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Regra 10

18/01/2008

Carpinteiro campeão

EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online

Um carpinteiro vencendo o jogador que ganha milhões. Um padeiro marcando gol no goleiro da seleção nacional. E não é pelada de fim de semana no playball e nem jogo de festa na praia.

As Copas nacionais são torneios legais em grande parte por criarem este tipo de situação. É a grande chance de o pequeno vencer o grande. De o amador ou semi-amador derrubar o profissional.

No fundo, esses torneios de mata-mata são os únicos que revelam a verdadeira essência do futebol, aquilo que o torna o esporte mais popular do mundo e que desperta a paixão incondicional.

O time pequeno, por mais pernas-de-pau que tenha, tem a chance de em um único jogo (dois, na verdade) armar uma retranca impenetrável e tentar a sorte de conseguir um gol improvável em um contra-ataque. Improvável, mas não impossível.

E a natureza do futebol permite isso, já que um jogo pode terminar com apenas um gol ou até sem nenhum. Em esportes como basquete, vôlei ou qualquer outro em que se marcam muitos pontos, a chance do azarão é mínima.

Por motivo semelhante, um campeonato de pontos corridos tem uma frieza que jamais permitiria a esse time pequeno conseguir a mesma proeza. Uma vitória do nanico em meio a um turno e um returno equivale a nada.

Apesar de não chegar ao exagero de ter um time não-profissional como campeão, a Copa do Brasil já registrou campeões como Criciúma, Juventude, Santo André e Paulista de Jundiaí. É quase impossível imaginar qualquer um dos quatro levantando o troféu do Campeonato Brasileiro.

Sem falar em zebras ao longo do torneio, como as eliminações do Vasco pelo 15 de Novembro de Campo Bom e pelo Baraúnas-RN e a do Palmeiras pelo ASA de Arapiraca.

Mesmo sem terem sido eliminados, São Paulo e Corinthians também já sofreram derrotas para times de muito menos expressão. O time do Morumbi já foi derrotado por Treze da Paraíba e São Raimundo, enquanto os corintianos amargaram uma derrota incrível para o Cianorte.

E é nesses mata-matas que o grito do torcedor sai mais forte. Por mais emocionante que seja a reta final de um torneio de pontos corridos, a emoção, tanto de atletas como de torcedores, nunca será igual à de uma vitória tão definitiva quanto a de um mata-mata. Que dirá de uma final.

Faço todo esse preâmbulo para mostrar um exemplo da Copa da Inglaterra, torneio que neste ano reuniu o esdrúxulo número de 731 participantes --aí sim entram de fato até amadores.

O pequeno Hereford United bateu nesta semana o Tranmere e agora vai enfrentar o Cardiff na próxima fase. O time tenta repetir seu feito de 1972, quando protagonizou aquela que é considerada a maior zebra do torneio de futebol mais antigo do planeta.

Naquela ocasião, bancários, professores, marceneiros e outros amadores do Hereford, da quarta divisão, eliminaram o poderoso Newcastle depois de um empate por 2 a 2 fora de casa e de uma impressionante vitória por 2 a 1 em seu acanhado estádio, ultralotado.

Repare na emoção no gol de Ronnie Radford, carpinteiro e jardineiro, quando seu time perdia por 1 a 0. Enquanto aguarda pela prorrogação, a torcida canta emocionada. E, no final, Ricky George garantiu a vitória dos azarões.

Esse é o espírito.

*

Quero deixar claro aqui que sou a favor do Campeonato Brasileiro por pontos corridos. Mas sou fã do mata-matas e acho que devem estar presentes na Copa do Brasil e nos Estaduais.

*

Tempos atrás, escrevi aqui um texto que comparava a situação de Ronaldinho com a de Rocky Balboa no terceiro filme da série (Ronaldinho e o Olho do Tigre). Por acaso, encontrei fuçando no Google esse texto que analisa a coluna e aprofunda o tema. Vale uma conferida. Em inglês.

Eduardo Vieira da Costa, 30, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia.

E-mail: eduardo.vieira@folha.com.br

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