Pai é Pai
Cinema pra gente grande
Essa é uma coluna um pouco diferente das demais. Trata-se de um texto sobre cinema, a respeito de um filme que vi recentemente com os meninos. Vamos lá.
Não se assuste leitor adulto, mas "Up - Altas Aventuras" é um dos melhores filmes do ano. Já faz um tempo, desde o lançamento de "Toy Story", em 1995, que nos acostumamos a ouvir que desenhos animados já não são uma forma de entretenimento exclusivamente infantil. Ainda assim, naquele momento, o grande impacto gerado pelo primeiro longa da Pixar não era a sua temática em si, mas a técnica, que decretava uma nova era nos modelos de animação, substituindo o tradicional traço dos desenhos dos estúdios de Walt Disney, como "Peter Pan" e "Cinderella", pela computação gráfica, com sua ilusão de profundidade e formas em terceira dimensão.
O que vimos desde então foi uma história de superação constante. Artística, técnica, temática. Ano após ano, a turma (e aqui trata-se de uma turma mesmo, como aquela formada por Francis Coppola, George Lucas, Steven Spielberg e Martin Scorsese nos final dos anos 60) capitaneada por John Lasseter (o diretor de "Toy Story" e de "Carros" e produtor de todos os demais) vem mostrando que criança não deve ser tratada como debiloide e, mais ainda, que os adultos não devem encarar os desenhos como obras infantilóides.
Ainda que o alvo final seja o público infantil, algumas sequências animadas de longas da Pixar poderiam constar em qualquer antologia das melhores da história da cinematografia mundial. A morte da mãe de Nemo, por exemplo, logo no início do filme, em corte secos, rápidos, cruéis, brutais, é de fazer inveja a Sam Peckinpah. Ou o passeio do ratinho Remy num longuíssimo plano-sequência dos esgotos ao topo de um restaurante numa Paris esplendidamente iluminada como num musical de Vincente Minnelly. Ou o planeta desolado apresentado pelo obsoleto robozinho Wall-e e sua barata de estimação em ousados quase 30 minutos de total ausência de diálogo que poderiam constar da filmografia de Stanley Kubrick. Exagero? Nem tanto, pensa bem.
Em Up, no entanto, o diretor Pete Docter (de "Monstros S.A." e suas portas fantásticas) vai além. Em pouco mais de 12 minutos, também sem diálogo algum, Docter mostra a passagem do tempo na vida de um casal que se conheceu na infância (Carl e Ellie), cresceu alimentando sonhos de aventuras fantásticas, se divertiu com as pequenas coisas, superou a frustração da impossibilidade de ter filhos, encarou o amadurecimento, a dor e, enfim, a morte. Assim, uma vida inteira em 12 minutos, uma vida como outra qualquer, tão ordinária quanto a de qualquer um na platéia, que se vê indefeso, tomado de assalto na escuridão, vendo o relógio correr com aqueles incômodos óculos 3D a cada nó de gravata que Ellie carinhosamente ajeita para Carl antes que ele, mais uma vez, saia de casa para vender seus balões. E assim são vários nós, em diversas gravatas, acompanhando as cores e padrões da moda de cada época, finas, grossas, listradas, de bolinhas, lisas, berrantes, discretas.
Mas, que diabo, isso não é um desenho animado para crianças? Mais que isso. É um grande filme sobre a passagem do tempo. E isso não é pouca coisa.
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Luiz Rivoiro, 41, é pai de João, 7, e de Pedro, 3. Jornalista, trabalhou na "Folha de S.Paulo" por 14 anos. É editor da revista "Playboy" e autor do livro "Pai É Pai - Diário de um Aprendiz". Escreve quinzenalmente para a Folha Online. E-mail: paiepai@grupofolha.com.br |
