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Pai é Pai

07/06/2009

Sábado

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Como sempre, o sábado começou animado. Alvorada festiva, crianças vestidas e logo lá vamos nós todos a caminho da padaria para uma café-da-manhã familiar. É quase sempre assim, salvo viagem, chuva ou ressaca. Pois bem, neste dia, depois de uma rodada de mini pães de queijo, trouxinhas de maçã, sucos, cafés e sei lá mais o que, o João disparou:

- E se a gente fosse até a galeria do rock?

"Uau! Que bela ideia!", pensei, mas não falei. Antes, olhei para a Mãe, que olhou para o Pedro que olhou para o pão de queijo. Aí ela me devolveu o olhar e encarei com olhar de aprovação o João, que continuou:

- É, e a gente podia ir de ônibus. O Pedro nunca andou de ônibus!

- É nunca andei! Quero ir!, emendou o pequeno já descendo da cadeira e se colocando pronto para a partida.

Aí olhei para a Mãe, que olhou para mim, que olhei para ela até que ela disse:

- E por que não? O dia tá bonito. Vamos agora.

E assim fomos. Não muito longe, umas duas quadras, passa um ônibus daqueles elétricos que nos deixa na avenida São Luís. Não é muito longe e o ônibus vem sempre quase vazio no sábado. No ponto, o Pedro não entendia muito bem por que eu ficava olhando em direção ao final da rua.

- Também quero olhar!

- Nada disso, criança fica na calçada. E, olha lá, ele já tá vindo!

Segundos depois, eu erguia o João e depois o Pedro veículo adentro. Orientei que eles passassem por sob a catraca (afinal era assim que eu fazia!), o que eles adoraram. No banco, os garotos se divertiam com o sacolejo do ônibus nem muito velho, tampouco novo. Em menos de dez minutos, já era hora de descer. Estávamos na São Luiz e ainda deveríamos cruzar a praça Dom José Gaspar, a rua Sete de Abril e a Barão de Itapetininga até chegarmos ao nosso destino. E fomos na boa.

Uma parada para mais uma cafezinho, xixi para os meninos, e nos mandamos. Eu sentia-me o verdadeiro guia turístico apresentando o centro que eu tanto conhecia ao olhos cheios de curiosidade dos garotos.

- Pai, olha aqui!

E quando me virei já me preparando para discorrer sobre os edifícios do século passado, vejo o João fascinado sobre uma grade do Metrô. Sob as ferragens, uns cinco metros abaixo, era possível ver o fundo.

- Sai daí moleque que sei lá se esse troço tá bem firme!

E lá nos fomos caminhando os quatro até a galeria. Não demorou muito e o João, que já havia estado ali algumas vezes, reconheceu o ambiente.

- É aqui Pedro! É aqui! Vamos lá ver os monstrinhos!

O Pedro não continha a excitação. Depois do primeiro lance de escadas rolantes, avistamos a famigerada "casa dos monstrinhos" nas palavras do João. na verdade, uma loja de artigos góticos decorada com caixões, aranhas, teias, morcegos, máscaras de terror, cartazes de bruxos, couro, tachas, correntes, uma atendente de cabelos azuis extremamente amável com as crianças e um balconista com um implante de caninos tão bem feito que era possível supor serem reais. Quando vi o tal sujeito, puxei o João de lado.

- Você viu aquele cara ali? Acho que é hora de darmos o fora daqui! E rápido!

Ele ainda demorou um tempinho olhando como que não acreditando no que vi. Segundo depois, me puxou pelo braço.

- Vamos embora! Eu hein?

Saímos dali rodando em meio a jovens metaleiros de cabelos compridos, lojas de camisetas com motivos "satânicos" ou humorísticos, CDs, pôsteres e uma infinidade de quinquilharias que os meninos adoraram, como se estivessem num parque de diversões.

Depois de quase duas horas rodando, partimos para a Liberdade para um almoço num dos nossos restaurantes prediletos. Ali encontramos alguns amigos e as crianças, entre um sushi, sashimi e shimeji e outro, quase botaram o estabelecimento abaixo. Aproveitei para o colocar o papo em dia até que vimos que estava na hora de partir para a aguardada Feira Literária do colégio do João, um compromisso assumido há pelo menos um mês e para o qual o João havia se preparado com muita dedicação. Como estávamos sem carro, sugeri que fôssemos de Metrô, outro passeio inédito para o Pedro. Mais uma vez, ele adorou a novidade. A história de passar sob a catraca, o trem por debaixo da terra, a velocidade, enfim, o menino estava em transe.

A estação ficava a apenas três quadras da escola e fomos caminhando. Como ninguém é de ferro, o Pedro já se acomodara nos ombros da Mãe e eu me apressava para alcançar um ansioso João. Na escola, a primeira coisa que vimos foi justamente aquilo que ele mais queria nos mostrar: o texto que havíamos feito juntos, ele começando e eu terminando, devidamente ilustrado por ele. Tudo feito à mão em tamanho gigante e em cores! De comum acordo, havíamos proibido a Mãe de ler o texto antes da exibição. E lá se foi ela mergulhar na incrível história do encontro do príncipe Akmeton e o deus Anúbis numa pirâmide mágica em meio ao deserto egípcio protegida por caveiras guerreiras e sanguinárias! Uau! Não era uma história curta, esclareço. Quase cinco páginas de mistério, conflito, batalhas (menos do que o João gostaria, ele me diria depois) e um pouco de filosofia barata e drama injetados por este que vos escreve. Enfim, ela terminou. O Pedro subia e descia de uma casinha de madeira enquanto o João aproveitava para colocar em dia a conversa com seus pares.

- Então, gostei.

- Gostou nada... tá falando pra me agradar.

- Sério, gostei. Meio violento às vezes, se pensar que a ideia partiu de um menino de sete anos. Mas achei bacana sim.

- Que bom. Também gostei. Foi divertido trabalhar em dupla.

Aos poucos, o sol se escondia e o vento tornava-se mais e mais frio. Como havíamos saído às nove da manhã, estávamos literalmente de mangas curtas. Era hora de voltar para casa. Exaustos, dessa vez fomos de táxi.

Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online.

E-mail: paiepai@grupofolha.com.br

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