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Regra 10

27/01/2006

Ética e o diabo no futebol

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EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online

Quem nunca marcou um gol numa pelada e tirou a camisa na comemoração? Eu digo. Quem inventou a norma que manda os juízes aplicarem cartão amarelo a quem fizer isso em jogos oficiais com certeza nunca encostou numa bola.

Sou contra a ética e profissionalismo em excesso no futebol. Não se pode fazer mais nada. Outro dia o atacante Wesley, do Paulista de Jundiaí, quase foi crucificado por ter feito algumas embaixadas em jogo contra o Santos, pelo Paulistão.

O jogador deu exatos cinco toques na bola, sendo que os dois primeiros foram em disputa direta pela posse dela. O jogador acabou dando, portanto, três petecadas que seriam, teoricamente, desnecessárias. Só três. E daí? Não vejo nenhum crime.

Mas muita gente achou um enorme desrespeito. O zagueiro santista Luiz Alberto reclamou como se o adversário tivesse ofendido sua mãe ou roubado seu dinheiro do ônibus. E o detalhe é que Wesley deu seguimento à jogada, passando a bola a um companheiro, e na seqüência saiu um pênalti para o Paulista.

Na Inglaterra, dois casos recentes mostram bem a situação a que chegamos. Nesta semana, a polícia de Manchester apresentou uma queixa formal ao Manchester United e à Federação Inglesa contra uma comemoração de Gary Neville.

Ele não fez nenhum gesto obsceno, não xingou ninguém, não tirou a roupa. O que ele fez foi atravessar o campo do estádio Old Trafford e apontar o dedo para o escudo de seu time diante da torcida adversária, na vitória do Manchester por 1 a 0 sobre o Liverpool --o gol foi marcado por Rio Ferdinand.

Se o simples fato de apontar o dedo para o escudo na própria camisa representa um perigo, imagine o que não poderia acontecer a Rio Ferdinand, que praticou ofensa muito maior contra o Liverpool, ou seja, fez um gol.

Na semana anterior, o meia Robben, do Chelsea, foi expulso após receber o segundo cartão amarelo em uma comemoração de gol contra o Sunderland. O time de Londres saiu atrás no marcador e conseguiu empatar. No segundo tempo, o holandês marcou o gol da virada. Eufórico, pulou as placas de publicidade que rodeiam o campo e comemorou com os torcedores de seu próprio time. Mas isso também não pode.

Entre todas as tentativas de criar um mundo ético e politicamente correto no futebol, no entanto, a que mais me deixou triste nesta semana foi a do América de São José do Rio Preto, campeão da Copa São Paulo de juniores.

Orientado por sua assessoria religiosa, o time tirou do uniforme seu mascote, o diabo, representado pelo personagem Brasinha das histórias em quadrinhos. O próximo passo vai ser "exorcizar" o diabo do estatuto do clube, conforme revelou reportagem da Folha.

Não sou torcedor do América --e nem contra religião--, mas o diabinho é mascote tradicional do time. Não tem nada demais. Clique aqui para ver como ele é simpático.

Não foi o apelido que fez com que os Red Devils (Diabos Vermelhos, Manchester United) ganhassem mais ou menos títulos. Nem América de Cali (COL) ou Independiente (ARG) são hereges por terem o tinhoso como símbolo.

Futebol é diversão. Ou deveria ser. Devíamos pelo tentar nos divertir mais em vez de procurar pêlo em ovo e reprimir algumas das coisas mais legais do esporte.

Em meio a todo esse profissionalismo, busca pela ética e pelo politicamente correto, chama a atenção a postura de Romário, do Vasco. Questionado sobre se era verdade que não havia dormido dois dias por ter ido a uma micareta antes do clássico com o Botafogo, em que marcou três gols, respondeu: "[Não dormi] de quinta para sexta e de sexta para sábado. No sábado voltei para o Rio e fui dormir às 4h da manhã. Meu organismo só funciona assim. Dormi bem antes dos dois jogos anteriores e não marquei gol. Cheguei à conclusão de que tenho que sair". E isso tudo às vésperas de completar 40 anos. Mesmo sabendo que Romário não bebe uma gota de álcool, não dá para tomá-lo como base. E nem como exemplo.

Outro que foge um pouco à regra hoje em dia é Edmundo. Mas no episódio do gol com a mão contra o Mogi Mirim fiquei do lado do jogador. É claro que o juiz tinha que ter anulado, mas se realmente o bandeira foi avisado por um repórter de TV, então sou contra. A regra tem que ser a mesma para todos. Ela prevê que o jogador de linha não pode pôr a mão na bola, mas também diz que recursos eletrônicos não podem ser utilizados. Se o juiz e o bandeira erraram ao não ver que o gol foi com a mão, então eles erraram e pronto. Este tipo de coisa pode acontecer sempre, mas não vai ser sempre que alguém que viu o lance num monitor vai avisar a arbitragem.

Eu sei que estou bem atrasado. Mas para quem não viu, vale a pena ver essa outra paródia daquele comercial da Nike em que Ronaldinho acerta várias vezes o travessão. Desta vez, o truque foi revelado.

Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia.

E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br

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