Regra 10
Obscuro, exótico e pitoresco
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Sou um fã confesso do francês Zidane. Apesar de ele ter sido o maior carrasco do Brasil na história da Copas. Sim, porque nenhum outro atleta teve a capacidade (ou nem mesmo a oportunidade) de acabar com a seleção brasileira em dois Mundiais.
Nenhum outro fez --ou fará, arrisco dizer-- dois gols contra o Brasil em uma final de Copa, como ele fez nos 3 a 0 da França em 1998.
Em 2006, apesar de não ter marcado gol, foi o grande maestro de sua seleção na vitória por 1 a 0 sobre o Brasil. Foi o primeiro de três jogos que em que tive o prazer de acompanhar o craque francês no estádio. Depois, o veria também na semifinal contra Portugal e na final diante da Itália.
Mesmo sem ter feito gol no pragmático time de Parreira, Zidane deu uma aula de futebol no estádio de Frankfurt. Pouco antes do gol, ele havia dado um chapéu fantástico em Ronaldo. Logo em seguida, cobrou a falta da intermediária esquerda na medida para o gol de Henry. E, no resto do jogo todo, a bola simplesmente "colou" em seu pé.
Os dois jogos seguintes só aumentaram minha admiração pelo futebol do meia, mesmo depois da famosa cabeçada na final em Materazzi.
Nesta semana, o francês, eleito três vezes o melhor do mundo pela Fifa, visitou o Brasil e inaugurou uma quadra em evento que contou com promoção da Adidas, de quem é garoto-propaganda.
As perguntas da imprensa e respostas de Zidane nos eventos de que participou giraram em torno do que se esperava, como confrontos com o Brasil nas Copas, opiniões sobre os melhores jogadores da história e por aí vai.
Mas uma declaração em especial me chamou a atenção. Zidane disse desconhecer quase completamente os clubes do futebol brasileiro. Citou apenas Santos e Cruzeiro. Isso por terem sido os clubes formadores de Robinho e Ronaldo, com quem jogou no Real Madrid.
Nada de Flamengo, de Corinthians, de nada. Nem mesmo de São Paulo e Internacional, campeões do mundo pela Fifa recentemente. Que dirá outros grandes times que não têm tido grande expressão internacional ultimamente.
Às vezes não percebemos, mas a verdade é que a maior parte das pessoas na Europa não deve saber nem mesmo onde fica o Brasil. E isso não muda nem quando o assunto é futebol, talvez o único "produto" que de fato carrega o nome do país mundo afora.
E não é por culpa exclusiva de Zidane que ele próprio não sabe nada sobre o futebol do país que ele derrotou duas vezes. O Campeonato Brasileiro fica cada vez menos e menos atrativo, graças à fuga cada vez mais precoce dos atletas para jogar nas milionárias ligas européias.
Pior: cada vez mais os brasileiros (e os argentinos, colombianos, chilenos etc) acompanham mais de perto as competições européias.
Hoje já é mais fácil achar, em uma loja esportiva ou nos camelôs pelas ruas, uma camisa do Real Madrid ou do Milan do que a de muitos times locais. E qualquer criança daqui sabe de cor e salteado todos os principais times da Europa.
Existe até a teoria de que no futuro as pessoas do mundo inteiro irão torcer pelas grandes potências do futebol europeu, e não mais para os times de seus países --se derem sorte, os locais poderão ser o segundo time do coração dos torcedores.
E se nem o Zidane, que é do ramo, conhece as equipes daqui, que se dirá, então, das crianças de lá. Que país obscuro, exótico e pitoresco é esse nosso.
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Na contramão de tudo isso, a Suécia parece conhecer bem ao menos um time brasileiro. Segundo publicou a coluna Painel FC, da Folha, o Corinthians recebeu convite da Câmara de Comércio Brasil-Suécia para um amistoso, sem data e adversário definidos. Segundo o vice de futebol corintiano, Mário Gobbi, "90% dos suecos torcem para o Corinthians".
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Zidane esteve perto de também conhecer o Corinthians. Em 2000, no primeiro Mundial de Clubes da Fifa, o Real Madrid enfrentou o time do Parque São Jorge na primeira fase --empate por 2 a 2. Mas o francês só trocou a Juventus pelo time espanhol no ano seguinte.
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Em 1996, o herói francês de 1998 poderia ter enfrentado outro brasileiro, o Botafogo. Os dois times fizeram a final do tradicional Torneio Teresa Herrera. Mas Zidane ainda não estava no time --chegaria no mesmo ano, vindo do Bordeaux. No jogo, as equipes empataram por 4 a 4 e o Botafogo foi campeão nos pênaltis. Detalhe: o Botafogo jogou usando a camisa do La Coruña. Confira essa pérola.
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Falando em pérola, vale a pena dar uma olhada nessa do Viola dando uma "conferida" na bandeirinha. Destaque também para o enorme logo do KFC na camisa do Duque de Caxias. Que exagero.
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Pérola 3: O menino Jordi ficou famoso no México depois de ter chorado na derrota do Pumas para o Atlante. Mas acabou passando para o lado do rival. Curioso.
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Eduardo Vieira da Costa, 31, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@folha.com.br |
