais para se arrumar e chegar no trabalho na hora marcada.
Enquanto troca de roupa, os meninos entram no quarto e pulam na cama. Falam sem parar. Por vezes, o Pedro despenca. Aí ela fica nervosa, pede para que parem. Nem sempre é atendida, até que, desolada, olha em minha direção como que implorando para que eu faça algo. Qualquer coisa, diga-se. Desde que os faça cravar os pés no chão. Se não faço, me fuzila. E às vezes não faço, deixo-os pular. Afinal quando vão poder fazer isso de novo? E o melhor, juntos! Meu corpo, numa dessa, já está crivado de balas imaginárias.
Com um suspiro, ela deve pensar algo como "Esses meninos!". Mas é isso mesmo. Somos todos meninos. Uns mais velhos, outros nem tanto. No meio da confusão, ela consegue, nunca sei como, se arrumar de forma impecável. Em segundos, surge linda num vestido fino, a maquiagem discreta e os cabelos deliciosamente e propositalmente desarrumados, ou seria, desestruturados? Não sei ao certo. O que sei é que ela já está pronta, que o João logo estará pronto em seu uniforme escolar e que o Pedro, bem, o Pedro está lá no quarto dele revirando as gavetas em busca da combinação que julga a ideal para o seu dia. "Mas Pedro, você precisa vestir o uniforme, olha só o João...", ouço à distância. O som que vem a seguir começa baixinho, mas aos poucos vai subindo até irromper num choro de manha e frustração estética. "Mas, mas, mas esse não combina!",diz o menino rejeitando o uniforme azul e branco. Das gavetas tira uma camiseta sem manga amarela e procura no fundo um short da mesma cor. Detalhe: neste dia em especial, lá fora faz frio. O embate é longo, e lá está a Mãe usando toda a sua psicologia e retórica em busca de um acordo satisfatório para ambas as tardes. Até que o relógio decide que a contenta precisa de um fim, e ela, na maioria das vezes, deixa o ringue derrotada. Ou melhor, sem convencê-lo a aceitar o uniforme, mas também sem ceder ao amarelo-amarelo por ele exigido. Tecnicamente temos um empate. E como são frequentes esses empates!
Como já contei neste espaço, o João vai de perua e sou eu quem leva o Pedro à escola na maioria das vezes. No entanto sei que, se pudesse, a Mãe o faria com o prazer genuíno. Quando isso não acontece, temos uma espécie de pausa, quando ela está no trabalho e os pequenos, na escola. No início da noite, com todos de volta ao lar, vejo-a ainda encontrar forças para abraçá-los à porta de entrada, contar uma história da carochinha enquanto os alimenta, conversar com o João sobre faraós e quadrinhos, folhear a enciclopédia de dinossauros, brincar com algum joguinho ou quebra-cabeça, vestir os pijamas, escovar os dentes, passar fio dental, contar mais uma história até que os coloca para, enfim, dormir. Vejo-a então deixar o quarto dos garotos com os olhos semi-cerrados, se esforçando para se acostumar com a luz da sala. No sofá, senta ao meu lado. Sinto-a cansada, mas tranquila. Os seus meninos dormem como anjinhos no quarto do fundo. Dificilmente há alguém no mundo mais feliz do que ela naquele momento.
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
